É bastante comum usarmos em nosso vocabulário cotidiano expressões transmitidas do futebol: se alguém está em perigo, fica na 'marca do pênalti';se consegue se salvar, 'fulano tirou a bola em cima da linha'; caso tenha levado a pior, diz-se que 'tomou cartão vermelho', ou algo ainda mais dramático, 'quando todos achavam que a partida estava resolvida, sua estrela brilhou, marcou o gol da virada aos 47 do segundo tempo'. Através de pequenos exemplos, pode-se perceber o quanto o futebol - se visto como arte - pode imitar a vida e como a bola, quero dizer, a vida, também imita a arte. Nestes termos também poder-se-ia aderir a uma outra máxima: a de que o futebol é uma caixinha de surpresas.
Acontece que como na vida essas surpresas nem sempre são muito agradáveis. A partir de meados da década de 1990, um novo fenômeno vem se apresentando em meio ao mundo do futebol: a constante troca de equipes por parte de jogadores que, muitas vezes, possuíam uma identificação com um determinado clube. Será que o futebol mercantilizou-se a tal ponto que presenciamos o fim do 'amor à camisa'? Seria esse um movimento isolado, restrito apenas ao futebol, ou algo que vem da própria imitação da vida? Essa liberdade e facilidade para trocar de clube, literalmente como quem troca de roupa, seria um fator meramente econômico (segundo alegam os jogadores contratados por times 'pequenos', mas que são bons pagadores)?
Fazendo a ponte Futebol-Vida, Z. Bauman, em seu livro, 'O mal-estar da pós-modernidade’, faz um contraponto à Freud, que falou dos males da modernidade. Segundo Bauman, no período moderno havia uma relação necessária entre liberdade e segurança. Para que o Estado tivesse capacidade de fornecer 'à sociedade capitalista um 'projeto de vida' calcado no máximo de estabilidade possível, era imprescindível que este fosse detentor de boa parte da liberdade da sociedade, o que justificaria, portanto, inclusive, as ditaduras. Por outro lado, a crise desse modelo produz uma radicalidade inversa: se a sociedade moderna não foi capaz de trazer a tão sonhada felicidade, talvez o caminho para encontra-la seja o alargamento do pólo oposto: a liberdade. Dessa forma, tendo como pressuposto a liberdade, quem fica livre são os jogadores - livres para trocar de Time a cada fim de campeonato. No lugar da segurança, inseguros estão os torcedores, que não possuem mais ídolos. Quem saberia de memória a escalação do Flamengo do início da temporada? Se os jogadores do Canto do Rio ou do Nova Cidade entrassem em campo vestindo vermelho e preto, talvez nem fizesse diferença...
Nessas horas, como quase sempre, dá mais pena das crianças. Há no meu prédio garotinho que, pelas constantes mudanças de clube de seu ídolo, já torceu por Flamengo, Fluminense, Vasco e até por um time da Arábia (!). Sempre que passa de carro na avenida Brasil com o pai- torcedor do América que ainda abre a janela aos gritos de 'Sangue'! - fica feliz ao ver uma placa com os dizeres: 'Obrigado Eurico por trazer de volta o Romário'. Entretanto... e quando o baixinho encerrar a carreira? Continuará nosso torcedor mirim 'vascaíno doente' ou vai 'virar a casaca'? Saímos de um tempo onde o presente apresentava-se como futuro do passado e os torcedores viviam pensando 'estar rumo a Tóquio' para esse presente que repete-se todos os dias. Isso até poderia ser bom, se o que se repetisse não fosse a mediocridade, visível tanto em dirigentes obsoletos e corruptos, como em jogadores que se apequenam diante da torcida. Aqui, apresenta-se de novo o fantasma do amor à camisa: os torcedores que pedem raça são incapazes de imaginar Zico ou Roberto Dinamite vestindo a camisa do rival. Hoje parece que tanto faz em que time se joga, haja vista as inumeráveis mudanças de clube perpetradas pelo admirável 'matador' Dimba.
O exemplo do futebol nos leva a questões complexas disseminadas nas sociedades em geral. Um problema que vem sendo muito debatido e diversamente resolvido dentro da reflexão moral contemporânea é o da liberdade humana. Algumas correntes de pensamento chegam a exaltar a liberdade como um direito absoluto, que seria a fonte dos valores. Dessa maneira, atribui-se à consciência individual prerrogativas de instância suprema do juízo, que decidiria, então, infalivelmente, sobre o bem e o mal. Se o juízo moral é encarado como verdadeiro pelo simples fato de provir da consciência, a exigência de uma verdade desaparece em prol de um critério de sinceridade, de 'acordo comigo mesmo', a ponto de se ter um juízo moral extremamente relativista. Não seria difícil então vincular a esta evolução a crise em torno da verdade: a consciência do indivíduo passa a ter o privilégio de estabelecer autonomamente os critérios sobre o que seria bom ou ruim e agir em conseqüência. Esta visão apóia-se numa ética individualista, na qual cada um se vê confrontado com a sua verdade, diferente da verdade dos outros.
Paralelamente à exaltação da liberdade, a cultura dos tempos atuais põe radicalmente em cheque a própria liberdade. Muitos de nossos contemporâneos apreciam grandemente essa liberdade, estando sempre à sua procura com imenso ardor. A liberdade aqui tem sido usada como se consistisse na licença de fazer seja o que for, contanto que agrade. Dessa forma, jogadores de futebol vão todos os dias ao encontro de seus travesseiros e dormem tranqüilos, certos de beijarem quantas camisas suas consciências mandarem e seus bolsos pedirem. Essa crise da liberdade apresenta-se em outros tantos setores da sociedade e, principalmente entre os jovens, tão Afeitos a 'relacionamentos líquidos', na expressão de Z. Bauman - um bom exemplo são as 'micaretas'. Ultimamente o termo 'liberdade' vem se tornando justificativa e quase sinônimo para 'falta de compromisso'. O 'passe-livre' rege a vida dos jogadores dentro e fora dos gramados.
Será que esta busca por liberdade não possui efeito oposto, levando justamente a uma prisão- se não literal, ao menos de consciência? Parece, diante do exposto, que a liberdade humana poderia criar os valores do mundo e gozar de uma primazia sobre a verdade, ao ponto desta ser vista como uma criação daquela, agora soberana. Longe de ter a pretensão de criar resoluções ou cláusulas pétreas, essas idéias aqui elencadas buscam identificar problemas atuais e leva-los à reflexão, o que nos impõe uma tomada de decisão diante dos gramados da vida. O que devemos fazer, beijar a camisa ou marcar um gol contra? Ou estas expressões ter-se-iam tornado equivalentes?
Leonardo Lusitano Mosso - Sexto Período