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A poética dos silêncios |
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por Ronaldo Cagiano |
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“Uma
poesia que não usa as palavras pela sensualidade que desprendem, mas pelo
silêncio que concentram. Poesia que tenta exprimir o máximo de valores no
mínimo de matéria vocabular, impondo-se uma concisão que chega à
mudez.” Assim definiu Carlos Drummond de Andrade, ao apresentar Hago el
amor (1969), de Rodolfo Alonso, poeta, crítico e ensaísta argentino,
que esta semana desembarcou no Rio, para
uma homenagem na Academia Brasileira de Letras.
Alonso estreitou os laços com o Brasil a partir de intenso contato
epistolar com Drummond e Murilo Mendes, dos quais se tornou amigo. Desde
cedo sentiu grande empatia com a língua portuguesa, tendo sido o primeiro
tradutor de Fernando Pessoa para a América Latina, além de verter as obras
de Olavo Bilac, Drummond, Manuel Bandeira, Murilo Mendes e outros.
Depois de introduzir alguns de nossos autores na Argentina, a poesia
de Rodolfo Alonso chega ao Brasil com chancela da Editora Thesaurus, de Brasília.
Ao publicar sua “Antologia Pessoal” (edição bilíngüe, 196 pgs., R$20),
preenche uma lacuna e faz jus a um escritor de intensa e apaixonada produção
pessoal, que faz da literatura uma ponte dialética e cultural,
cristalizando um intercâmbio de experiências estéticas e humanas, em que
há um diálogo com a história e a filosofia, um trânsito entre escolas e
movimentos literários . Tanto
na poesia de ressonâncias líricas, quanto na de inflexão social e crítica,
a práxis poética de Rodolfo Alonso reveste-se de peculiar concentração
textual que, mesmo nos poemas mais longos,
prescinde de um discurso caudaloso. Essa
tessitura e acabamento encontramos em “Cuerpo
presente”: Tantas como soñamos/
merecer una/ (Una mujer/ Muslos de tempestad/ senos de viento/ sagrado olor
a mar)/ Toda mujer/ sentada/ en el augusto trono/ de su cintura/ Inmensa e no singularíssimo
“Vizcacha”: ¿La metáfora viva que buscaron/ para buscarse todos, al
buscarse,/ vuelve como parodia e ironía?/ ¿Este misterio, este país que
somos/ y que se enzarza fiero en su destino/ como luz mala en el desierto,
ahora o/ siempre bajo el solazo crudo, al rayo/ del deseo, la impaciencia y
su hermana/ ciega: la impotencia? ¿Ni civiles/ ni bárbaros, apenas
decadentes?/ ¿Esa imagen profunda de uno mismo/ donde abrevaba el mito, la
verdad/ oculta porque oscura, oscura/ porque honda, eso que nos hacía/ ser
y que íbamos a ser, culpables,/ desolados, quejosos, engreídos,/ ni Cruz
ni Fierro fueron, sino El Viejo?. Em
“Anti Warhol”, dedicado a Marcel Duchamp, há um viés crítico, quando
questiona oos fetiches e ícones da sociedade contemporânea. Apesar da
densidade do tema, não se desvia por um ritmo palavroso: Brillo de
superficie en una cajá/ donde la nada brilla nada brilla/ brillo del
triunfo que triunfa con brillar/ sobre la superficie del instante/ brillo de
sociedad de saciedad/ contagio del hartazgo asco del ágio/ superficial alud
la ola de nada/ que ávida nos envasa encenagados/ en catedrales selvas de
consumo/ cárceles de mirar y ser mirado/ los bárbaros no esperes han
llegado/ en la cadencia de la decadência/
la seducción que castra el vuelo raso/ que imagina tragedia al
gallinero/ el despiadado espejo helada llama/ de la cautivadora que cautiva/
brillo de superficie donde encaja/ el anonadamiento de la nada/ la
superficie opaca ya no oculta/ la superficie esquiva de la época/ la mera
superficie el puro brillo/ de lo superficial no hay interior/ la apariencia
culmina su espectáculo/ la superficie de la nada brilla. A
experiência de Alonso com a linguagem remonta à adolescência, quando aos
17 anos aproximou-se de um grupo de escritores de vanguarda que gravitavam
em torno da revista “Poesia Buenos Aires”. Após contato com várias
correntes, seu processo de rigor e precisão, que harmoniza forma e conteúdo,
cada vez mais se aperfeiçoou. Alcançando o mais apurado grau de clareza e
objetividade, persegue o essencial, sem desperdiçar toda a carga semântica
e metafórica que criação poética oferece. Autor
de 25 livros, entre os quais Salud o nada (1954), Buenos vientos
(1956), Hablar claro (1964), Relaciones
(1968), Señora Vida (1979), Sol o sombra (1981), Música concreta
(1994) e Defensa de la poesía (1997), a poesia de Rodolfo Alonso,
que se renova a cada livro, chega em boa hora, sobretudo em tempos de
consolidação do Mercosul, quando se espera, além da simbiose econômica,
uma convivência que favoreça a valorização cultural e o compartilhamento
das múltiplas expressões literárias do continente.
E ao proclamar que hoy
estamos aquí contenemos el mundo/ rebeldes
a la muerte a la resurrección a la palabra, sua
poesia reflete não apenas o compromisso estético com a linguagem, mas a
necessidade de tocar no que é essencial, profundo e humano, convertendo-se
num compromisso ético, em que as questões existenciais e sociais ensejam
um grito que reverbera as suas e as nossas angústias, preocupados que
estamos com os destinos do homem e do mundo, Ronaldo Cagiano
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RODOLFO ALONSO ®
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