Edgar Morin dizia que o cinema é a grande substituição do ritual, onde o que vemos é uma projeção de nós mesmos e ao mesmo tempo podemos ser nós os projetados...
. Arte burguesa por excelência, grande máquina ideológica, espelho que nos deforma, fonte privilegiada para o estudo da “produção de subjetividade”, o cinema tem papel pedagógico e nos revela até certo ponto um inconsciente coletivo. E tem um filme que inaugurou a estética e a ideologia pós-modernas, que tirou Hollywood do fundo do poço e fundou uma nova tradição, filme que surgiu independente, mas criou a primeira indústria de efeitos especiais (a Lucas Arts), apontando para uma nova fábrica cinematográfica. Antes, ficções científicas e filmes de fantasia não entravam na lista de grandes produções americanas, não lucravam. mas depois da primeira Trilogia de “Guerra nas Estrelas” tudo mudou...
Nos anos 60/70 hollywood estava em seu pior momento. O avanço da praga das televisões matava as suas últimas pretensões industriais, provocando uma descentralização da produção cinematográfica. Os jovens americanos, grandes consumidores de informação, se apropriam desse cinema como de uma arma para a transformação, na época dos mísseis e do medo da bomba. O cinema independente americano chegou, assim, a um auge, quando cresceu alinhado a uma vontade de estimular uma consciência histórica como ponto de partida para o fazer história, mudar o mundo. Tudo isso toma novos rumos com o fim da guerra do Vietnã e a queda do presidente Nixon. Ninguém mais agüentava ir ao cinema para ver filmes difíceis e experimentais que falavam da decadência do país. E preferiram voltar à diversão. Nesta época Hollywood já percebera o potencial dos jovens diretores, contratando-os para trabalhar em produções baratas. Nesse mesmo período a crise do petróleo atinge a Europa sem reservas, em contra-face aos Estados Unidos que se provam até certo ponto imunes à crise, se unindo à China e ao Japão numa nova revolução industrial. Antes a Europa é que estava na frente em termos industriais e cinematográficos, já que modernizara tudo após a destruição da segunda guerra: economia, ética e estética. Os EUA e o Japão responderam com o desenvolvimento da robótica, da computação e das mídias.
Junto a novos modelos econômicos emergiram novos arquétipos ideológico-culturais. A primeira trilogia de “Guerra nas Estrelas” representa no cinema uma verdadeira invasão da computação e da robótica, com uma indústria de efeitos especiais e uma mistura infindável de mídias, nos deixando confusos na hora de pensar se é um filme, ou se uma revista em quadrinhos, um seriado de tv, bonecos, livros. E por outro lado, é o equivalente cultural ao que foi a crise do petróleo para as economias: o fim da liderança européia e o surgimento de novos centros de produção. Sem dúvida temos hoje filmes que não dependem do numero de ingressos vendidos, pois faturam também em cima de trilhas sonoras, locação de vídeo, jogos diversos (vídeo-game principalmente) e etc. E essa robotização e racionalização do mundo e do cinema aparecem também expressas nos paradigmas cinematográficos (que, segundo Morin seriam projetados por nós mesmos), que são o do robô (que aparece por cima da imagem do monstro) e do imperador do mal. O medo provocado por essas figuras de pesadelo (duma instigante inconsciência infantil) – Darth Vader e o Imperador Sith, a máquina e o totalitarismo – vai se repetir como um eco nos filmes futuristas e nos de fantasia (“Robocop” e “O Senhor dos Anéis”, por exemplo). Fobia extremamente prazerosa para o público e que possibilita a simplificação dos enredos. Já a superação feita pelo herói desse medo vai nos remeter a romances de cavalaria. E o amor do final pode ser assim condensado: “o cinema é a realização de nossos desejos mais íntimos”.
Star Wars é, afinal, a grande volta dos épicos, só que paradoxalmente mais realistas e fantasiosos ao mesmo tempo. A luta do bem contra o mal, república x império, como nunca tão grandiosa. A visão americana da Guerra Fria e a identificação do espectador com o herói, modernizados. Até certo ponto, é uma convergência das linhas principais do cinema americano: o realismo surgido nos anos 60 (com forte influencia européia) e a estética da cultura pop de filmes de baixo nível de produção. Mais uma novidade: pela primeira vez são divulgados na tv, rankings de bilheteria. Não importam mais os questionamentos estéticos. A experimentação e a problematização da realidade cotidiana são deixados de lado em favor do que dá mais dinheiro. Após uma década de anti-heróis, é a volta do “american way of life”, com novas mídias e tecnologias, novos paradigmas que não deixaram, em realidade, de fazer parte da tradição americana de narrativas lineares clássicas. Agora é a vez de clichês super-desenvolvidos.
Terry Eagleton expressa em seu livro “as ilusões da “pós-modernidade” a idéia de que os anseios políticos de mudar o mundo por um futuro melhor dão lugar à vontade de viver o futuro no agora. Vivê-lo no cinema, nas pistas de dança cheia de sons e luzes, exibindo alegremente roupas espalhafatosas. Ao dar choques elétricos na nova indústria cinematográfica, ao ligá-la como nunca à nova realidade do espectador, ao cotidiano lúdico e ao imaginário da juventude, “Guerra nas Estrelas” abre a nós as portas desse futuro, passando a ser mais do que apenas um filme. E nele vemos “E.T”, “Super-Homem”, “Robocop” e, enfim, tudo o que o filme “B” de fantasia – agora super-produzido – e os anos 80 poderiam nos apresentar. E hoje, mais revistinhas em quadrinho passam das bancas de jornal aos cinemas, ficções cientificas a la vídeo-game, filmes neo-romanticos super-produzidos (“King Kong” e “O Senhor dos Anéis”). E nunca se condensou tanta religião, filosofia barata, quadrinhos, vídeo-game e romantismo, como em Matrix. Neo, a liberdade individual em pessoa, uma espécie de messias do séc. XXI que nos liberta do mundo das maquinas. Um auge e, acredito que por isso mesmo, um desgaste do cinema americano, com sua mania globalizada de nivelar tudo, de terminar sempre em melodrama. E realmente, eles venceram. Pois o advento de “Guerra nas Estrelas” em 1977 equivale também a outro símbolo do imaginário contemporâneo: o da queda do muro de Berlin. O império contra-atacava, surgia o mundo pós-moderno representado por seus dois grandes ideólogos das massas, George Lucas e Spielberg. Ou seria Darth Vader e Imperador Sith? Alias, onde estão os jedis?
Lucas Gadelha Parente - Quinto Período