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Uma
poesia que não usa as palavras pela sensualidade que desprendem, mas pelo
silêncio que concentram: assim é a de Rodolfo Alonso. Poesia que tenta
exprimir o máximo de valôres no mínimo de matéria vocabular,
impondo-se uma concisão que chega à mudez: Hay
cosas que ni digo. E que, por isso mesmo, se julga con severidade: ¿Para
salvar / un minuto / escribo
/ en lugar de vivir?
Em
verdade, escrever, sob tamanha exigência, é um ato de vida, liberta de
violências, mistificações e compromissos. E restaura a vida essencial,
captando o que, na sucessão do tempo, nem é percebido pelos que têm
gula de chegar a um ponto inexistente. Rodolfo Alonso observa, por
exemplo, uma cicatriz. Aparentemente, é uma obra acabada da natureza.
Mas, por baixo dela, o poeta descobre o fogo central da chaga, permanente,
a consumir e alimentar. La herida
ya no sabe si existe. Sólo la cicatriz, pero viviente, zumba y resiste,
negándose a morir, negándose a vivir.
Talvez
que a ambição deste poeta – como saber ao certo a ambição da poesia?
– seja trazer para a vida de todos os dias o fogo de uma chaga viva de
amor, ardendo no maior silêncio de compreensão.
Carlos
Drummond de Andrade
(Prólogo
para Hago el amor, libro de Rodolfo Alonso (Editorial Biblioteca,
Rosario, Argentina, 1969.)
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