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Crise no setor aeronáutico leva a demissões na Embraer

 

São José dos Campos - A crise na indústria aeronáutica mundial, acelerada pelos ataques terroristas aos Estados Unidos, atingiu em cheio a Embraer e colocou em estado de alerta todas as empresas brasileiras do setor, concentradas na cidade de São José dos Campos, no interior de São Paulo. É a segunda vez em 11 anos que a cidade paga alto por uma crise que começa na fabricante de aeronaves. A diferença é que, desta vez, a economia local, que se diversificou na década de 90, parece ter mais condições de suportar o impacto, ainda que demissões, perda de arrecadação, queda nas vendas e redução dos hóspedes dos hotéis sejam inevitáveis.

Por causa da crise, a Embraer enfrentará uma perda de US$ 700 milhões nas receitas deste ano. “Em 2002, a queda de receita deverá chegar a US$ 1,2 bilhão”, adiantou o diretor-presidente da empresa, Maurício Botelho. Segundo ele, deveriam ser entregues este ano 200 aeronaves. “Vamos entregar 160 este ano e 135 no ano que vem, enquanto a previsão inicial era de 205 aviões”, afirmou Botelho. A revisão dos prazos de entrega, feita pelos clientes, causou a redução do ritmo de produção, que já foi de 16 aviões/mês e agora é de 11 aviões/mês.

Esses fatos fizeram a empresa demitir, no início de outubro, 1,8 mil funcionários em todo o mundo, dos quais 1,5 mil das unidades instaladas em São José dos Campos. Agora, a maior empregadora da cidade tem por volta de 10,9 mil empregados.

Segundo Botelho, os problemas da Embraer podem ser amenizados pela boa notícia que saiu na sexta-feira: a Organização Mundial do Comércio (OMC) decidiu pela retirada dos subsídios do governo canadense à maior rival da Embraer no mercado mundial de aviação regional, a gigante Bombardier. “Essa disputa já tem 6 anos. Agora caiu a máscara do governo canadense e da Bombardier”, disse.

Ele acredita que a Embraer pode ser beneficiada pela decisão, mas apenas quando o mercado mundial se reaquecer e, nem por isso, as demissões devem ser repensadas. “Até agora não há nada que nos faça rever as demissões”, ressaltou o executivo.

Em outra frente, a Embraer passará a dar mais atenção ao mercado militar, que, ao contrário da aviação comercial, está em alta. Este ano, a área militar deve responder por cerca de 6% das receitas. "Junto com a aviação corporativa (2%) e o serviço ao cliente (5%), a área de defesa responde por 13% das nossas receitas. A nossa expectativa é de que, em três anos, essas três áreas juntas cheguem a 25%", disse Botelho. Seria uma volta às origens. "Desde que a Embraer foi criada até 1996, a área militar respondia por 40% do faturamento. De 96 para cá é que a aviação comercial cresceu substancialmente", disse Botelho. O primeiro passo para o crescimento da área militar seria vencer a concorrência da Força Aérea Brasileira (FAB) para a venda de caças Mirage 2000, no valor total de US$ 700 milhões.

Fornecedores já sofrem efeitos do desaquecimento

O problema é que toda a cadeia produtiva ligada diretamente à ex-estatal já está sendo afetada. O menor ritmo de produção significa que a empresa passará a comprar menos peças dos mais de 50 fornecedores brasileiros devido aos grandes estoques. A queda nas vendas tende a provocar demissões nas empresas fornecedoras, muitas delas criadas por ex-funcionários da Embraer. Algumas já demitiram e outras devem fazê-lo em breve. O faturamento do ano também está sendo revisto.

A Aeroserve Serviços Aeronáuticos, empresa que presta serviços na montagem e manutenção de subconjuntos, demitiu 43 funcionários no último dia 15. “Hoje a empresa ficou com 300 funcionários, divididos nas duas unidades em São José e dentro da fábrica da Embraer”, afirmou o gerente administrativo da empresa, Lúcio Simão dos Santos.

Segundo ele, a Aeroserve demitiu para adequar a produção da empresa à demanda do mercado e, nos próximos dois meses, deve ter uma perda de 50% a 60% no faturamento em relação ao mesmo período de 2000. “Nosso faturamento anual deve fechar igual ao do ano passado, mas por conta do ótimo primeiro semestre”, analisou Santos. O executivo não revelou quanto a empresa fatura anualmente e disse não saber quando o setor deve retomar o nível de atividade de antes dos ataques terroristas aos Estados Unidos em 11 de setembro.

Na Mirage, que fornece peças mecânicas usinadas para a fabricante de aviões, aconteceu uma demissão e outros dois funcionários deixaram a empresa voluntariamente. “Tivemos sorte que esses dois saíram, porque teríamos que demitir do mesmo jeito”, disse o sócio-proprietário da empresa, Hugo Dario Cristaldo. “Nosso faturamento caiu, então tivemos que fazer ajustes”, disse, sem revelar de quanto foi a queda nem qual o ganho da empresa. Segundo ele, as horas extras foram cortadas e o estoque e os gastos administrativos diminuídos.

A Mirage tem agora 82 funcionários na sua única unidade de produção, mas ainda não sabe se atravessará o período de turbulência com todos eles. “Não queremos demitir porque nossa mão-de-obra é muito especializada, foi investido muito em treinamento”, disse Cristaldo.

A SPU informou que está replanejando os investimentos que seriam feitos em máquinas e equipamentos. “Vamos adiar os financiamentos”, disse o proprietário da empresa, que também produz peças usinadas para a Embraer, Urbano Araújo. Ele não quis revelar o tamanho da desaceleração pela qual passa a SPU, mas disse que a empresa foi “fortemente impactada” e que demissões “provavelmente” vão acontecer na companhia.

Consórcio

Há cerca de um ano, para tentar diminuir a dependência da fabricante de aeronaves, 15 dos 50 fornecedores formaram o consórcio High Technology Aeronautics (HTA). “São empresas detentoras de tecnologias diferentes e complementares, que juntas podem formar subconjuntos para serem exportados”, disse Urbano Araújo, que é também diretor-superintendente do HTA.

O HTA tem um convênio com a Agência de Promoção de Exportações (Apex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, para trabalhar no aumento das exportações. Na semana passada, 10 dessas empresas obtiveram aval do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para rolar dívidas do Financiamento de Máquinas e Equipamentos (Finame) por seis meses.

Segundo o diretor regional da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Mario Sarraf, os financiamentos dessas empresas somam R$ 3,3 milhões. “Vai ser um grande alívio para nós. Se não fosse isso, não sei como passaríamos pela crise”, afirmou o sócio-proprietário da Mirage, que contratou financiamento para a compra de máquinas, Hugo Dario Cristaldo.

 

       

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