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POEMAS INÉDITOS RECENTES DE RODOLFO ALONSO
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Trad.
de Anderson Braga Horta A
POESIA DE RODOLFO ALONSO por
António Ramos Rosa A
voz de Rodolfo Alonso tem um acento de autenticidade iniludível. Discreta,
lenta, como que distante, ela apoia-se nas palavras mais simples e
quotidianas, nas locuções aparentemente mais insignificantes, como que
para verificar a valor da linguagem, a resistência dos seus nexos. Esta
distância que acentuámos é o sinal de uma intimidade e de um rigor. É
que esta voz é sempre de alguém, de um hombre. Mas se o seu timbre
não fere porque discreto, se o poema tende a resolver-se circularmente numa
leve ondulação que se alarga até à beira do silêncio -- um mar maior
donde ele emerge e onde retorna --, se, enfim, esta voz tem o peso grave da
solidão, tem-o igualmente da responsabilidade que admiràvelmente nos é
proposta neste dístico : los ojos que sostienen el mundo / no
deben detenerse. A solitud deste poeta não é um obstáculo
à comunhão fraterna, dir-se-ia até ser condição dela. Seja como for,
nao há aí comprazimento nem renúncia, mas o gosto acre da consciência em
tensão com a existência, a tensão própria de quem procura o justo equilíbrio,
o verdadeiro centro da realidade, onde as diferenças acidentais se anulam
para deixar lugar à diferença essencial, à verdadeira presença do eu ao
mundo e aos outros. Uma poesia que na sua contensão e na sua elegância não
escamoteia os dados dolorosos da condição humana e nos convida a uma
presença a um tempo mais autêntica e mais vasta é uma poesia que não
pode deixar de nos interesar porque capaz de dar toda a medida da dignidade
humana e do duro ofício de viver do mundo de hoje. Dons
para dar O
que me deram dou-te. Dou
aquele sagrado cheiro
a terra molhada e
essa voz que é o vento por
entre as ramas altas. Quanto
tive devolvo: as
árvores irmãs, as
flores que modula a
névoa, o grilo, o pássaro cantando
na garoa. Sem
herança ou legado. Tão-só
paixão e tempo. A
intensa vida, o ar, a
manhã radiante e
a celagem nos olhos. Nada
levamos, nada. É
o que merecemos? A
chama do momento, colorações
no sol, o
crepúsculo juntos. O
fogo da fogueira em
que vamos ardendo. E
vejo o que me vê? No
exato instante, o liso, o
claro resplendor do
meio-dia nítido sobre
uma mesa branca e
frutas entoadas como
parentes próximos: a
luz, a gama, o íris, bananas
com limões e
com a maçã verde. Cabemos
bem na chuva, instantâneos,
de súbito, íntimos
e gregários, próximos
e distantes. A
chuva é nosso templo. A
canção evidente, a
palavra encarnada, o
que chegou de fora porque
soava dentro. Ou
não seremos, língua? E
o fogo da espécie, horizonte
e passado. Dones
para donar Te
doy lo que me dieron: aquel
sagrado olor a
la tierra mojada, y
esa voz que es el viento entre
las ramas altas. Devuelvo
lo que tuve: los
árboles hermanos, las
flores que modula la
niebla, el grillo, el pájaro cantando
en la garúa. Ni
herencia, ni legado. Sólo
pasión y tiempo. La
intensa vida, el aire, la
mañana radiante y
cielos en los ojos. No
nos llevamos nada. ¿Es
que lo merecimos? La
llama del instante, colores
en el sol, el
crepúsculo juntos. El
fuego de la hoguera donde
vamos ardiendo. ¿Y
veo lo que me ve? En
el momento justo, el
liso resplandor del
neto mediodía sobre
una mesa blanca y
frutas entonadas como
parientes próximos: la
luz, la gama, el iris, limones
con bananas y
la manzana verde. En
la lluvia cabemos, instantáneos,
de pronto, íntimos
y gregarios, cercanos
y distantes. La
lluvia es nuestro templo. La
canción evidente, la
palabra encarnada, lo
que llegó de afuera porque
sonaba dentro. ¿O
es que no somos, lengua? Y
el fuego de la especie, horizonte
y pasado. Não
há dia da morte na
lembrança
do José
Augusto Seabra Imóvel,
incessante, a
morte, árida, impura. Infiel,
infame, injusta, a
dura morte dura. Impaciente,
infecunda, a
inútil morte, muda. Não
duvida, e é sem dúvida, a
morte ávida e pura. No
hay día de la muerte a
la memoria de José
Augusto Seabra Inmóvil,
incesante, la
muerte, árida, impura. Infiel,
infame, injusta, la
dura muerte dura. Impaciente,
infecunda, la
inútil muerte, muda. Indudable,
no duda la
muerte ávida y pura. Epifania Qual
luz dentro da luz soa
o inverno, ao sol. Serena
madurez, sabor
desnudo que
suspende e sustenta sem
suspeitar que sabe, secreto,
só em si, sente
sem sentimento, a
simples sede, a
simples ser, só
e sumo no sol sagrado
do silêncio seco,
soberbo, solto sobre
esse frio incendido. Epifanía Como
luz en la luz suena
el invierno, al sol. Serena
madurez, sabor
desnudo que
suspende y sostiene sin
sospechar que sabe, secreto,
sólo en sí, siente
sin sentimiento, a
simple sed, a
simple ser, solo
y sumo en el sol sagrado
del silencio seco,
soberbio, suelto sobre
ese frío encendido. Antropofagia Sobre
a praia apenas esflorada, quase virgem ainda, não espanta o pé de
Sexta-Feira senão a implícita ameaça: outros, o Outro, que acaso nos
inclui. Antropofagia Sobre
la playa apenas mancillada, casi virgen aún, no espanta el pie de Viernes
sino la implícita amenaza: otros, el Otro, que acaso nos incluye. No
alto da colina dos pássaros O
mesmo mar, depois de tudo, de cobalto entre ramos, a esta hora. E o surdo
retumbar do tsunâmi do outro lado do planeta, rebelião da Terra, tortura
que a Terra se inflige, sem projeto nem enigma. Aqui
as andorinhas angustiadas de calor continuam traçando de improviso,
aceleradas, na curva do ar, a precisa fugacidade de suas ondas de vôo. E há
trocazes, louros, tesourinhas, pombas, tordos, zorzais, gaivotas e até
desconhecidos de vistosa plumagem, de belos pardos e também grises,
revoluteando indiferentes, embaixo ou no alto, voando desenvoltos, entre nós
e o mar. Entre
o acaso e a necessidade. En
lo alto de la colina de los pájaros El
mismo mar, después de todo, de cobalto entre ramas, a esta hora. Y el sordo
retumbar del tsunami al otro lado del planeta, rebelión de la Tierra,
tortura que la Tierra se inflige, sin proyecto ni enigma. Aquí
las golondrinas abrumadas de calor continúan trazando de improviso,
aceleradas, en la comba del aire, la precisa fugacidad de sus ondas de
vuelo. Y hay torcacitas, loros, tijeretas, palomas, tordos, chalchaleros,
gaviotas y hasta desconocidos de vistoso plumaje, de bellos pardos y aún
grises, revoloteando indiferentes, abajo o en lo alto, volando desplegados,
entre el mar y nosotros. Entre
el azar y la necesidad. Conseqüências Um
dia, fitando impremeditadamente o vão entre o polegar e o índice de minha
mão direita, eu me vi pulsando. Quer dizer, me surpreendi vivo, vi a
vida fazendo o seu trabalho, meu corpo fazendo o seu trabalho, por sua conta,
sem que eu tivesse nada que ver com tudo isso. Consecuencias Un
día, mirando sin haberlo previsto el hueco entre el pulgar y el índice de
mi mano derecha, yo
me he visto latir. Es decir, me he sorprendido vivo, he visto a la vida
haciendo su trabajo, a mi cuerpo haciendo su trabajo, por su cuenta, sin que
yo tuviera nada que ver en todo eso. Coda
aos gados e às messes Atrás
ficou o futuro. Foi
ontem o amanhã. Não
entra em nossas horas porvir
nem horizonte. Houve
um tempo em que havia odores
de esperança. Hoje
é haver perdido o que
ontem foi amanhã. Houve.
Não mais. Nem mesmo os sonhos
que nos sonhavam se
deixam já sonhar. De
haver sido futuro eis-nos
tão-só passado. Passado
do futuro. “Ese
no puede ser, sido.” César
Vallejo Coda
a los ganados y a las mieses Atrás
quedó el futuro. El
mañana fue ayer. Nuestras
horas no incluyen porvenir
ni horizonte. Hubo
un tiempo en que había olores
de esperanza. Hoy
es haber perdido lo
que ayer fue mañana. Hubo.
Ya no hay. Ni aquellos sueños
que nos soñaban hoy
se dejan soñar. De
haber sido futuro henos
sólo pasado. Pasado
del futuro. “Ese
no puede ser, sido.” César
Vallejo Rodolfo
Alonso (Buenos
Aires, 1934) é uma das vozes mais reconhecidas da poesia latino-americana
contemporânea. Publicou mais de 20 livros, incluindo também ensaio e
narrativa. Primeiro tradutor de Fernando Pessoa na América Latina. Desde
muito jovem, é o mais ativo tradutor de grandes poetas portugueses e
brasileiros ao castelhano, começando por seus amigos António Ramos Rosa,
Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, e culminando entre outros com
Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel Bandeira e Olavo Bilac. A Thesaurus
publicou em Brasília sua Antologia pessoal (2003), bilíngüe. A
Academia Brasileira de Letras acaba de outorgar-lhe suas Palmas Acadêmicas. RODOLFO
ALONSO, POETA DA NUDEZ ESSENCIAL por
António Ramos Rosa Logo
nos primeiros poemas de Rodolfo Alonso se nos depara a vontade de construir
un mundo humano e o desafio à adversidade do destino e opacidade do real.
Mas esta vontade de construção não é idealizante e só se efectiva
mediante a defrontação contante com o negativo da condiçao humana.
Rodolfo Alonso é o poeta da esperança e da clara afirmação dos valores
humanos que é necessário defender para a construção do mundo. Todavia, o
poeta no possui uma ideologia ou uma mensagem, uma vez que o poema surge
como realidade fundadora de um sentido não predeterminado, que vai
despertar e consumar a vontade de construção humana. Esta vontade é muito
forte e quase redunda numa afirmação ideológica dos valores da construção
humana. Mas Rodolfo Alonso é sempre fiel as exigencias radicais da construção
poética, evitando a sobreposição ideológica e a retórica dos princípios
declarados. Todavia, a vontade construtiva é bastante acentuada e
claramente definida, como neste passo: “la que yo amo está cerca de mí /
nuestra fuerza es la fuerza de los hombres / está en mis venas y en mis músculos
/ caliente como el pan como la sangre como el vino”. Estes versos são
menos uma declaração de princípios do que a assunção de uma força que
engloba os valores elementais e sagrados do homem ligados à comunhão
fraterna ou à construção de uma comunidade viva e autêntica. Toda a
poesia de Rodolfo Alonso é animada por este fervor ético e elemental e,
decorrentemente, por valores humanos que incidem na construção do mundo
segundo os vectores de uma sensibilidade e de uma afectividade
constantemente elaborada e vivificada pela criação poética. Assim, a
liberdade nunca se dissocia da fraternidade, nem o amor da dignidade, nem o
domínio pessoal do sentido da comunidade: “he construído mi dominio /
tengo el día la ciudad el pecho de la lluvia / la libertad como una
mano”. Mas se esta poesia tende sempre para o encontro numa comunidade
viva, actual ou projectada no futuro, por isso mesmo está atenta à dor e
à solidão, a tudo o que limita o homem na sua possibilidade de uma
abertura ao mundo: “Escucha, en la alta noche, los aullidos del solitario.
Él ronda las huellas recientes de tus pasos que aún gimen en la arena; él
se ajusta a tu recuerdo, bebe el hálito acre que has dejado vibrando en
cada sitio, en cada gesto, en cada interminable noche.” Todavia, a poesia
de Rodolfo Alonso não está virada apenas para o domínio humano; na sua
sobriedade expressiva, ela é também a exploração do obscuro mundo
latente que não se pode ignorar sem perda da integridade poética e humana:
“Vamos a adelantar un pie sobre el absurdo. / Vamos a conocerte: mundo
incierto y animal, agua madura. / Estos ríos cavan la verdad silenciosa. /
Necesitamos su virtud, su falta de costumbre, su vida de aventuras. / No se
les puede dar la espalda.” A atenção à vida elemental é, neste poeta,
não uma assunção exuberante e eufórica ou dionisíaca, mas um delicado
veio da sua poesia. Mas esta delicadeza, que caracteriza toda a sua obra poética,
não significa pobreza ou falta de intensidade poética, porquanto é uma
condensação estética de grande efeito expressivo na sua pureza radical e
na sua claridade formulativa. Este despojamento revela a um tempo uma grande
força poética e a capacidade de a transmudar em formulações claras e
simples de uma evidência nua e de uma essencialidade extrema: “incierta /
fácil // tu mirada deslumbra / en el mal // inclinada / segura // yo te he
visto volverte / entre los otros / en la luz // yo te he visto / te he amado
// limpia // oscura”. Podemos dizer que a poesia de Rodolfo Alonso visa
sobretudo criar uma palabra evidente e clara que corresponda a um “olhar
nu” que abarque o real numa síntese breve e fulgurante: “no quiero
perder / la mirada desnuda // la mirada implacable / la mirada cambiante /
que dejas caer a veces / sobre mí // humillados // bajo el peso húmedo de
la violencia / no morirán los ojos del amor // sometidos // no cesará la
mirada inalterable // grietas / manos blancas // los ojos que sostienen el
mundo no deben detenerse". Esta síntese é plenamente conseguida, sem
prejuízo da riqueza do que é formulado e sem, de modo algum, trair a força
criadora e o mundo selvagem e insubmisso que lhe subjaz. Por isso, a voz que
o poeta procura é a “voz errante”, “a voz temível e ágil que
ilumina o sangue”. Este é o domínio do informulável, quer dizer, do
sagrado: “hay un abismo al borde del silencio / en lo alto de la voz //
viviremos a merced de su aliento sagrado”. Assim, esta poesia extremamente
condensada e breve, é uma poesia aberta ao mundo e à realidade humana sem
interposição ideológica, animada por um permanente sentido ético de
comunhão fraterna e pela vibrante intencionalidade de um olhar que se abre
à nudez essencial do mundo visível e ao domínio invisível inerente ao
ser.
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RODOLFO ALONSO ®
DERECHOS RESERVADOS |
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