Escrevem sobre a poesia de Rodolfo Alonso:

Escrevem sobre a poesia de Rodolfo Alonso:


António Ramos Rosa (1961)

A POESIA DE RODOLFO ALONSO

 

A voz de Rodolfo Alonso tem um acento de autenticidade iniludível. Discreta, lenta, como que distante, ela apoia-se nas palavras mais simples e quotidianas, nas locuções aparentemente mais insignificantes, como que para verificar a valor da linguagem, a resistência dos seus nexos. Esta distância que acentuámos é o sinal de uma intimidade e de um rigor. É que esta voz é sempre de alguém, de um hombre. Mas se o seu timbre não fere porque discreto, se o poema tende a resolver-se circularmente numa leve ondulação que se alarga até à beira do silêncio - um mar maior donde ele emerge e onde retorna -, se, enfim, esta voz tem o peso grave da solidão, tem-o igualmente da responsabilidade que admiràvelmente nos é proposta neste dístico : los ojos que sostienen el mundo / no deben detenerse. A solitud deste poeta não é um obstáculo à comunhão fraterna, dir-se-ia até ser condição dela. Seja como for, nao há aí comprazimento nem renúncia, mas o gosto acre da consciência em tensão com a existência, a tensão própria de quem procura o justo equilíbrio, o verdadeiro centro da realidade, onde as diferenças acidentais se anulam para deixar lugar à diferença essencial, à verdadeira presença do eu ao mundo e aos outros. Uma poesia que na sua contensão e na sua elegância não escamoteia os dados dolorosos da condição humana e nos convida a uma presença a um tempo mais autêntica e mais vasta é uma poesia que não pode deixar de nos interesar porque capaz de dar toda a medida da dignidade humana e do duro ofício de viver do mundo de hoje.  

Carlos Drummond de Andrade (1969)

Uma poesia que não usa as palavras pela sensualidade que desprendem, mas pelo silêncio que concentram: assim é a de Rodolfo Alonso. Poesia que tenta exprimir o máximo de valôres no mínimo de matéria vocabular, impondo-se uma concisão que chega à mudez: Hay cosas que ni digo. E que, por isso mesmo, se julga con severidade: ¿Para salvar / un minuto / escribo / en lugar de vivir?

Em verdade, escrever, sob tamanha exigência, é um ato de vida, liberta de violências, mistificações e compromissos. E restaura a vida essencial, captando o que, na sucessão do tempo, nem é percebido pelos que têm gula de chegar a um ponto inexistente. Rodolfo Alonso observa, por exemplo, uma cicatriz. Aparentemente, é uma obra acabada da natureza. Mas, por baixo dela, o poeta descobre o fogo central da chaga, permanente, a consumir e alimentar. La herida ya no sabe si existe. Sólo la cicatriz, pero viviente, zumba y resiste, negándose a morir, negándose a vivir.

Talvez que a ambição deste poeta – como saber ao certo a ambição da poesia? – seja trazer para a vida de todos os dias o fogo de uma chaga viva de amor, ardendo no maior silêncio de compreensão.

Milton de Lima Sousa (1990)

POETA VISTO ATRAVÉS DE UMA FRESTA

Não conheço o poeta, apenas sua obra poética. No entanto, temos mantido uma correspondencia fraterna por mais de trinta anos. Sob o signo da Poesia, esse convívio já se tornou matéria puramente espiritual. Afinidades múltiples no plano literário, tem consolidado essa amizade que tanto prezo. Até há pouco tempo, Rodolfo Alonso não me conhecía nem através de retrato. Deslumbramentos mútuos, próprios dos poetas, nos aproximaram cada vez mais. O gosto por um poeta ou por um poema, nos fez ver melhor nossas inclinações pessoais. A nossa amizade é, pois, um fato raro nos dias que correm.

Agora me peden um prólogo para uma antologia da sua obra poética. O que dizer de poemas que me acompanham dia a dia? O que falar de uma poesia que me atinge profundamente? A única coisa que posso fazer é colocar no horizonte, como uma sucessão de visões, os poemas que tenho lido com obsessivo silêncio. O poema La sangre al aire, por exemplo:

De tanta muerte triste lenta

De tanta muerte exagerada

De tanta muerte apresurada sucia

De tanta muerte amontonada

¿Será posible hacer que nazca

algo que tenga algo que ver

con la mismísima

Señora Vida?

Despojado como um ofego, este poema me parece uma navalhada no escuro, uma bofetada dada com um tremor de ternura. É o retrato de um espírito em sua agonia mais profunda, o testemuho terrível de alguém que insiste em ser humano em meio às experiências mais atrozes. Retrata não só uma geração atormentada como abre perspectivas ainda mais dolorosas. Para o poeta, a pergunta candente acaba se transformando em outra pergunta: devo continuar escrevendo, depois de tanto sofrimento? De uma forma ou de outra, todo poeta acaba chegando a essa pergunta. Mais Rodolfo Alonso soube encará-la de forma corajosa. E acabou por respondê-la em outros poemas, principalmente em El dolorazo:

¿Cómo escapar

a este dolor?

¿Respiración, jadeo,

drogas, alcohol,

olvido, negación?

¿Cómo escaparme

del dolor?

Probándolo.

Este nó na garganta, esta secura de expressão iluminada, é fruto de uma angústia existencial, de um beco sem saída perfeitamente despojado. A Poesia é sempre uma experiencia ética do mais alto nivel. Rodolfo Alonso soube vivê-la, sem apelar para máscaras dúbias. Enfrentou-a a seco, por assim dizer. Viveu situações límites que puseram em jogo a verdade de sua vocação, e evitou os gestos duros, as exteriorizações fingidas. Em nenhum momento, hesitou em continuar fazendo Poesia. Sufocando a realidade através de palavras certas, viveu a esperança mantendo o momento lívido da Poesia. Por isso, no poema que acabo de citar e em muitos outros, há um traspassar bíblico, um ajuste de contas com algo religioso que em vão ele tenta esconder. O diálogo entre a realidade e a Poesia, sempre é penoso, e não raro acaba em monólogo agonico. Fiel ao seu destino de poeta, Rodolfo Alonso fitou o horizonte de cabeça erguida, imerso em perguntas devastadoras. Nós sabemos que muitas vezes, as perguntas são respostas. Quem lida com Poesia sabe que o poeta não pode abandonar a Poesia. Debe levá-la até o fim, desenrolando todos os labirintos. Essa situação quase sempre libera um sinal que salva: o amor. Foi através desse sinal que Rodolfo Alonso venceu as estocadas da dor. Cantou a mulher e sua infinita beleza, juntamente com os múltiples aspectos da Natureza. Ao perceber que a tormenta limpava seu coração, viu de perto o orvalho, o vento e todas as coisas simples da Natureza. Em outro poema lapidar, Alonso diz:

Deja entrar al amor

lavando todo con su lava

A palavra lava está muito bem colocada. Essa torrente que cobre o solo, é também uma língua de fogo que espalha na terra um beijo misericordioso. Crestando tudo, ela mostra mais amor. As feridas são refeitas pelo arco-íris ou talvez pelo despertar de uma flor. Enfim, o ponto crucial da poesia de Rodolfo Alonso é o caminhar constante da dor. Ele não a escolheu, foi escolhido por ela. Mas é uma dor digna e transfiguradora, dor feita de decoro. Essa postura do poeta não cai em nenhum momento. Ler esta poesia é enfrentar cara a cara, as palavras que foram mastigadas como signos inadiáveis. Crispado de terror, o fiapo humano que une todos os poemas, chega a um clarão que nos acalanta.

Mas a temática de Rodolfo Alonso completa-se através de uma reflexão sobre o próprio sentido do lirismo. Os meandros de sua arte incomparável estão no poema La casa del canto:

La palabra de sílex

contra el pecho de roca

belleza desterremos

los chivos emisarios

la palabra de lava

en medio del espanto

miserables del mundo

uníos desuníos

el viento es un aliado

que robará esta hoja

Por momentos imaginamos a palavra sílex sendo jogada ao peito dos indiferentes, mas com aveludada ternura. A peregrinação amorosa do poeta continua. A folha roubada pelo vento, vai cair em outras mãos, e dessa forma salvar o grito e a Poesia. A angústia de ter sido capaz de fazer o poema, traspassa toda a obra de Rodolfo Alonso. Que o leitor saiba lê-la, porque o poeta acentua:

Yo no hablo

para nadie

En el vacío

es imposible respirar

António Ramos Rosa (1992)

RODOLFO ALONSO, POETA DA NUDEZ ESSENCIAL

Logo nos primeiros poemas de Rodolfo Alonso se nos depara a vontade de construir un mundo humano e o desafio à adversidade do destino e opacidade do real. Mas esta vontade de construção não é idealizante e só se efectiva mediante a defrontação contante com o negativo da condiçao humana. Rodolfo Alonso é o poeta da esperança e da clara afirmação dos valores humanos que é necessário defender para a construção do mundo. Todavia, o poeta no possui uma ideologia ou uma mensagem, uma vez que o poema surge como realidade fundadora de um sentido não predeterminado, que vai despertar e consumar a vontade de construção humana. Esta vontade é muito forte e quase redunda numa afirmação ideológica dos valores da construção humana. Mas Rodolfo Alonso é sempre fiel as exigencias radicais da construção poética, evitando a sobreposição ideológica e a retórica dos princípios declarados. Todavia, a vontade construtiva é bastante acentuada e claramente definida, como neste passo: “la que yo amo está cerca de mí / nuestra fuerza es la fuerza de los hombres / está en mis venas y en mis músculos / caliente como el pan como la sangre como el vino”. Estes versos são menos uma declaração de princípios do que a assunção de uma força que engloba os valores elementais e sagrados do homem ligados à comunhão fraterna ou à construção de uma comunidade viva e autêntica. Toda a poesia de Rodolfo Alonso é animada por este fervor ético e elemental e, decorrentemente, por valores humanos que incidem na construção do mundo segundo os vectores de uma sensibilidade e de uma afectividade constantemente elaborada e vivificada pela criação poética. Assim, a liberdade nunca se dissocia da fraternidade, nem o amor da dignidade, nem o domínio pessoal do sentido da comunidade: “he construído mi dominio / tengo el día la ciudad el pecho de la lluvia / la libertad como una mano”. Mas se esta poesia tende sempre para o encontro numa comunidade viva, actual ou projectada no futuro, por isso mesmo está atenta à dor e à solidão, a tudo o que limita o homem na sua possibilidade de uma abertura ao mundo: “Escucha, en la alta noche, los aullidos del solitario. Él ronda las huellas recientes de tus pasos que aún gimen en la arena; él se ajusta a tu recuerdo, bebe el hálito acre que has dejado vibrando en cada sitio, en cada gesto, en cada interminable noche.” Todavia, a poesia de Rodolfo Alonso não está virada apenas para o domínio humano; na sua sobriedade expressiva, ela é também a exploração do obscuro mundo latente que não se pode ignorar sem perda da integridade poética e humana: “Vamos a adelantar un pie sobre el absurdo. / Vamos a conocerte: mundo incierto y animal, agua madura. / Estos ríos cavan la verdad silenciosa. / Necesitamos su virtud, su falta de costumbre, su vida de aventuras. / No se les puede dar la espalda.” A atenção à vida elemental é, neste poeta, não uma assunção exuberante e eufórica ou dionisíaca, mas um delicado veio da sua poesia. Mas esta delicadeza, que caracteriza toda a sua obra poética, não significa pobreza ou falta de intensidade poética, porquanto é uma condensação estética de grande efeito expressivo na sua pureza radical e na sua claridade formulativa. Este despojamento revela a um tempo uma grande força poética e a capacidade de a transmudar em formulações claras e simples de uma evidência nua e de uma essencialidade extrema: “incierta / fácil // tu mirada deslumbra / en el mal // inclinada / segura // yo te he visto volverte / entre los otros / en la luz // yo te he visto / te he amado // limpia // oscura”. Podemos dizer que a poesia de Rodolfo Alonso visa sobretudo criar uma palabra evidente e clara que corresponda a um “olhar nu” que abarque o real numa síntese breve e fulgurante: “no quiero perder / la mirada desnuda // la mirada implacable / la mirada cambiante / que dejas caer a veces / sobre mí // humillados // bajo el peso húmedo de la violencia / no morirán los ojos del amor // sometidos // no cesará la mirada inalterable // grietas / manos blancas // los ojos que sostienen el mundo no deben detenerse". Esta síntese é plenamente conseguida, sem prejuízo da riqueza do que é formulado e sem, de modo algum, trair a força criadora e o mundo selvagem e insubmisso que lhe subjaz. Por isso, a voz que o poeta procura é a “voz errante”, “a voz temível e ágil que ilumina o sangue”. Este é o domínio do informulável, quer dizer, do sagrado: “hay un abismo al borde del silencio / en lo alto de la voz // viviremos a merced de su aliento sagrado”. Assim, esta poesia extremamente condensada e breve, é uma poesia aberta ao mundo e à realidade humana sem interposição ideológica, animada por um permanente sentido ético de comunhão fraterna e pela vibrante intencionalidade de um olhar que se abre à nudez essencial do mundo visível e ao domínio invisível inerente ao ser.

José Augusto Seabra (2001)

RODOLFO ALONSO, POETA E TRADUTOR “PORTEÑO

Na geração poética da Argentina de meados do século que agora acaba de passar, agrupada à volta da célebre revista de vanguarda Poesía Buenos Aires, uma voz sobressaiu: a do seu membro mais jovem, Rodolfo Alonso, cuja entrega total à missão de poeta e tradutor de poetas de múltiplas línguas o singularizou e universalizou durante os seus cinquenta anos de vida literária, que este ano se cumprem. De genealogia galega, da qual se reclama com fidelidade, este “porteño” nascido em 1934, que fala correntemente o seu idioma originário e o português, dedicou um especial carinho à nossa poesia, bem como à da Galiza e à do Brasil, ao lado da atenção à de outras línguas europeias (espanhola, francesa, italiana, inglesa, alemã). Ele orgulha-se, sobretudo, de ter sido o primeiro tradutor de Fernando Pessoa, em 1961, antes mesmo de Octavio Paz o dar a conhecer no México. E verteu para espahol outros dos nossos poetas modernos e contemporâneos, como Mário de Sá-Carneiro, Adolfo Casais Monteiro, Sophia de Mello Breyner, Carlos de Oliveira, Egito Gonçalves, Mario Cesariny, António Ramos Rosa e Herberto Helder, sendo um estudioso da nossa literatura e um conhecedor exímio das suas linguagens. Ensaista penetrante, que faz jus ao título de um dos seus livros de crítica, Poesía: lengua viva (1982), Rodolfo Alonso foi sempre um comentador empenhado da actualidade literária, cultural e até política não só do seu país e das Américas mas da Europa e do largo mundo, sendo a sua “palavra insáciavel” antes de mais a da “defesa da poesia” -títulos significativos de livros seus-, mas também a da “liberdade livre” que ela supõe, como a proclamou Rimbaud, a quem foi comparado pelos seus companheiros de geração.

Por tudo isto, é tempo de entre nós darmos a conhecer melhor até por gratidão e justiça, a obra de Rodolfo Alonso, que a pesar de ter alguns poemas traduzidos para português por Egito Gonçalves e de António Ramos Rosa lhe haver consagrado um luminoso ensaio, publicado como prefácio a Música concreta (1), continua no limbo de alguns iniciados, quando merece uma irradiação à medida do seu fulgor e do seu rigor poéticos, reconhecidos alhures. Com efeito, como dele escreveu o crítico belga Fernand Verhesen, “há poucas linguagens, sobretudo na América hispânica, que sejam de tão escrupulosa precisão” (2). Seguir o longo percurso deste poeta que se manteve, a pesar da sua criação prolifica, algo discreto e em surdina, é de facto uma descoberta permanente, a que agora, num contacto mais íntimo, nos rendemos com a fascinação de um encontro imprevisto, que se renova ao frequentar cada poema, lido e relido, como se fora pela vez primeira.

Logo a partir do seu livro de estreia, Salud o nada (1954), a poesia de Rodolfo Alonso se dá como uma epifania, no hic et nunc da presença ao mundo, compartilhada pelo poeta e pelo leitor:

hoje estamos aquí contemos em nós o mundo

rebeldes à morte à ressurreição à palavra”,

assim começa o poema “Terra redonda”, em que se exaltam

nossas mãos que cantam a noite vertical

o sol por tanto tempo iluminado

a alegria ascendente” (3).

É a “casa do ser”, parafraseando Heidegger, várias vezes citado nos seus ensaios por Rodolfo Alonso, que o poeta quer construir e habitar, de poema em poema. Ele concebe e realiza a poesia como “um exercício de vida e de linguagem”, que se corporiza na

alegria de estar aquí existindo” (4).

Desse milagre existencial, que é o da “palavra no tempo”, de que falava Antonio Machado, um dos poetas mais amados de Rodolfo Alonso, emana um outro mundo, o qual, como observou António Ramos Rosa, sendo o do poema, nao é pré-existente mas coexistente com este, “uma vez que o poema surge como realidade fundador de um sentido não pré-determinado” (5). Tal como se lê no seu livro subsequente, Buenos vientos (1956), o poeta, “tendo admirado o mundo”, pode agora dizer:

hoje avanças decidido para o teu próprio domínio” (6),

sabendo, como ao evocar intertextualmente Dante disso mostra ter consciência Rodolfo Alonso, que

No meio do caminho, a verdade já vai ficando para tras” (7).

Qual Orfeu, o poeta há-de avançar cantando, para salvar quem ama, renascendo da noite infernal (“na alvorada / cantam as mãos / do meu amor”), mas a cada passo tem a tentação, como dizia Barthes, de suspender a marcha e de voltar-se um pouco, num olhar furtivo, a iluminar-se na iminência da palavra poética:

À beira de dizer, como um qualquer,

para que fique testemuho,

um olhar obriga a deter-se,

em seco,

uma palabra arde.” (8)

 

É esta palavra ardente que na sua caminhada demanda insaciavelmente Rodolfo Alonso, pois só ela

“abrasa

aquece o coração

do mundo(9).

Para o poeta de Hago el amor (1969) -livro a que Carlos Drummond de Andrade dedicou um belo prefácio-, são as palavras que, enlaçando-se, deflagram o fogo do amor em acto:

Estas palavras que ouso

convencido inseguro

desesperado tímido

contando com os outros

Estas palavras que uso

abusando paciências

como quem canta só

para romper o fogo

Estas palavras que amam” (10).

Entregando-se por inteiro, embora “inseguro”, ao amor das palavras, Rodolfo Alonso tem a lucidez do poeta que, desejando “falar claro” (Hablar claro é outro titulo sintomático de uma sua colectânea de poemas, de 1964), sente sempre a “carência” e ao mesmo tempo a potencialidade infinita de sentidos da linguagem: “As palavras, dei por mim uma vez a dizer, são aproximativas” -escreve ele, explicitando o duplo significado da expressão: nunca elas poderão significar tudo, imprecisas como são, mas servem assim mesmo para aproximar os homens (11).

Dessa ambiguidade intrínseca da linguagem vive a palabra poética. No vaivém entre a aridez e a plenitude se move a sua errância, como se só pudesse reverberar, abrasadora, nas areias desérticas, sem saber jamais se estas têm um fim. Eis porqe o poeta se interroga, num poema com o título -uma vez mais dantesco- de “Inferno”:

“A palavra atravessa o deserto e encontra o seu destino?

Ou vem e vai, errante, vestida de si mesma, impotente,

/impossível?” (12).

A contradição inscreve-se, trágica, no âmago desta poesia, que é feita de uma questionação ontológica constante dos opostos, potencializando-se e actualizando-se, reversivelmente, numa coincidentia oppositorum, como no poema dedicado, certeiramente, a Ludwig Wittgenstein:

Que

poderia

ser

não ser?“ (13).

Não admira que, na sua concentração expressiva, seja a figura do oxímoro que, com maior nitidez, numa cintilação fulgurante, irrompe na poesia de Rodolfo Alonso, qual o cometa que o poeta iconicamente vislumbra, numa vidência profética:

Cego de luz

vê lumes

nos bebedouros

do futuro (14).

Numa obra cheia de ressonâncias de um meio século de história, em que ecoam os momentos eufóricos e disfóricos de um tempo de guerras, revoluções e contra-revoluções, totalitarismos de sinal contrário, no seu país e no mundo inteiro, é a luz da liberdade que de poema para poema de Rodolfo Alonso brilha nas trevas, como o “céu de Buenos Aires” deste grande poeta “porteño”.

1. Rodolfo Alonso, Música concreta, pref. de António Ramos Rosa

(“Rodolfo Alonso, poeta de la desnudez esencial”), Buenos Aires, 1994.

2. “Hablar claro” con Rodolfo Alonso, pref. a 70 Poemas de 35 Años, Buenos Aires, 1993.

3. Rodolfo Alonso, 70 Poemas de 35 Años, ed. cit., p. 12.

4. Idem, p. 13.

5. “Rodolfo Alonso, poeta de la desnudez esencial”, pref. cit., p. 9.

6. 70 Poemas de 35 Años, op. cit., p. 16.

7. Idem, p. 17.

8. Idem, p. 36.

9. Idem, p. 27.

10. Idem, p. 69.

11. Rodolfo Alonso, “Las palabras son aproximativas”, in Defensa de la Poesía, Buenos Aires, 1997.

12. 70 Poemas de 35 Años, ed. cit., p. 56.

13. Música concreta, ed. cit., p. 62.

14. 70 Poemas de 35 Años, ed. cit., p. 70


 

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generación dos mil gente de arte - 2012