Nunca me havia passado pela cabeça que um jardim interno seria de importância ímpar para a minha sobrevivência. Até que o ar condicionado central da biblioteca quebrou. Data daí minha importante descoberta. Minha e de toda a torcida do Flamengo.
Dado o calor que fazia (como já era de se esperar numa sorte de história desta, se o ar condicionado estava quebrado, a temperatura jamais poderia estar baixa. É a Lei de Murphy!), a maior parte dos que se dirigiam à biblioteca ia para um “pequeno e tímido” oásis (ou um projeto de): um corredor no andar mais baixo, próximo ao jardim, onde um mínimo vento se fazia notar. Talvez um corredor espaço criado pela modernidade como um meio, e não como um fim, ou seja, exclusivamente para a passagem, e não para a permanência, e por isso sempre com intensa movimentação não fosse a zona mais indicada para a exigência de silêncio, paz e tranqüilidade. Nem todos enxergam desta perspectiva.
Estava eu curtindo então a fantasia de suar em cima dos livros (infelizmente fica para uma próxima oportunidade emocionar o leitor com o fato de estar “suando de tanto trabalhar”... Aqui, eu suo de calor mesmo!), quando chegou a nosso oásis um indivíduo (segundo o Aurélio: “o exemplar de uma espécie qualquer, orgânica ou inorgânica, que constitui uma unidade distinta”. Ou, “A pessoa humana, considerada em suas características particulares”) muito importante. Já chegou arrastando cadeiras e mesas, batendo livros e cadernos, até conseguir armar todo o circo necessário para sua produção intelectual. Não culpo o Indivíduo (nosso protagonista) pelo carnaval feito, ensinaram-no que deveria mesmo sentir-se muito confortável para produzir, afinal, seu intelecto era muito potente, e precisaria de condições favoráveis para realizar toda esta potência. Como observadora, não me achei apta a julgá-lo, limitei-me apenas a pensar que talvez ele estivesse produzindo algo muito importante para a sociedade.
Depois de muito barulho feito em prol de sua acomodação, tudo voltou à normalidade. Era o que eu pensava... Foi quando dois amigos se encontraram e travaram um diálogo. Uma breve conversa entre dois amigos, sobre algum assunto do movimento estudantil, ou algo assim, foi o suficiente para incomodar o Potente Indivíduo, que veementemente bradou: “Vocês poderiam falar mais baixo, por favor?” (apesar do tom de voz não ser exatamente o de quem pede um favor). Sim, caro leitor, era o fim de uma conversa costumeira entre amigos, em prol do conhecimento científico. Também para os funcionários da biblioteca de pós graduação valia a “lei do silêncio” promulgada pelo Importante Estudioso. Desta forma, os funcionários receberam um sonoro “Sssshhhhh!!!” (destes de fazer os cabelos tornarem-se tão esvoaçantes como os de um comercial de shampoo), quando tiveram o atrevimento de falar mais do que deveriam (qualquer coisa que fosse mais do que indicar a localização de um importante livro já era considerado excedente para o Fundamental Pesquisador). Sim, caro leitor, era o fim de mais uma conversa entre amigos. E, arrisco-me a dizer que se surgisse uma terceira, quarta, quinta ou sexta conversa, estas também seriam silenciadas, uma a uma pelo Gigante do Saber, afinal, que forma de construção de conhecimento seria mais importante do que esta que ele estava a executar? Como observadora, comecei a achar que um pouquinho de parcialidade não faria mal algum ao meu relato, e julguei que o Indivíduo se levava realmente muito a sério, talvez mais do que o necessário.
Lograda a ordem tão desejada pelo Primordial Cientista, este conseguiu acalmar-se e retomar suas pesquisas. Até o momento em que, leve e relaxadamente, dois funcionários da universidade desciam a rampa de acesso ao corredor, lamentando-se do duro trabalho que teriam de realizar. Quando prestei atenção ao que diziam (eu já sei que escutar conversa alheia é feio, não precisa vocês virem brigar comigo!), tratei de ver se tinha o telefone de algum hospital ou médico em minha agenda, pois eu tinha certeza que o Avantajado Intelecto ia sofrer um enfarte no exato minuto em que o proletariado começasse a executar sua tarefa, e alguém precisaria socorrê-lo.
Havia um andaime montado no jardim central da biblioteca, e este deveria ser desmontado. Para completar era segunda-feira, dia dos dois amigos de trabalho compartilharem as aventuras e desventuras do final de semana. Como observadora, mandei esse negócio de imparcialidade “pras cucuias” (convenhamos, isso já não existe nem na História mais, desde o século início do século passado), e senti ardentemente o desejo de ver o circo pegar fogo, isto é, a seriedade e a importância do Senhor de Toda Erudição sendo massacrada pelo barulho dos ferros que atravessam a vida dos operários e das conversas que desmontam os andaimes (não necessariamente nesta mesma ordem).
Se o Grande Sujeito de Conhecimento não enfartou desta vez, acreditem, ele chegou perto. Foram horas de contorção e inquietude na cadeira, caras feias e suspiros de raiva por conta do barulho que estava sendo feito e tanto atrapalhava a concentração no conhecimento que ele mesmo, o Respeitável Intelectual, estava produzindo. Como resposta a isso, a indiferença de todo o resto das pessoas presentes na biblioteca, inclusive, ou talvez principalmente, a dos trabalhadores. Depois de muito se enervar, o Portador da Mais Absoluta Sabedoria fazendo mais barulho do que quando chegara juntou todo o seu material e retirou-se do recinto, desistindo de tentar silenciar o operariado. Como observadora, já deixando por escrito minha confissão de parcialidade, registrada até em cartório, percebi um sorriso brotar em meu rosto, já que desta vez, o operário venceu o burguês.
Logo após a ida do Indivíduo, avaliei que eu havia dado a ele muita importância, e nem ao menos prestei atenção às outras pessoas que estavam na biblioteca. Mesmo em meio a tanta confusão e barulho, percebi que na mesa ao lado havia uma moça, calma e tranqüila. E pasmem: serenamente como um bebê, ela dormia.
Larissa Costard - Sexto Período