Rodolfo Alonso

 

Poemas de “SAÚDE OU NADA”

(Buenos Aires, 1954)

  

 

Traduções de José Augusto Seabra

 

 

DAR DE BEBER

 

submetidos a uma ocultação tão vasta

a um tal golpe da sorte

um homem morre uma fronteira alarga-se

sostendo até ao fim um dia em vagas

 

 

 

 

LIVRE LIVRES

 

convido-os

a passear o amor entre os indiferentes

a sua cor sem moral o seu altar em armas

a sua identidade feroz que as crianças inauguram

 

previnem esta cena em assembleia

eles os esperados

 

 

 

 

 

CONFABULAR

 

é a planura o filho perfeito

os que abrimos a manhã com os dentes

vivendo até cá acima

o vinho de mão em mão

o poema de mão em mão

o sangue de mão em mão

sim é verdade

haveria que dizê-lo a toda a gente

 

 

 

 

 

NOITE DE MENDIGOS

 

se convives

em todos os alcóois da terra

há uma luz para o teu rosto

 

tempo da paixão com olhos na boca

com céus na boca

sim a vida destapa a sua memória

atravessa os teus arcos e ri-se

 

uma manhã heroica um ágil sulco

ressoando nas tuas costas

 

 

 

 

 

A CINTURA DO MUNDO

 

a morte há-de morrer

sabemos o que amamos

em que pedra em que raiz

havemos de aventurar-nos

 

resiste a sua virtude

o que nos resta em paga

a condição o olho triste a palavra

a repartir com os homens

 

tu confirmas a vida com a voz

deixas cair o teu aroma e desnudas-te

em todos os que partem

 

 

 

 

 

A MOÇA DAS ILHAS CANÁRIAS

 

a que eu amo distribui o tempo

conserva nas suas mãos as raízes das horas

saúde nos seus sinos

na sua maravilha convertida em chuva

no seu coração em declive

 

na cume a morte no fundo o amor

amor as suas pupilas amor cavalga a certeza

e ela convive com os homens

 

hoje as suas ilhas habitam-me a garganta

a nadadora negra está de pé na margem

e faz rolos de cabelo com o vento

 

a que eu amo persiste no inverno

entrega-se e foge

para logo voltar a curvar-se

levanta-te esperada o teu coração é um crisol

mas há ainda uma espada no teu sorriso

 

a que eu amo está junto de mim

a nossa força é a força dos homens

está nas minhas veias e nos meus músculos

quente como o pão como o sangue como o vinho

 

 

 

 

 

A MÃO QUE CANTA

 

Quando chegares ao fundo encontrarás um clima claro e fértil, de fáceis estragos, um dia cativo cuja luz não irradia senão sobre a força do desordem.

 

A rebeldia que sentes ser tua, ponto extremo da tua vida, a rebeldia que não te negas a partilhar, descobre-se às vezes partindo a cabeça do seu próprio dragão.

 

Finalmente chegaste a verificar, depois de breves ou longos encontros, que o bem e o mal formam-te um só meridiano.

 

E que tanto um como outro te são hoje necessários.

 

O amigos, a mulher, então, todos os que se elevam ao sol e à sua fácil honradez, não poderiam compreender este rancor que sabes útil, esta cadência do mundo na tua cintura..

 

 

 

 

 

VIVA A VIDA

 

mereces não estar só

com a tua esperança molhada a tua saúde

removendo os escombros da tua poesia

 

digo do mundo em redor do mundo

digo a vida que está sempre aquí

 

além o tango te volve volteando

te une contigo

lhe toma o tempo ao tempo

a uma violência chamada Madalena

à tua alegria tremente

 

a infância custava-nos muito menos

 

é preciso sabê-lo

e durar como uma mão estendida

 

além voltas a encontrar-te

construiste com o teu amor um totem

para sempre presente

 

a caminhar a dobrar-se sobre a terra

ocupa-te de todos

olha-te

bebe a luz o teu vinho

a luz feita à tua semelhança

 

 

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