Balão
dirigível de Santos Dumont completa cem anos

SALVADOR NOGUEIRA
da Folha de S.Paulo
O brasileiro Alberto Santos Dumont é visto por muitos como aquele que
deu asas à humanidade _apesar de toda a polêmica sobre o avião ser um
invento dos irmãos Wright. Mas, antes disso, o que ele deu mesmo foi um
leme.
Foi há exatos cem anos. As invenções que ele produziu em Paris a
partir de 1898 culminaram com o vôo em torno da torre Eiffel, em 19 de
outubro de 1901. Com esse feito, provou que balões podiam ser artefatos
dirigíveis.
Embora o conceito de balão manobrável fosse anterior, sua viabilidade
só foi demonstrada com o trabalho do brasileiro. Para tanto, Santos
Dumont precisou consolidar algumas idéias para os vôos com objetos
mais leves que o ar.
A mais importante delas foi o uso do motor a explosão. Tentativas
anteriores de acoplar um motor a gasolina a um balão de hidrogênio (gás
inflamável) haviam sido catastróficas. Outras abordagens, como motores
elétricos ou a vapor, não tinham potência para tornar os balões
manobráveis.
Vários problemas mecânicos e aerodinâmicos tinham de ser resolvidos
antes do vôo pioneiro. Foram necessários seis dirigíveis para isso,
mas a inventividade do brasileiro jogava a seu favor.
"Ele projetava modelos simples, que facilitavam na hora de
identificar um problema e corrigi-lo", diz Henrique Lins de Barros,
físico do Museu de Astronomia e Ciências Afins, no Rio, e biógrafo do
aviador. "Você vê a evolução de um modelo para outro."
E vê mesmo . Do Nº 1 ao Nº 6 (ele chamava os inventos pelo número),
várias modificações foram introduzidas. O resultado foi a conquista
do Prêmio Deutsch, prometido a quem conseguisse fazer em 30 minutos o
percurso estipulado de ida e volta. Santos Dumont o fez em 30 minutos e
40 segundos, tornando-se o primeiro a conduzir um dirigível. O desafio
das máquinas mais leves que o ar estava vencido. Restava o mais difícil:
fazer voar uma mais pesada.
Em 1906, o inventor realizou seu feito mais famoso, a primeira demonstração
pública sem acidentes de um veículo voador mais pesado que o ar. Em 23
de outubro, o 14-Bis (que ganhou o nome por ter sido testado acoplado ao
dirigível Nº 14) percorreu 60 metros, a dois metros do chão _era o
primeiro vôo público de um avião.
Os irmãos Wilbur e Orville Wright já voavam na Carolina do Norte, EUA,
desde 17 de setembro de 1903, a bordo de seu Flyer. Mas os vôos eram
secretos, e seu veículo era incapaz de decolar sem ajuda externa. Os
primeiros vôos eram feitos com a ajuda do vento, para facilitar a
subida. Mais tarde, a dupla iria desenvolver uma catapulta capaz de
atirar o avião ao ar.
Em razão disso, alguns defendem a primazia de Santos Dumont, como Lins
de Barros. "A Federação Internacional de Aeronáutica considera vôo
completo aquele em que a aeronave decola, voa e pousa por seus próprios
meios. O vôo do 14-Bis é o primeiro vôo homologado da história."
Preciosismo técnico. Por esse critério, o X-1, em que o piloto Chuck
Yeager rompeu a barreira do som, não é considerado avião pela federação
_a aeronave decolava acoplada a outro aparelho.
"Santos Dumont merece espaço especial na história da aviação,
mas certamente não deve ser creditado como inventor do avião",
diz Peter Jakab, curador do Museu Nacional do Ar e do Espaço, da
Instituição Smithsonian, EUA.
Se os irmãos Wright são os legítimos pioneiros do avião, Santos
Dumont foi um promotor muito maior de sua evolução. Seus vôos
despertaram muito interesse para a nova tecnologia. "Ele era muito
carismático e fez muito para popularizar a aviação", diz Jakab.
Sua abordagem com relação à aviação, aliás, é o que mais chama a
atenção dos estrangeiros. O jornalista americano Paul Hoffman começou
há alguns anos a pesquisar a vida de Santos Dumont. O resultado é uma
nova biografia do aviador, que deve sair em 2002.
"O que me interessou foi a diferença de abordagem entre Santos
Dumont e os Wright", diz Hoffman. Enquanto os Wright tinham como
meta ganhar dinheiro, Dumont tinha outra motivação. "Ele era um
idealista", diz. "Queria que o avião ligasse as
pessoas."
O brasileiro nunca patenteou nenhum de seus inventos. Ao contrário,
chegou até a incentivar a popularização do conceito de seu "Demoiselle",
cujo desenvolvimento começou em 1907.
Segundo o artista plástico Guto Lacaz, um admirador de Santos Dumont,
esse veículo, além de dar ênfase ao transporte aéreo individual (a
meta do inventor com seus dirigíveis e aviões), era "um design de
enorme elegância".
"Essa aeronave foi a primeira a ter estabilidade e configuração
de um avião moderno, com a cauda e o leme atrás", diz Lins de
Barros.
Dumont foi também o introdutor de outras tecnologias presentes na aviação
moderna_a começar pelo próprio uso de rodas para a decolagem,
demonstrado pelo vôo precário do 14-Bis. Os Wright iriam se render a
esse conceito e substituir a catapulta por rodas a partir de 1910.