De tudo o que não seja pensamento humano não pode haver história.
TENDO sua primeira edição em 1946, “A Idéia de História” é acima de tudo um livro de militância; travando uma batalha pelo lugar da história no pensamento filosófico. Desta forma, para justificar a importância deste conhecimento, lança mão de uma análise histórica de como o pensamento humano encarou o passado histórico e suas diferentes proposições do que seria esta produção. Levando em conta mudanças nas mentalidades, centrando em filósofos e pensadores que deram alguma atenção a produção de História, Robin George Collingwood tenta mostrar como, ao longo do tempo, deu-se a gestação do conhecimento histórico. A obra é, sobretudo, um debate gnosiológico, que tentará justificar ser o conhecimento extraído de ações humanas passadas, digno dos debates epistemológicos; se permitindo ainda discutir o método historiográfico e efetuar nas entrelinhas a crítica da história.
Partindo desta ambiciosa proposta, Collinwood nos conduz a uma interessante viagem desde a “antiguidade mitológica” até o séc. XIX, incorporando discussões que envolvem o pensamento Grego, Romano, de que maneira se via a história na Idade Média, o advento do método com Descartes, o “Século das Luzes”, o Romantismo e as escolas positivistas. Neste caminho, são invocadas escolas que se propõe a pensar o que seria a história, como a escola Alemã, Inglesa, Francesa, Italiana; com seus respectivos grandes nomes Windelband, Dilthey e Meyer; Bradley e Toynbee; Bérgson; Croce entre muitos outros. Marx e Hegel também são revistos, assim como Schiller, Kant, Descartes, Tito Lívio, Tácito, Políbio, Tucídides e Heródoto, este encarado como o pai da história.
Na perspectiva de Collingwood, a afirmação da história como conhecimento tem de passar pelo convencimento dos indivíduos de que aquilo narrado realmente serve para alguma coisa e é verdadeiro. E é nesta premissa que a obra cresce em valor, pois buscará entender na perspectiva da época como a história é encarada, e como irá amadurecer até ser finalmente entendida como um conhecimento válido, ou seja, até que exista uma consciência histórica, que nos permita dizer: “a história é para o auto-conhecimento humano”. Com isso são muito profícuas as análises de Heródoto, que planta a semente da História, mas está condicionado a uma mentalidade anti-histórica, porque substancialista. Nota-se avanço, no entanto, pela perspectiva humanista incorporada no pensamento histórico de Heródoto (presente nas demais produções de gregos e romanos), contrastante com a história mitológica de outras civilizações da antiguidade.
Avançando, nosso autor busca as características das produções da Idade Média, fortemente influenciadas pelo pensamento cristão, o que impede serem criações puramente humanas os eventos históricos, devido à interferência da orientação divina, e mesmo da intervenção direta do deus cristão. Em seguida, debate as duras críticas de Descartes ao pensamento histórico, mostrando o processo no qual a criação da Ciência foi paulatinamente provocando os historiadores a inserir o método às suas análises; até culminar na filosofia do iluminismo, que “encerra” a gestação da Ciência como “mito do conhecimento”, mas tem problemas na construção do conhecimento histórico pela sua valoração negativista do passado como “não iluminado, tenebroso, atrasado”. Este alargamento dos horizontes da pesquisa histórica só seria possível com o movimento romântico, que iria valorar positivamente o passado, minorando o preconceito impresso pela ilustração.
O pensamento histórico tem um objeto com particularidades próprias. O passado, consistindo em acontecimentos particulares no espaço e no tempo que já não se verificam, não pode ser apreendido pelo pensamento matemático porque este apreende objetos que não têm situação específica no espaço e no tempo, e é precisamente essa falta de situação espaço-temporal que os torna cognoscíveis. Nem pode ser apreendido o passado pelo pensamento teológico porque o objeto deste tipo de conhecimento é um objeto singular e infinito, e os acontecimentos históricos são finitos e plurais. Nem pelo conhecimento científico, porque as verdades que a ciência descobre são reconhecíveis como verdadeiras ao serem atingidas através da observação e da experimentação exemplificadas naquilo que realmente percebemos, tendo o passado desaparecido e não podendo as nossas idéias acerca dele serem nunca verificadas como verificamos as nossas hipóteses científicas.
Antes de introduzir as mudanças geradas pelo pensamento positivista, Collingwood destaca as proposições de Kant, Hegel e Marx (além de outros), que em suas análises filosóficas legariam importantes características a produção historiográfica, mas que na leitura do autor teve “pequena influência imediata sobre a investigação histórica”, suspeitando de todas as filosofias da história (ao longo do séc. XIX), “como tratando-se de especulações sem fundamento”. Sua investigação do positivismo e posteriormente das escolas positivistas, mostra que mesmo a serviço das ciências da natureza, o pensamento do séc. XIX irá incorporar de vez a história no âmbito das ciências, permitindo a ela recolher o máximo de informações, estudos pormenorizados, utilizando rigidamente o método, enriquecendo, significativamente, a produção historiográfica (pelo menos do conhecimento dos pormenores).
A análise do autor permite colocarmos num tripé a produção de História ao longo do tempo; primeiramente uma literatura histórica, pouco ligada ao método e, portanto, não exatamente conhecimento histórico, pela pouca capacidade de convencimento. Segundo, uma produção historiográfica universalista, de pouca base metodológica, mas que se permite criar generalizações e entrar num universo de proposições racionais, de conjugar eventos históricos e extrair dele conhecimento, também carente de metodologia, porém útil em seu discurso transcendente aos fatos. Estes mesmos fatos, que traduzidos e extraídos do método rígido, marcam uma história erudita, que concentrada no pormenor, hoje em dia é muito criticada, não sendo raro chamarmos de história metódica, mas que certamente teve sua importância no recolhimento de fontes, na compilação de manuscritos, na construção de anais.
Deste debate, nascem questionamentos interessantes, propostas que corroboram com as proposições acerca do método, do objeto e da finalidade do pensamento histórico, ou melhor, conhecimento histórico; tão exploradas por Collinwood. Será que conjugar estas três grandes facetas nos permite recriar o passado histórico dentro de nós satisfatoriamente, permitindo que se extraia das ações humanas no tempo, reflexões para o entendimento do que é o eu? Será que a carência de um destes três aspectos, ou mesmo o exagero em uma das características, seja o aspecto literário (ou o descolar das premissas científicas), seja o aspecto filosófico (proposições racionais, lógico e aprioristicamente construídas, que são inerentes ao poder de abstração humano) e o aspecto erudito (preso ao método, que utiliza e questiona de maneira rígida as fontes, ou melhor, pistas, deixadas pelo passado histórico) pode acabar maculando uma boa obra de história, que convence, informa e, sobretudo permite o crescimento do indivíduo pelo caminho do entendimento da natureza humana?
Bem, estas são as propostas de Robin George Collinwood. Buscar o espaço no debate epistemológico, pelo entendimento dos alicerces do conhecimento histórico, construído historicamente. E este é o convite feito pela obra “A idéia de História”.
Guilherme P. Bresciani C. Linhares - Terceiro Período