Alguns
Questionamentos sobre Combustível Glow
Colaboração
de Eduardo Diniz Esteves
Com a invenção da vela de
filamento incandescente ("glow plug") no final dos anos 40,
substituindo as tradicionais velas de ignição por faísca e seu
pesado sistema de ignição, passou-se a utilização do metanol (álcool
metílico) como combustível dos novos motores em substituição à
gasolina. Isto foi devido, entre outros fatores, pela ação
catalisadora da liga de platina ou ródio do filamento da vela "glow"
na combustão do metanol. Porém o óleo automotivo anteriormente
utilizado, mostrou-se inadequado entre outras coisas, pela sua
dificuldade de misturar-se ao metanol.
O óleo de rícino passou a ser o
lubrificante dos combustíveis para motores "glow". O
combustível básico era composto por 75% de metanol e 25% de óleo de
rícino. Se fosse desejável maior potência e funcionamento mais
suave, fazia-se a adição de nitrometano, normalmente na proporção
de 5%.
Os motores eram desenhados para
trabalharem com este combustível. O funcionamento confiável em
marcha-lenta não era considerado pois carburadores em motores para
modelismo não eram de uso geral. Os motores funcionavam a toda
velocidade ou não funcionavam.
Por muitos anos, estes foram os
ingredientes básicos: metanol, óleo de rícino e nitrometano.
Entretanto, à alguns anos atrás, alguns fabricantes de combustíveis
começaram a fazer experiências com novos tipos de lubrificantes sintéticos,
assim chamados, porque são produzidos quimicamente e não diretamente
de vegetais ou do petróleo.
Os novos lubrificantes sintéticos
oferecem algumas vantagens. Primeiramente e a mais fácil de observar
e que eles deixam menos resíduos no modelo. Outra vantagem, não tem
tanta tendência para a formação de carbono e verniz nos motores
como o óleo de rícino.
Entretanto, os óleos sintéticos
de modo geral, possuem alguns inconvenientes:
1- Os melhores óleos custam mais do que o óleo de rícino.
2- Pela sua natureza química, tendem a causar oxidação em
alguns motores.
3- Os óleos sintéticos normalmente tem menos resistência às
altas temperaturas.
POR QUE O COMBUSTÍVEL É TÃO CARO
?
Na realidade o preço do combustível
é artificialmente baixo, com margem de lucro para os fabricantes
extremamente baixas. O custo do nitrometano, óleos e embalagens tem
aumentado muito. Como são muito poucos os fabricantes de matérias-primas,
nitrometano principalmente, não há muito como diferenciar os preços.
Se um combustível for oferecido por um preço muito baixo, desconfie
da qualidade e correção da mistura.
QUE PERCENTUAL DE NITRO DEVEREI USAR
?
Dependerá da utilização e
condições topográficas e climáticas. De modo geral, baixas
temperaturas e/ou altas altitudes fazem com que os motores necessitem
de uma maior proporção de nitro.
Como teste, verifique o
funcionamento do motor após desconectada a bateria da vela. Se não
houver queda de rotação a proporção de nitrometano é suficiente.
Entretanto se você notar queda de rotação, mude para a próxima
mistura com maior proporção de nitro. Se você não conseguir
marcha-lenta adequada, o problema pode ser mecânico (vela ruim, má
regulagem; etc.) ou combustível contaminado por umidade.
TEREI MAIS POTÊNCIA NO MOTOR
COMPRANDO COMBUSTÍVEL COM MAIS NITRO ?
Até certo ponto. Entretanto, na
maioria dos motores "sport" de hoje, raramente deverá ser
usado mais de 20% de nitro. Estes motores não foram concebidos para
utilizarem altas taxas de nitro. Os motores de competição podem com
sucesso fazer uso de combustíveis altamente nitratados porque foram
desenhados com diferentes taxas de compressão; etc.
COMO O NITROMETANO ADICIONA POTÊNCIA
?
Todos os motores de combustão
interna dependem de uma proporção crítica de combustível e oxigênio.
O nitrometano cria oxigênio no processo de combustão, permitindo ao
motor queimar o combustível aproximadamente 2½ mais rápido em relação
à proporção de nitro, do que queimaria usando somente o metanol.
Mais combustível queimado = maior potência.
O NITROMETANO É ÁCIDO E CAUSA
FERRUGEM NO MOTOR ?
Não, o nitrometano não é ácido.
Os fabricantes de nitro afirmam convictos que o produto não causa
ferrugem ou corrosão. O nitro não se "decompõem em ácido nítrico"
ou "é feito de ácido nítrico" como afirmam algumas
pessoas. Nitrometano é feito do propano. O nome vem do processo usado
para sua fabricação.
É VERDADE QUE A ADIÇÃO DE NITRO
FAZ COM QUE O MOTOR FUNCIONE MAIS FRIO ?
A adição de nitro permite uma
queima melhor do combustível e produz mais força. Não há como
aumentar a queima e torna-la mais fria.
DEVO AMACIAR MEU MOTOR UTILIZANDO UM
COMBUSTÍVEL COM POUCO OU NENHUM NITRO PARA DEPOIS PASSAR A UM
ALTAMENTE NITRADO ?
Durante o amaciamento, o motor
deverá utilizar o mesmo combustível que você pretende usar no dia a
dia, mais ou menos 5%.
Eis o por que: Durante o
amaciamento, partes vitais do motor estão em processo de ajuste entre
si. Se após o período de amaciamento você mudar para uma mistura
contendo uma proporção muito maior de nitro, fará o motor trabalhar
em uma faixa inteiramente diferente de temperatura. Como o metal
expande quando aquecido, o motor deverá passar por um novo processo
de amaciamento. Ao supor que o motor já esteja amaciado, você poderá
danificar o que poderia ser um bom motor.
QUAL DEVERÁ SER A QUANTIDADE
CORRETA DE ÓLEO NO COMBUSTÍVEL ?
QUAL O PERCENTUAL CORRETO DE ÓLEO NA MISTURA COMBUSTÍVEL ?
Esta é uma questão muito mais
complexa do que aparenta ser.
Por vários anos, articulistas
respeitáveis e fabricantes de motores recomendavam que os combustíveis
tivessem uma proporção de 18% a 20% de óleo. Na verdade, poucos
combustíveis das marcas líderes atualmente chegam ao total de 20% de
óleo na mistura. Por quê isto? - Porque com o passar dos anos
mudaram a metalurgia e os lubrificantes. Os metais usados nas superfícies
que se atritam nos motores atuais variam consideravelmente dos metais
da geração passada. Novas tecnologias foram incorporadas. Os motores
aeronáuticos dos anos trinta, tinham uma expectativa de vida de
algumas poucas centenas de horas no máximo entre as necessidades de
recondicionamento. Hoje a expectativa é de 2.000 horas ou mais entre
os recondicionamentos.
Também houve muito progresso na
tecnologia dos motores de modelismo. Além dos modernos métodos de
usinagem de girabrequins, camisas, pistões; etc., novas ligas nestes
componentes e mancais garantem muito maior durabilidade do que antes.
Hoje, moderno maquinário CNC permite uma precisão nunca sonhada por
uma geração atrás, fazendo com que as partes dos motores sejam
intercambiáveis com qualquer motor da mesma marca, modelo e tamanho.
Como há algum tempo atrás, a
tolerância dos ajustes era muito maior, havia uma necessidade
maior de lubrificação. Um ajuste apertado requeria grande quantidade
de lubrificante para redução do calor gerado pelo excesso de atrito,
da mesma forma um ajuste folgado também necessitava de muito óleo
para compensar a folga entre as partes. Ainda hoje, alguns fabricantes
recomendam uma quantidade elevada de óleo, por não terem controle
sobre a qualidade do lubrificante usado. Baseando-se na teoria que 20%
de qualquer óleo razoável deve ser suficiente, eles tentam se
resguardar.
Mas como mencionado acima, os
lubrificantes mudaram e aditivos sequer cogitados anteriormente
(aditivos para pressões extremas, para aumento do índice de
viscosidade, anticorrosivos, antiespumantes; etc.) agora melhoram em
muito as características destes óleos o que, juntamente com os novos
materiais e tecnologias na fabricação de motores, permite que os
melhores combustíveis tenham uma formulação muito mais precisa da
quantidade e tipo de lubrificante para cada caso específico.
QUAL É O MELHOR? ÓLEO DE RÍCINO
OU SINTÉTICO ?
Cada tipo de óleo rícino e sintéticos
- tem características diferentes. O óleo sintético tende a um
funcionamento mais limpo (eles não tem tanta tendência a formar depósitos
de carbono e verniz como o rícino). No entanto, são mais caros e
podem causar corrosão se inibidores não forem usados.
O óleo de rícino suporta
temperaturas de operação mais altas que os óleos sintéticos e é
um bom inibidor natural de corrosão. É também mais barato.
Entretanto, suja mais o modelo e tende a formar depósitos de carbono
e verniz se for de baixa qualidade ou usado em grande quantidade.
QUAL É A DIFERENÇA ENTRE OS
COMBUSTÍVEIS 2-TEMPOS E 4-TEMPOS ?
Os motores 4-tempos tem mais peças
móveis e ao contrário dos motores 2-tempos, processa a queima do
combustível uma vez a cada duas revoluções normalmente funcionando
em rotações mais baixas, portanto gerando menos calor e trabalhando
a uma temperatura mais baixa. Por estas razões, deve-se usar somente
óleo sintético nos combustíveis 4-tempos. O óleo sintético de
qualidade é perfeitamente adequado à temperatura de funcionamento
destes motores e evita o comprometimento de suas muitas partes móveis
com a formação de depósitos de carbono e verniz associados ao óleo
de rícino.
DEVO USAR ÓLEO
"AFTER-RUN" ?
Usando somente combustível de
alta qualidade não haveria problema de corrosão nos motores por
causa da qualidade dos ingredientes e inibidores utilizados. Porém a
corrosão é quase sempre causada pela absorção de umidade pelo
metanol quando o recipiente é mantido aberto ou quando é deixado
combustível no motor ao final dos vôos.
Deve-se ter o cuidado de retirar todo o combustível do motor
antes de guarda-lo, mesmo de um dia para o outro. O uso do óleo
"after run" é uma válida precaução a mais.
QUANTO TEMPO LEVARÁ O COMBUSTÍVEL
PARA DETERIORAR ?
O combustível "glow"
pode durar quase indefinidamente SE for mantido hermeticamente
fechado, protegido o máximo possível do contato com o ar.
Praticamente, a única coisa que deteriora o combustível é a absorção
da umidade do ar pelo metanol.
A rapidez com que isto pode
acontecer é fantástica. Um recipiente deixado aberto ou mesmo uma
pequena passagem de ar, após uma hora em tempo úmido já estará
arruinado. Para os céticos, considere uma coisa que todos nós já
observamos: Observe como uma gota de combustível respingada sobre a
caixa de campo quase imediatamente torna-se esbranquiçada. É o
metanol absorvendo a umidade. A água não se mistura com o óleo, daí
a coloração esbranquiçada.
Sabemos se o combustível
absorveu muita umidade, usando-o. O primeiro sinal é a dificuldade ou
completa impossibilidade de se obter uma marcha-lenta normal.
Tipicamente, a partida do motor será difícil e este morrerá ou
funcionará de modo inconstante tão logo a bateria seja removida da
vela. Para verificar a suspeita, drene o tanque, substitua por combustível
novo e de partida novamente. Se o motor funcionar corretamente, não
haverá mais dúvida.
Infelizmente não há nada que se
possa fazer para reconstituir um combustível que absorveu muita
umidade. Tome alguns cuidados: Mantenha o combustível hermeticamente
fechado, minimize os espaços vazios, feche os tubos do tanque de
combustível quando não estiver usando o modelo e abra o mínimo possível
o recipiente. A propósito, recipientes plásticos provavelmente
manterão o combustível por mais tempo que os de metal, desde que
eles aquecem e resfriam menos, minimizando a condensação. Como uma
pequena quantidade de umidade está sempre presente em qualquer
combustível, o plástico também não é sujeito a problemas com
ferrugem ao ser guardado por um longo período de tempo.
Uma observação final: Se você
utiliza recipiente de metal, após algum tempo, ele certamente estará
enferrujado em suas junções internas. Para evitar séria contaminação
do combustível, troque por um recipiente novo regularmente.
DEVO AGITAR O COMBUSTÍVEL ANTES DE
USAR ?
Provavelmente não. Os
lubrificantes modernos dificilmente se separam dos outros
ingredientes. A exceção poderia ser combustíveis altamente
nitratados que contenham somente óleo de rícino, pois o óleo não
é solúvel em nitrometano e poderá separar-se quando houver mais de
40% de nitro. Isto geralmente não acontece com misturas rícino/sintéticos,
porque a maioria dos óleos sintéticos agem como co-solventes
facilitando e mantendo a mistura dos componentes.
AS VEZES VEJO UM MATERIAL PARECIDO
COM MIGALHAS DE BOLACHA NO MEU COMBUSTÍVEL. ISTO É PROBLEMÁTICO ?
Provavelmente não. O que você
está vendo é o efeito da mudança de temperatura no óleo de rícino.
Se você colocar este material em sua mão, não poderá senti-lo e
dissolverá ao toque. Normalmente, desaparecerá ao permitir que o
combustível retorne à temperatura ambiente e agitando o recipiente.
Raramente, eles causarão problemas de carburação.
QUE INDICAÇÃO A COR DO COMBUSTÍVEL
ME OFERECE ?
Nada - Exceto que o fabricante
adicionou um corante inerte para proporcionar um visual atrativo,
diferenciar os vários tipos; etc. Os corantes não modificam a
performance do combustível. Todos os combustíveis apresentam como
cor natural uma variação entre palha e limonada.
MEU MOTOR TEM FUNCIONADO
TERRIVELMENTE QUENTE ALGUMAS VEZES.
Provavelmente de duas, uma:
Agulha muito fechada ou nitro em excesso, ou as duas coisas.
Primeiramente enriqueça a mistura abrindo a agulha em alguns cliques
fazendo cair as rotações em aproximadamente duzentas RPM. Se não
melhorar, passe para um combustível com 5% a menos de nitro. Se o
motor continuar a funcionar quente, é porque há algo errado
mecanicamente como por exemplo o posicionamento incorreto do
tanque que empobrece a mistura quando em vôo; etc.
MEU MOTOR FUNCIONA MUITO BEM UM DIA.
NO DIA SEGUINTE, SEM QUE EU MEXA EM NADA E USANDO O MESMO GALÃO DE
COMBUSTÍVEL, ELE FUNCIONA MUITO RICO OU MUITO POBRE.
Mudanças de temperatura e
umidade causam grandes diferenças na performance dos motores. O ar
quente e úmido é menos denso que o ar frio e seco. Isto significa
que a proporção da mistura ar/combustível muda tendo o mesmo efeito
das mudanças na posição da agulha. Corrija abrindo ou
fechando a agulha.
QUANDO MUDEI DE MARCA DE COMBUSTÍVEL,
MEU MOTOR NÃO FUNCIONOU ADEQUADAMENTE.
Isto não é surpreendente.
Diferentes fabricantes utilizam óleos com diferentes viscosidades;
etc. e isto altera os ajustes do carburador. Alguns fabricantes também
utilizam ingredientes em proporção incorreta e/ou de baixa
qualidade. As marcas conceituadas trazem especificados no galão a
proporção da mistura assim como o tipo de óleo utilizado, além de
oferecerem uma gama variada de tipos de mistura que atendam a todas as
demandas do mercado de motores.
POSSO MISTURAR MARCAS DIFERENTES DE
COMBUSTÍVEIS ?
Não é recomendável. Há a
possibilidade de que os lubrificantes utilizados por um fabricante não
sejam compatíveis com aqueles usados pelos outros fabricantes.
Pode-se misturar combustíveis da mesma marca e para as mesmas aplicações
para se obter, por exemplo, uma proporção diferente de nitro.
QUAL É O EFEITO DA LUZ DO SOL E DA
TEMPERATURA NO COMBUSTÍVEL ?
Dentro de limites razoáveis, as
mudanças de temperatura para cima ou para baixo, tem pouco efeito na
qualidade do combustível.
O ideal é manter o combustível a
temperaturas entre 10 e 30 graus.
A radiação
ultravioleta (UV), presente na luz do sol, possui um efeito de
deterioração do nitrometano em sua forma não diluída. Testes práticos
parecem indicar que não há efeitos negativos quando o nitrometano
encontra-se diluído no combustível. Um teste deixando combustível
exposto à luz direta do sol durante todo o dia, por um período de 30
dias, não produziu diferença mensurável.