Café e Cigarro

É servido o café no copinho. Pedro, moreno, barbudo e gordo, sai jogando açúcar dentro do copo e mexe com rapidez. Paulo, magro e alinhado, coloca uma colher em cima do copo usando-a para medir a quantidade exata de açúcar. Mexe com jeitinho. Pedro pede um maço de Marlboro enquanto Paulo em silêncio abre o seu e tira um cigarro. Ao pegar este e acendê-lo Pedro diz:

- Que merda! Peguei a pior imagem! A do bebê morto no frasco de formol!

Paulo fala em tom sério como de praxe:

- Pelo menos eles mudaram de figura, pois as antigas eram muito piores.

- É a mesma merda, diz Pedro acendendo o cigarro. Deixa eu ver a tua - Paulo tira o maço do bolso e mostra a do cigarro broxa. - Puta que o pariu!

- Não é desfigurada, atinge mais: é a que mais tem - diz Paulo em tom conclusivo.

- Pô, é mesmo. Eles te vendem o cigarro, dizem que faz mal pro pulmão e o caralho e ainda te chamam de broxa! Que sacanagem! Vou trocar de maço. Garçom, me vê outro maço! Moço! - Ninguém dá atenção. Bêbados riem. Paulo dá uma tragada e soltando diz:

- Esquece isso. Não vai dar em nada, todas são iguais. Uma amiga minha veio da Espanha e eu percebi que o cigarro dela tinha uma capinha que tapava essas figuras. Lá eles vendem nas bancas essas capinhas. Que coisa né?

- Vendem o veneno e a cura... - um silêncio toma conta do bar. Chegam jovens usando umas roupas bem estranhas. Pedro pede um cinzeiro e acende seu cigarro. Paulo olha para ele, vendo que está no mundo da lua.

- Pedro? Ei! Paulo dá um pequeno tapa no braço de Pedro

- Ahn? Foi mal é que eu tava vendo um ligeiro acontecimento aqui. Algo que veio em minha cabeça - Silêncio, os copos de café não estão mais com eles. Pedro olha a sua volta distraído. Só encontra o cinzeiro sendo levantado pelo atendente que limpa o vidro do balcão jogando sujeiras no chão. Paulo diz a Pedro e depois ao moço do balcão:

- Você tá precisando é de mais um café. Mais um cafezinho, por favor!

Mais silêncio. E o garçom chega com dois copos e colheres. Põe o açúcar na mesa e serve-os. Paulo no mesmo gesto ao colocar o açúcar. O atendente liga a tv, passa “Chaves”. Pedro dá um gole no café e depois diz:

- Como eu gosto desse jeitinho brasileiro, esse café no copo, esse garçom Paraíba.

- Que é isso! Mas como pode?! A xícara é bem melhor! Vem com a medida certa e ainda não queima a mão.

- Claro que não, assim o café ia ficar saindo por mais caro!

- Sem problema. É só servir na xícara e a um preço mais baixo e não o contrário! Assim todos seriam bem servidos!

- É, mas as pessoas da classe baixa seriam ainda assim mal servidas - O garçom olha rapidamente para ele, que retribui o olhar antes dele voltar sua atenção à tv. - Pra isso é que serve o copinho, pros que sabem pedir com manha.

- Manha?

- É ué! - Dá um gole no café. - O famoso jeitinho brasileiro. Os que não têm grana nem família têm manha. É só você saber pedir direito. Pedindo direitinho você recebe o copo cheio. Quem sabe até um cumprimento do garçom da próxima vez que vier no bar.

- Que exagero!

- Ainda não percebeu?

- O que?

- Que eu sempre sou melhor atendido nesses lugares que você? - Pedro baixa o tom de voz. Tenta algum dia cara. Fala assim, “no capricho por favor!”, e assim por diante... é a manha cara - Pedro bebe seu café com orgulho.

- A xícara branca, com o café preto, não queima, tem um jeito especial de pegar, isso sim é que é “jeitinho”. Isso é que é estética. Talvez você esteja certo em relação ao preço e a “manha”, enfim... - fala com escárnio a palavra “manha”. - Mas a estética é um benefício que paga o custo. Você vê, o branco com o preto, a certa medida, a forma de pegar a xícara, é sempre mais bonito, mais puro - dá uma tragada. - O mais puro é sempre o mais bonito. As estéticas de consumo se fazem por serem sempre iguais. A coca-cola... - um gole de café - e o pó por exemplo. Ninguém bota qualquer quantidade de cocaína na mesa e sai cheirando, as pessoas fazem carreira iguais, mais bonitas, práticas e dividindo as quantidades pelas narinas - dá um gole no café e uma tragada no cigarro. Pedro olha pra ele com certa decepção. - Cara, não é possível que as pessoas não percebam que é exatamente por isso que a gente se encontra no fundo do poço e os países frios na boa - fala com um traço de insegurança. - É por que eles têm a justa medida.

Isso é frescura tua cara - bebe um pouco de café e bate com o copo na mesa, meio puto - Pra começar é só você subir algum morro que seja. Nego cheira direto do saquinho! E além do mais, ninguém tem duas narinas iguais! Ó o teu nariz por exemplo! Desproporcional em relação ao teu rosto! - silêncio desconfortável. Pedro acende um cigarro para poder se acalmar. - O mestiço é feio assim mesmo cara - coloca o cigarro e o isqueiro sobre o balcão e fala pausadamente. - É sem medida. E aliás, esse negócio de medida não tá com nada. Mas o nosso jeitinho... o nosso jeitinho é que é bom - dá uma risada, uma tragada no cigarro e um gole no café. - Paga o custo cara, isso sim paga o custo - rola um silêncio de reflexão. Pedro olha pra cima, pros lados... - Mais um café faz favor! E esse eu quero é que venha no capricho!

Lucas Parente - Quinto Período

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