Da circularidade e da circulação

Há poucas coisas que marcam melhor a capacidade de fragmentação do nosso curso, por discentes e docentes, que a reação a determinados problemas teóricos que, de diversas formas, se apresentam a todos. O exemplo mais óbvio é a perene questão da possibilidade de construção de um conhecimento objetivo na pesquisa histórica, não importando aí se positivista ou marxista, annaleano, absoluto, limitado, política ou socialmente referenciado (e seu desdobramento, a capacidade propositiva da história perante a sociedade). Problema geral, de significações contundentes, que, no entanto, tem gerado apenas respostas circulares, ou seja, ou bem se contornam os problemas, evitando-os, ou não se aventura muitos além dos círculos de entendimento existentes. Esta segunda questão, de dimensões também preocupantes, tem merecido menos atenção.

Não é crucial identificar aqui que respostas circulares seriam estas, ou seu cabimento lógico, teórico e político, ou o objetivo genérico ou hermético pretendido por seus formulantes (creio que os dois não faltam). Necessário é observar que as posturas resultantes dessas não se traduzem em projetos coletivos generalizantes. Alguns dos nossos professores se dispõem a discutir o tema, não só apresentá-lo, e dar sua opinião e sua resposta, própria ou emprestada. Mas mesmo estes tendem a encaixar tais argumentos num suposto paradigma nascente: ou seja, generalizante por excludente (na medida que excluem outras formas possíveis de história em termos de desatualização). De qualquer forma, não são muitos que o fazem. Maior parte se agrupa em torno de algumas respostas, geralmente coordenadas em séries orgânicas de pressupostos, circularizando aquele argumento e, portanto, tornando-o pouco impactante para outros círculos de pressupostos. Pouco impactante ou ainda facilmente contornável, o que, especialmente para os que se desejam propositivos, é muito significativo. Mas talvez parcela ainda maior de nossos professores adote postura ainda mais preocupante. Falo de uma fuga, intencional ou não, do assunto, desde a simples não menção até o discurso algo cômodo que a história tem alguma objetividade porque se baseia em alguma coisa, não se sabendo exatamente o quê. Suspeito que muitos simplesmente considerem essas questões algo próximo de um floreamento intelectual. Doces pragmáticos.

Entre os alunos, não é muito diferente. Menos informados por uma pesada carga de leitura comum, e não raro por pobreza conceitual, sem descartar a maior dificuldade de se isolar em círculos de intelectualidade e sociabilidade, o debate entre alunos até tende a ser mais freqüente, intenso e contrastante. Entre os professores uma certa ética profissional os obriga a terem um domínio sobre as principais referências da disciplina em geral. Os alunos podem ter opiniões mais livres, simplesmente escolhendo argumentos. Entretanto a maioria dos alunos apresenta uma versão piorada da postura "escapista" previamente apontada entre muitos professores. Facilitada pelo currículo metodológico obrigatório, onde as questões fundamentais do campo da história (o tempo, perspectiva diacrônica, veracidade, objetividade, método) não são mais que apresentadas em um curso introdutório de primeiro período, a grande maioria dos alunos cai ou num empirismo desprendido, ou numa ebriedade teórica, utilizando conceitos a esmo.

Está, portanto, o problema apresentado: questões gerais são contornadas ou circularizadamente tomadas. Há quem veja esta condição como simples divisão "geográfica" de campo político. Não duvido que haja mesmo quem se rejubile em ver antagonismos tão explícitos. Um erro. Um campo fragmentário é incapaz de fornecer fundamentações lógicas e analíticas sólidas para a prática consciente ou conscientizada. Isso porque seus pressupostos, circularizados, podem ser simplesmente deixados de lado por outros que deles não compartilhem, e assim são incapazes de impor sua generalização, salvo se potencializado por força não-intelectual, condicionante social posterior.

A circularidade é, pois, o problema? Tudo até aqui nesta argumentação indica que sim, mas essa não é uma resposta possível. Todo debate é circular, pois toda afirmação, questionamento, reflexão expressos com o objetivo que não o da revelação mística (ou artística) parte de pressupostos. Ou seja, para além de pré-condições lingüísticas e de códigos simbólicos, de partidos de princípio lógicos. Dessa forma, não é possível requerer uma disciplina, um campo, ou mesmo qualquer forma de debate intelectual que dispense uma circularidade. As próprias palavras tornam esta afirmação necessariamente redundante.

Duas conclusões tornam-se, portanto, possíveis. A primeira é que a reconstituição da história enquanto campo de produção de conhecimento debatível, num momento em que nenhum paradigma se impõe triunfante, é necessidade premente para a recuperação da confiança na história como saber específico sobre e através do empírico. A segunda é que necessariamente essa reconstituição terá que se dar em torno de pressupostos mínimos, delimitando portanto argumentos possíveis. Possibilita-se a afirmação em forma de objetos concretos, manipuláveis, materiais, e igualmente a crítica se torna palpável, dessa forma, ambas intercambiáveis. Pois, do contrário, quando estes objetos são transmutados em parcelas de um macro-referencial, como simples exemplos de uma compreensão maior de tudo, tornam-se evitáveis, tão logo outro referencial pode ser adotado. Dessa forma, os princípios basilares que estão ainda a ser debatidos, disputados e estabelecidos são nexo de questões cruciais, para a fundamentação lógica sólida, para se definir que tipo, de que forma e em que grau os dados escolhidos compõe nosso discurso, para a crítica consistente e produtiva e para o câmbio de análises, e para afirmações, dentro e fora da nossa disciplina. E assim a construção desse mínimo comum é tão essencial quanto necessariamente conjugadora.

Este é um texto convocativo para a discussão, para a ação propositiva, crítica e reflexiva. Mas, e portanto, não se pode furtar a indicar alguns pontos desse mínimo. De forma bastante geral, me mantenho somente em dois: o partido de princípio da existência de uma realidade independente da observação (não negando a interpenetração e unicidade da observação enquanto realidade, mas mantendo a caracterização de que é a observação que incide sobre a realidade, enquanto parte dela e ativa construtiva e reativamente, e nunca produtora per se e pura dessa mesma); e, de forma análoga, da materialidade como objeto de observação minimamente objetiva das dinâmicas temporalmente inscritas existentes na realidade (materialidade aí pensada como o conjunto amplo de existências físicas e fisicamente expressas, e portanto incluído todo o conjunto da prática coletiva humana). São minhas propostas de base mínima, mas esse é um esforço necessariamente coletivo. Estamos dispostos a perseguir esse objetivo?

Ivan Dias Martins - Quarto Período

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