Nietzsche: por um novo olhar sobre a história

Falar de Nietzsche após um discurso de defesa de uma visão hegeliana (como foi feito na última edição) é bastante complicado, ainda mais para alguém acostumado a “filosofar com o martelo”. Mas falar de Nietzsche, mesmo hoje em dia é bastante difícil, não importa o que seja. Muito polemizado pelas suas idéias anticristãs radicais ou pela apropriação distorcida que os nazistas fizeram de sua filosofia, Nietzsche ainda hoje, mais de cem anos após a sua morte, é bastante mal-compreendido. Para alguns é considerado um filósofo da direita (como afirma Leandro Konder...), para outros o pai do relativismo barato; e para outros ainda, um louco que ousou negar a existência de Deus. Balelas à parte, sua filosofia é de uma vitalidade e força compreendida por poucos, e para se beber no mesmo cálice do filósofo é necessário que deixemos de lado muitos de nossos preconceitos, principalmente aqueles que nos são mais caros como filhos diletos da civilização ocidental.

Num primeiro momento, qualquer leitor desta matéria com um pequeno conhecimento da filosofia nietzscheana pode se perguntar: “Tudo bem, Nietzsche é até interessante, mas o que ele têm a ver comigo estudante de História?”. Posso lhe afirmar que bastante. Para dizer a verdade, se não formos preconceituosos e limitados, a filosofia é de bastante utilidade para nós futuros historiadores. Como conhecimento crítico, ajuda-nos a pensar o mundo, a nossa realidade e as outras que a antecederam com novos olhos, alargando nossos horizontes e perspectivas teóricas. Não é à toa, que Friedrich Nietzsche influenciou, a partir de seu livro Genealogia da Moral, o pensamento de Norbert Elias na composição do seu Processo Civilizador, ou ainda a visão “Genealógica da História” que Michel Foucault irá desenvolver com base no filosofo alemão em seu Microfísica do Poder. Mas deixando de lado a apologia à filosofia e voltando à obra de Nietzsche, podemos apreender muito de sua filosofia. Seu conceito de genealogia (não confundir com a busca do “ídolo das origens”, atitude tão criticada por Bloch), sua visão perspectivista da realidade, sua crítica ao historicismo hegeliano que vê um sentido inegável e imutável no curso da História, sua visão de verdade como “verdade relativa” sempre em constante mudança, amadurecimento ou fenecimento e finalmente, sua negação de valores absolutos, podem nos ser de bastante utilidade ao lidar com a História.

Devido ao pouco espaço, não me será possível discutir todos estes pontos, mas pelo menos tentarei focar-me aos que julgo mais importantes: seu conceito de genealogia e o perspectivismo. Para Nietzsche o conceito de genealogia não é a procura da verdade intrínseca às origens em si, não uma busca adolescente à verdade inicial que dá sentido a tudo, mas exatamente do oposto, dos vários inícios, das várias causas, das constantes mudanças de sentido que tudo vai sofrendo no decorrer da História, ou seja, um rompimento para com o paradigma do “absoluto”. Se falar de uma história genealógica, é constituir um saber histórico não no sentido de construir grandes unidades nas quais os indivíduos possam se reconhecer, não no de buscar no passado significados para mitos que possuem um sentido comum, mas de se encontrar a heterogeneidade, os conflitos de forças multilaterais, complexos e que constituem os novos acontecimentos. É questionar o passado, a tradição, a origem e o devir; é justamente romper com qualquer concepção juvenil de que a História possui um rumo pré-determinado, é finalmente admitirmos a responsabilidade de que a História e o destino da humanidade apenas aos homens pertence, e não a nenhuma força metafísica que “guarda o destino dos homens”. Tal concepção não linear de tempo e da História rompe completamente com a posição hegeliana, criticando-a pela teleologia e por sua postura de usar o passado na criação de mitos no presente. Nietzsche não irá ver a História de maneira linear como Hegel, comandada pelas Leis do devir, mas sim de uma forma não-totalizante, operando com descontinuidades, onde as forças em ação na história não seguirão nenhuma destinação, nem nenhuma mecânica pré-concebida, mas apenas obedecendo ao acaso da luta. Sua visão da história implica no abandono de qualquer visão teleológica, de qualquer filosofia da História.Nietzsche enxerga a realidade, acima de tudo, como uma relação de forças, e sua visão da História se enquadra devidamente nesta mesma lógica.

Quanto ao perspectivismo, podemos dizer que é uma proposição de grande contribuição acerca da construção do saber. Para Nietzsche, por não existir uma verdade absoluta, o conhecimento é construído passo a passo a partir de diferentes relações entre o sujeito e o objeto, ou seja, dependendo do olhar que o sujeito incida sobre o objeto, um novo “saber” será compreendido por este. Tal saber deverá ser confrontado com outras visões daquele objeto, se construindo assim um grau mais próximo de verdade, mas que nunca será absoluta em si. Dessa forma, podemos aplicar isso também a visão que temos do nosso objeto, e assim pensarmos as possibilidades e horizontes que temos a explorar como sendo quase infinitos: contrariando assim a mentalidade que muitas vezes nos assalta que determinados temas na História já estão saturados, que muitos já pesquisaram sobre isso ou aquilo, ou ainda que não haja nada mais para se tratar ou “desvendar' sobre determinado tema. No saber sempre existem novas visões à serem cotejadas, sempre é válido revisar antigos temas com uma nova visão, um novo olhar, ou talvez ainda, com um olhar ainda mais crítico do que já foi lançado.

Muitos podem considerar o pensamento nietzscheano como sendo capaz de nos conduzir a um relativismo estéril. Em minha opinião (e na de muitos estudiosos da filosofia nietzscheana), isso incorre, de certa forma de uma má compreensão dos escritos de Nietzsche. É certo, que o hiper criticismo de sua obra é direcionado a “derrubar ídolos”, a golpear seus “pés de barro”, e que sua visão, digamos, mais aberta, menos hermética da verdade, possa conduzir espíritos incautos a um estado de dúvida e crítica onde tudo se torna relativo. Mas a atitude do filosofo não é a simples iconoclastia rebelde: é o rompimento autentico com um conceito de verdade fundamentado em relações metafísicas, idealistas, que negam que o saber seja apenas a interpretação que o homem consegue fazer da realidade, portanto, sempre passível de falhas.

Espero ter conseguido expressar-me bem e fazer-me entendido. Como disse no início da matéria a filosofia de Nietzsche é de difícil apreensão, e sintetizar um pensamento que está espalhado nas entranhas de toda a obra do filósofo em algumas poucas linhas, constitui-se um desafio e tanto. Espero que a matéria tenha sido proveitosa, ao menos para incitar aos curiosos a leitura do filósofo dionisíaco. Apesar de em muitos pontos já estar superado em sua visão da História, Nietzsche ainda reserva muitas perspectivas novas a serem abordadas; só nos basta abrir mão de nosso preconceitos em relação ao filósofo, e derrubar os velhos ídolos que nos obstruem a visão de amplos horizontes à nossa frente.

Pablo Azevedo - Quarto Período

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