RODOLFO ALONSO,

POETA VISTO ATRAVÉS DE UMA FRESTA

 

por Milton de Lima Sousa

 

Não conheço o poeta, apenas sua obra poética. No entanto, temos mantido uma correspondencia fraterna por mais de trinta anos. Sob o signo da Poesia, esse convívio já se tornou matéria puramente espiritual. Afinidades múltiples no plano literário, tem consolidado essa amizade que tanto prezo. Até há pouco tempo, Rodolfo Alonso não me conhecía nem através de retrato. Deslumbramentos mútuos, próprios dos poetas, nos aproximaram cada vez mais. O gosto por um poeta ou por um poema, nos fez ver melhor nossas inclinações pessoais. A nossa amizade é, pois, um fato raro nos dias que correm.

Agora me peden um prólogo para uma antologia da sua obra poética. O que dizer de poemas que me acompanham dia a dia? O que falar de uma poesia que me atinge profundamente? A única coisa que posso fazer é colocar no horizonte, como uma sucessão de visões, os poemas que tenho lido com obsessivo silêncio. O poema La sangre al aire, por exemplo:

 

De tanta muerte triste lenta

De tanta muerte exagerada

De tanta muerte apresurada sucia

De tanta muerte amontonada

 

¿Será posible hacer que nazca

algo que tenga algo que ver

con la mismísima

Señora Vida?

 

         Despojado como um ofego, este poema me parece uma navalhada no escuro, uma bofetada dada com um tremor de ternura. É o retrato de um espírito em sua agonia mais profunda, o testemuho terrível de alguém que insiste em ser humano em meio às experiências mais atrozes. Retrata não só uma geração atormentada como abre perspectivas ainda mais dolorosas. Para o poeta, a pergunta candente acaba se transformando em outra pergunta: devo continuar escrevendo, depois de tanto sofrimento? De uma forma ou de outra, todo poeta acaba chegando a essa pergunta. Mais Rodolfo Alonso soube encará-la de forma corajosa. E acabou por respondê-la em outros poemas, principalmente em El dolorazo:

 

¿Cómo escapar

a este dolor?

 

¿Respiración, jadeo,

drogas, alcohol,

olvido, negación?

 

¿Cómo escaparme

del dolor?

 

Probándolo.

 

         Este nó na garganta, esta secura de expressão iluminada, é fruto de uma angústia existencial, de um beco sem saída perfeitamente despojado. A Poesia é sempre uma experiencia ética do mais alto nivel. Rodolfo Alonso soube vivê-la, sem apelar para máscaras dúbias. Enfrentou-a a seco, por assim dizer. Viveu situações límites que puseram em jogo a verdade de sua vocação, e evitou os gestos duros, as exteriorizações fingidas. Em nenhum momento, hesitou em continuar fazendo Poesia. Sufocando a realidade através de palavras certas, viveu a esperança mantendo o momento lívido da Poesia. Por isso, no poema que acabo de citar e em muitos outros, há um traspassar bíblico, um ajuste de contas com algo religioso que em vão ele tenta esconder. O diálogo entre a realidade e a Poesia, sempre é penoso, e não raro acaba em monólogo agonico. Fiel ao seu destino de poeta, Rodolfo Alonso fitou o horizonte de cabeça erguida, imerso em perguntas devastadoras. Nós sabemos que muitas vezes, as perguntas são respostas. Quem lida com Poesia sabe que o poeta não pode abandonar a Poesia. Debe levá-la até o fim, desenrolando todos os labirintos. Essa situação quase sempre libera um sinal que salva: o amor. Foi através desse sinal que Rodolfo Alonso venceu as estocadas da dor. Cantou a mulher e sua infinita beleza, juntamente com os múltiples aspectos da Natureza. Ao perceber que a tormenta limpava seu coração, viu de perto o orvalho, o vento e todas as coisas simples da Natureza. Em outro poema lapidar, Alonso diz:

 

Deja entrar al amor

lavando todo con su lava

 

         A palavra lava está muito bem colocada. Essa torrente que cobre o solo, é também uma língua de fogo que espalha na terra um beijo misericordioso. Crestando tudo, ela mostra mais amor. As feridas são refeitas pelo arco-íris ou talvez pelo despertar de uma flor. Enfim, o ponto crucial da poesia de Rodolfo Alonso é o caminhar constante da dor. Ele não a escolheu, foi escolhido por ela. Mas é uma dor digna e transfiguradora, dor feita de decoro. Essa postura do poeta não cai em nenhum momento. Ler esta poesia é enfrentar cara a cara, as palavras que foram mastigadas como signos inadiáveis. Crispado de terror, o fiapo humano que une todos os poemas, chega a um clarão que nos acalanta.

         Mas a temática de Rodolfo Alonso completa-se através de uma reflexão sobre o próprio sentido do lirismo. Os meandros de sua arte incomparável estão no poema La casa del canto:

 

La palabra de sílex

contra el pecho de roca

 

belleza desterremos

los chivos emisarios

 

la palabra de lava

en medio del espanto

 

miserables del mundo

uníos desuníos

 

el viento es un aliado

que robará esta hoja

 

Por momentos imaginamos a palavra sílex sendo jogada ao peito dos indiferentes, mas com aveludada ternura. A peregrinação amorosa do poeta continua. A folha roubada pelo vento, vai cair em outras mãos, e dessa forma salvar o grito e a Poesia. A angústia de ter sido capaz de fazer o poema, traspassa toda a obra de Rodolfo Alonso. Que o leitor saiba lê-la, porque o poeta acentua:

 

Yo no hablo

para nadie

 

En el vacío

es imposible respirar

 

 

                                                                                   (Curitiba, Brasil, 1990)

 

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