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A
voz de Rodolfo Alonso tem um acento de autenticidade iniludível.
Discreta, lenta, como que distante,
ela apoia-se nas palavras mais simples e quotidianas, nas locuções
aparentemente mais insignificantes, como que para verificar a valor da
linguagem, a resistência dos seus nexos. Esta distância que acentuámos
é o sinal de uma intimidade e de um rigor. É que esta voz é sempre de
alguém, de um hombre. Mas se o seu timbre não fere porque discreto, se o
poema tende a resolver-se circularmente numa leve ondulação que se
alarga até à beira do silêncio - um mar maior donde ele emerge e onde
retorna -, se, enfim, esta voz tem o peso grave da solidão, tem-o
igualmente da responsabilidade que admiràvelmente nos é proposta neste dístico
: los ojos que sostienen el mundo
/ no deben detenerse.
A solitud deste poeta não é
um obstáculo à comunhão fraterna, dir-se-ia até ser condição dela.
Seja como for, nao há aí comprazimento nem renúncia, mas o gosto acre
da consciência em tensão com a existência, a tensão própria de quem
procura o justo equilíbrio, o verdadeiro centro da realidade, onde as
diferenças acidentais se anulam para deixar lugar à diferença
essencial, à verdadeira presença do eu ao mundo e aos outros. Uma poesia
que na sua contensão e na sua elegância não
escamoteia os dados dolorosos da condição humana e nos convida a uma
presença a um tempo mais autêntica e mais vasta é uma poesia que não
pode deixar de nos interesar porque capaz de dar toda a medida da
dignidade humana e do duro ofício de viver do mundo de hoje.
Carlos
Drummond de Andrade
(1969)
Uma
poesia que não usa as palavras pela sensualidade que desprendem, mas pelo
silêncio que concentram: assim é a de Rodolfo Alonso. Poesia que tenta
exprimir o máximo de valôres no mínimo de matéria vocabular,
impondo-se uma concisão que chega à mudez: Hay
cosas que ni digo. E que, por isso mesmo, se julga con severidade: ¿Para
salvar / un minuto / escribo
/ en lugar de vivir?
Em
verdade, escrever, sob tamanha exigência, é um ato de vida, liberta de
violências, mistificações e compromissos. E restaura a vida essencial,
captando o que, na sucessão do tempo, nem é percebido pelos que têm
gula de chegar a um ponto inexistente. Rodolfo Alonso observa, por
exemplo, uma cicatriz. Aparentemente, é uma obra acabada da natureza.
Mas, por baixo dela, o poeta descobre o fogo central da chaga, permanente,
a consumir e alimentar. La herida
ya no sabe si existe. Sólo la cicatriz, pero viviente, zumba y resiste,
negándose a morir, negándose a vivir.
Talvez
que a ambição deste poeta – como saber ao certo a ambição da poesia?
– seja trazer para a vida de todos os dias o fogo de uma chaga viva de
amor, ardendo no maior silêncio de compreensão.
Milton
de Lima Sousa
(1990)
POETA
VISTO ATRAVÉS DE UMA FRESTA
Não
conheço o poeta, apenas sua obra poética. No entanto, temos mantido uma
correspondencia fraterna por mais de trinta anos. Sob o signo da Poesia,
esse convívio já se tornou matéria puramente espiritual. Afinidades múltiples
no plano literário, tem consolidado essa amizade que tanto prezo. Até há
pouco tempo, Rodolfo Alonso não me conhecía nem através de retrato.
Deslumbramentos mútuos, próprios dos poetas, nos aproximaram cada vez
mais. O gosto por um poeta ou por um poema, nos fez ver melhor nossas
inclinações pessoais. A nossa amizade é, pois, um fato raro nos dias
que correm.
Agora
me peden um prólogo para uma antologia da sua obra poética. O que dizer
de poemas que me acompanham dia a dia? O que falar de uma poesia que me
atinge profundamente? A única coisa que posso fazer é colocar no
horizonte, como uma sucessão de visões, os poemas que tenho lido com
obsessivo silêncio. O poema La
sangre al
aire, por exemplo:
De
tanta muerte triste lenta
De
tanta muerte exagerada
De
tanta muerte apresurada sucia
De
tanta muerte amontonada
¿Será
posible hacer que nazca
algo
que tenga algo que ver
con
la mismísima
Señora
Vida?
Despojado
como um ofego, este poema me parece uma navalhada no escuro, uma bofetada
dada com um tremor de ternura. É o retrato de um espírito em sua agonia
mais profunda, o testemuho terrível de alguém que insiste em ser humano
em meio às experiências mais atrozes. Retrata não só uma geração
atormentada como abre perspectivas ainda mais dolorosas. Para o poeta, a
pergunta candente acaba se transformando em outra pergunta: devo continuar
escrevendo, depois de tanto sofrimento? De uma forma ou de outra, todo
poeta acaba chegando a essa pergunta. Mais Rodolfo Alonso soube encará-la
de forma corajosa. E acabou por respondê-la em outros poemas,
principalmente em El
dolorazo:
¿Cómo
escapar
a
este dolor?
¿Respiración,
jadeo,
drogas,
alcohol,
olvido,
negación?
¿Cómo
escaparme
del
dolor?
Probándolo.
Este
nó na garganta, esta secura de expressão iluminada, é fruto de uma angústia
existencial, de um beco sem saída perfeitamente despojado. A Poesia é
sempre uma experiencia ética do mais alto nivel. Rodolfo Alonso soube vivê-la,
sem apelar para máscaras dúbias. Enfrentou-a a seco, por assim dizer.
Viveu situações límites que puseram em jogo a verdade de sua vocação,
e evitou os gestos duros, as exteriorizações fingidas. Em nenhum
momento, hesitou em continuar fazendo Poesia. Sufocando a realidade através
de palavras certas, viveu a esperança mantendo o momento lívido da
Poesia. Por isso, no poema que acabo de citar e em muitos outros, há um
traspassar bíblico, um ajuste de contas com algo religioso que em vão
ele tenta esconder. O diálogo entre a realidade e a Poesia, sempre é
penoso, e não raro acaba em monólogo agonico. Fiel ao seu destino de
poeta, Rodolfo Alonso fitou o horizonte de cabeça erguida, imerso em
perguntas devastadoras. Nós sabemos que muitas vezes, as perguntas são
respostas. Quem lida com Poesia sabe que o poeta não pode abandonar a
Poesia. Debe levá-la até o fim, desenrolando todos os labirintos. Essa
situação quase sempre libera um sinal que salva: o amor. Foi através
desse sinal que Rodolfo Alonso venceu as estocadas da dor. Cantou a mulher
e sua infinita beleza, juntamente com os múltiples aspectos da Natureza.
Ao perceber que a tormenta limpava seu coração, viu de perto o orvalho,
o vento e todas as coisas simples da Natureza. Em outro poema lapidar,
Alonso diz:
Deja
entrar al amor
lavando
todo con su lava
A
palavra lava está muito bem
colocada. Essa torrente que cobre o solo, é também uma língua de fogo
que espalha na terra um beijo misericordioso. Crestando tudo, ela mostra
mais amor. As feridas são refeitas pelo arco-íris ou talvez pelo
despertar de uma flor. Enfim, o ponto crucial da poesia de Rodolfo Alonso
é o caminhar constante da dor. Ele não a escolheu, foi escolhido por
ela. Mas é uma dor digna e transfiguradora, dor feita de decoro. Essa
postura do poeta não cai em nenhum momento. Ler esta poesia é enfrentar
cara a cara, as palavras que foram mastigadas como signos inadiáveis.
Crispado de terror, o fiapo humano que une todos os poemas, chega a um
clarão que nos acalanta.
Mas
a temática de Rodolfo Alonso completa-se através de uma reflexão sobre
o próprio sentido do lirismo. Os meandros de sua arte incomparável estão
no poema La
casa del canto:
La
palabra de sílex
contra
el pecho de roca
belleza
desterremos
los
chivos emisarios
la
palabra de lava
en
medio del espanto
miserables
del mundo
uníos
desuníos
el
viento es un aliado
que
robará esta hoja
Por
momentos imaginamos a palavra sílex
sendo jogada ao peito dos indiferentes, mas com aveludada ternura. A
peregrinação amorosa do poeta continua. A folha roubada pelo vento, vai
cair em outras mãos, e dessa forma salvar o grito e a Poesia. A angústia
de ter sido capaz de fazer o poema, traspassa toda a obra de Rodolfo
Alonso. Que o leitor saiba lê-la, porque o poeta acentua:
Yo
no hablo
para
nadie
En
el vacío
es
imposible respirar
António
Ramos Rosa
(1992)
RODOLFO
ALONSO, POETA DA NUDEZ ESSENCIAL
Logo
nos primeiros poemas de Rodolfo Alonso se nos depara a vontade de
construir un mundo humano e o desafio à adversidade do destino e
opacidade do real. Mas esta vontade de construção não é idealizante e
só se efectiva mediante a defrontação contante com o negativo da condiçao
humana. Rodolfo Alonso é o poeta da esperança e da clara afirmação dos
valores humanos que é necessário defender para a construção do mundo.
Todavia, o poeta no possui uma ideologia ou uma mensagem, uma vez que o
poema surge como realidade fundadora de um sentido não predeterminado,
que vai despertar e consumar a vontade de construção humana. Esta
vontade é muito forte e quase redunda numa afirmação ideológica dos
valores da construção humana. Mas Rodolfo Alonso é sempre fiel as
exigencias radicais da construção poética, evitando a sobreposição
ideológica e a retórica dos princípios declarados. Todavia, a vontade
construtiva é bastante acentuada e claramente definida, como neste passo:
“la que yo amo está cerca de mí / nuestra fuerza es la fuerza de los
hombres / está en mis venas y en mis músculos / caliente como el pan
como la sangre como el vino”. Estes versos são menos uma declaração
de princípios do que a assunção de uma força que engloba os valores
elementais e sagrados do homem ligados à comunhão fraterna ou à construção
de uma comunidade viva e autêntica. Toda a poesia de Rodolfo Alonso é
animada por este fervor ético e elemental e, decorrentemente, por valores
humanos que incidem na construção do mundo segundo os vectores de uma
sensibilidade e de uma afectividade constantemente elaborada e vivificada
pela criação poética. Assim, a liberdade nunca se dissocia da
fraternidade, nem o amor da dignidade, nem o domínio pessoal do sentido
da comunidade: “he construído mi dominio / tengo el día la ciudad el
pecho de la lluvia / la libertad como una mano”. Mas se esta poesia
tende sempre para o encontro numa comunidade viva, actual ou projectada no
futuro, por isso mesmo está atenta à dor e à solidão, a tudo o que
limita o homem na sua possibilidade de uma abertura ao mundo: “Escucha,
en la alta noche, los aullidos del solitario. Él ronda las huellas
recientes de tus pasos que aún gimen en la arena; él se ajusta a tu
recuerdo, bebe el hálito acre que has dejado vibrando en cada sitio, en
cada gesto, en cada interminable noche.” Todavia, a poesia de Rodolfo
Alonso não está virada apenas para o domínio humano; na sua sobriedade
expressiva, ela é também a exploração do obscuro mundo latente que não
se pode ignorar sem perda da integridade poética e humana: “Vamos a
adelantar un pie sobre el absurdo. / Vamos a conocerte: mundo incierto y
animal, agua madura. / Estos ríos cavan la verdad silenciosa. /
Necesitamos su virtud, su falta de costumbre, su vida de aventuras. / No
se les puede dar la espalda.” A atenção à vida elemental é, neste
poeta, não uma assunção exuberante e eufórica ou dionisíaca, mas um
delicado veio da sua poesia. Mas esta delicadeza, que caracteriza toda a
sua obra poética, não significa pobreza ou falta de intensidade poética,
porquanto é uma condensação estética de grande efeito expressivo na
sua pureza radical e na sua claridade formulativa. Este despojamento
revela a um tempo uma grande força poética e a capacidade de a
transmudar em formulações claras e simples de uma evidência nua e de
uma essencialidade extrema: “incierta / fácil // tu mirada deslumbra /
en el mal // inclinada / segura // yo te he visto volverte / entre los
otros / en la luz // yo te he visto / te he amado // limpia // oscura”.
Podemos dizer que a poesia de Rodolfo Alonso visa sobretudo criar uma
palabra evidente e clara que corresponda a um “olhar nu” que abarque o
real numa síntese breve e fulgurante: “no quiero perder / la mirada
desnuda // la mirada implacable / la mirada cambiante / que dejas caer a
veces / sobre mí // humillados // bajo el peso húmedo de la violencia /
no morirán los ojos del amor // sometidos // no cesará la mirada
inalterable // grietas / manos blancas // los ojos que sostienen el mundo
no deben detenerse". Esta síntese é plenamente conseguida, sem
prejuízo da riqueza do que é formulado e sem, de modo algum, trair a força
criadora e o mundo selvagem e insubmisso que lhe subjaz. Por isso, a voz
que o poeta procura é a “voz errante”, “a voz temível e ágil que
ilumina o sangue”. Este é o domínio do informulável, quer dizer, do
sagrado: “hay un abismo al borde del silencio / en lo alto de la voz //
viviremos a merced de su aliento sagrado”. Assim, esta poesia
extremamente condensada e breve, é uma poesia aberta ao mundo e à
realidade humana sem interposição ideológica, animada por um permanente
sentido ético de comunhão fraterna e pela vibrante intencionalidade de
um olhar que se abre à nudez essencial do mundo visível e ao domínio
invisível inerente ao ser.
José
Augusto Seabra
(2001)
RODOLFO
ALONSO, POETA E TRADUTOR “PORTEÑO”
Na
geração poética da Argentina de meados do século que agora acaba de
passar, agrupada à volta da célebre revista de vanguarda Poesía
Buenos Aires, uma voz sobressaiu: a do seu membro mais jovem, Rodolfo
Alonso, cuja entrega total à missão de poeta e tradutor de poetas de múltiplas
línguas o singularizou e universalizou durante os seus cinquenta anos de
vida literária, que este ano se cumprem. De genealogia galega, da qual se
reclama com fidelidade, este “porteño”
nascido em 1934, que fala correntemente o seu idioma originário e o
português, dedicou um especial carinho à nossa poesia, bem como à da
Galiza e à do Brasil, ao lado da atenção à de outras línguas
europeias (espanhola, francesa, italiana, inglesa, alemã). Ele
orgulha-se, sobretudo, de ter sido o primeiro tradutor de Fernando Pessoa,
em 1961, antes mesmo de Octavio Paz o dar a conhecer no México. E verteu
para espahol outros dos nossos poetas modernos e contemporâneos, como Mário
de Sá-Carneiro, Adolfo Casais Monteiro, Sophia de Mello Breyner, Carlos
de Oliveira, Egito Gonçalves, Mario Cesariny, António Ramos Rosa e
Herberto Helder, sendo um estudioso da nossa literatura e um conhecedor exímio
das suas linguagens. Ensaista penetrante, que faz jus ao título de um dos
seus livros de crítica, Poesía:
lengua viva (1982), Rodolfo Alonso foi sempre um comentador empenhado
da actualidade literária, cultural e até política não só do seu país
e das Américas mas da Europa e do largo mundo, sendo a sua “palavra
insáciavel” antes de mais a da “defesa
da poesia” -títulos significativos de livros seus-, mas também a
da “liberdade livre” que
ela supõe, como a proclamou Rimbaud, a quem foi comparado pelos seus
companheiros de geração.
Por
tudo isto, é tempo de entre nós darmos a conhecer melhor até por gratidão
e justiça, a obra de Rodolfo Alonso, que a pesar de ter alguns poemas
traduzidos para português por Egito Gonçalves e de António Ramos Rosa
lhe haver consagrado um luminoso ensaio, publicado como prefácio a Música
concreta (1), continua no limbo de alguns iniciados, quando merece uma
irradiação à medida do seu fulgor e do seu rigor poéticos,
reconhecidos alhures. Com efeito, como dele escreveu o crítico belga
Fernand Verhesen, “há poucas linguagens, sobretudo na América hispânica,
que sejam de tão escrupulosa precisão” (2). Seguir o longo percurso
deste poeta que se manteve, a pesar da sua criação prolifica, algo
discreto e em surdina, é de facto uma descoberta permanente, a que agora,
num contacto mais íntimo, nos rendemos com a fascinação de um encontro
imprevisto, que se renova ao frequentar cada poema, lido e relido, como se
fora pela vez primeira.
Logo
a partir do seu livro de estreia, Salud
o nada (1954), a poesia de Rodolfo Alonso se dá como uma epifania, no
hic et nunc da presença ao
mundo, compartilhada pelo poeta e pelo leitor:
“hoje
estamos aquí contemos em nós o mundo
rebeldes
à morte à ressurreição à palavra”,
assim
começa o poema “Terra
redonda”, em que se exaltam
“nossas
mãos que cantam a noite vertical
o
sol por tanto tempo iluminado
a
alegria ascendente”
(3).
É
a “casa do
ser”, parafraseando Heidegger, várias vezes citado nos seus ensaios
por Rodolfo Alonso, que o poeta quer construir e habitar, de poema em
poema. Ele concebe e realiza a poesia como “um
exercício de vida e de linguagem”,
que se corporiza na
“alegria
de estar aquí existindo” (4).
Desse
milagre existencial, que é o da “palavra
no tempo”, de que falava Antonio Machado, um dos poetas mais amados
de Rodolfo Alonso, emana um outro mundo, o qual, como observou António
Ramos Rosa, sendo o do poema, nao é pré-existente mas coexistente com
este, “uma vez que o poema surge
como realidade fundador de um sentido
não pré-determinado” (5). Tal como se lê no seu livro
subsequente, Buenos vientos
(1956), o poeta, “tendo admirado
o mundo”, pode agora
dizer:
“hoje
avanças decidido para o teu próprio domínio” (6),
sabendo,
como ao evocar intertextualmente Dante disso mostra ter consciência
Rodolfo Alonso, que
“No
meio do caminho, a verdade já vai ficando para tras” (7).
Qual
Orfeu, o poeta há-de avançar cantando, para salvar quem ama, renascendo
da noite infernal (“na alvorada
/ cantam as mãos / do
meu amor”), mas a cada passo tem a tentação, como dizia Barthes,
de suspender a marcha e de voltar-se um pouco, num olhar furtivo, a
iluminar-se na iminência da palavra poética:
“À
beira de dizer, como um qualquer,
para
que fique testemuho,
um
olhar obriga a deter-se,
em
seco,
uma
palabra arde.”
(8)
É
esta palavra ardente que na sua caminhada demanda insaciavelmente Rodolfo
Alonso, pois só ela
“abrasa
aquece
o coração
do
mundo”
(9).
Para
o poeta de Hago el amor
(1969) -livro a que Carlos Drummond de Andrade dedicou um belo prefácio-,
são as palavras que, enlaçando-se, deflagram o fogo do amor em acto:
“Estas
palavras que ouso
convencido
inseguro
desesperado
tímido
contando
com os outros
Estas
palavras que uso
abusando
paciências
como
quem canta só
para
romper o fogo
Estas
palavras que amam” (10).
Entregando-se
por inteiro, embora “inseguro”,
ao amor das palavras, Rodolfo Alonso tem a lucidez do poeta que, desejando
“falar claro” (Hablar
claro é outro titulo sintomático de uma sua colectânea de poemas,
de 1964), sente sempre a “carência”
e ao mesmo tempo a potencialidade infinita de sentidos da linguagem: “As
palavras, dei por mim uma vez a
dizer, são aproximativas” -escreve ele, explicitando o duplo
significado da expressão: nunca elas poderão significar tudo, imprecisas
como são, mas servem assim mesmo para aproximar os homens (11).
Dessa
ambiguidade intrínseca da linguagem vive a palabra poética. No vaivém
entre a aridez e a plenitude se move a sua errância, como se só pudesse
reverberar, abrasadora, nas areias desérticas, sem saber jamais se estas
têm um fim. Eis porqe o poeta se interroga, num poema com o título -uma
vez mais dantesco- de “Inferno”:
“A
palavra atravessa o deserto e encontra o seu destino?
Ou
vem e vai, errante, vestida de si mesma, impotente,
/impossível?”
(12).
A
contradição inscreve-se, trágica, no âmago desta poesia, que é feita
de uma questionação ontológica constante dos opostos,
potencializando-se e actualizando-se, reversivelmente, numa coincidentia
oppositorum, como no poema dedicado, certeiramente, a Ludwig
Wittgenstein:
“Que
poderia
ser
não
ser?“
(13).
Não
admira que, na sua concentração expressiva, seja a figura do oxímoro
que, com maior nitidez, numa cintilação fulgurante, irrompe na poesia de
Rodolfo Alonso, qual o cometa que o poeta iconicamente vislumbra, numa vidência
profética:
“Cego
de luz
vê
lumes
nos
bebedouros
do
futuro”
(14).
Numa
obra cheia de ressonâncias de um meio século de história, em que ecoam
os momentos eufóricos e disfóricos de um tempo de guerras, revoluções
e contra-revoluções, totalitarismos de sinal contrário, no seu país e
no mundo inteiro, é a luz da liberdade que de poema para poema de Rodolfo
Alonso brilha nas trevas, como o “céu
de Buenos Aires” deste grande poeta “porteño”.
1.
Rodolfo Alonso, Música
concreta, pref. de António Ramos Rosa
(“Rodolfo
Alonso, poeta de la desnudez esencial”), Buenos
Aires, 1994.
2.
“Hablar claro” con
Rodolfo Alonso, pref. a 70
Poemas de 35 Años, Buenos Aires, 1993.
3.
Rodolfo Alonso, 70 Poemas
de 35 Años, ed. cit., p. 12.
4.
Idem, p. 13.
5.
“Rodolfo Alonso, poeta de
la desnudez esencial”, pref. cit., p. 9.
6.
70 Poemas de 35 Años,
op. cit., p. 16.
7.
Idem, p. 17.
8.
Idem, p. 36.
9.
Idem, p. 27.
10.
Idem, p. 69.
11.
Rodolfo Alonso, “Las
palabras son aproximativas”, in Defensa
de la Poesía, Buenos Aires,
1997.
12.
70 Poemas de 35 Años,
ed. cit., p. 56.
13.
Música concreta, ed.
cit., p. 62.
14.
70 Poemas de 35 Años,
ed. cit., p. 70
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