Sobre bondes e zepelins

Sobre o que nos dividimos, quais questões cortam e recortam os estudantes de nosso curso e criam tensões quase incontornáveis? Serão as perenes questões políticas, internas e externas à universidade, que naturalmente se acenderiam num período de tantas eleições (presidenciais, departamentais, do nosso centro acadêmico)? Serão talvez as controvérsias acadêmicas, metodológicas? Ou ainda, quem sabe, as deliciosas intrigas departamentais? Opa, não, o que tem dramatizado ultimamente o nosso curso tem sido um ritmo.

O funk serpenteou para a paz gregoriana do ICHF, e nos perguntamos porque. Será que é tão potente a ponto de mobilizar partidos em torno de si? Talvez, mas se queremos entender tensões humanas, melhor olharmos para quem as vivenciam. Mas, historiadores que somos, cremos tudo ser processo. Pois bem, processemos.

Desde há pelo menos dois anos, o funk tem sido um pária no recanto ichfiano. Quando eventualmente aparecia, era apropriadamente domado pelo ambiente, encaixado em momentos lúdicos ou nostálgicos. Tal estado rompeu-se no último semestre. Desde então os embates têm-se dado principalmente sobre esta presença estrondosa nos espaços comuns que carregam de certa forma o nome do curso. Então se quer se distinguir mais claramente os lados da disputa, é sensato buscar nestes espaços onde a fissura se deu. Pois bem, as rixas mais espetaculares e evidentes se deram no ENEH e na última chopada, então vejamos estes eventos.

Embora contrarie a ordem cronológica, vamos considerar primeiro a última. Nesta, a cena se desdobrou em dois atos: um, digamos, institucional e outro imediatamente prático. A chopada foi planejada em algumas reuniões da Comissão Gestora, sendo que uma se dedicou exclusivamente à festa. Nesta, a questão principal foi se o funk tocaria ou não. Apresentada quando se decidia como se daria a organização musical da festa, ela acabou sendo o eixo do tópico, com diversas fórmulas pensadas antes como seleção de estilo que de formato de festa. As questões organizacionais foram conciliadas, mas sonoramente a decisão foi bem direta: tocariam vários estilos de apelo popular, mas não funk. Deixando os bons e maus argumentos para tal de lado, a notícia reverberou e teve suas reações. Deu-se que em uma chopada incrivelmente cheia, a disputa encontrou sua expressão mais óbvia: à distância de algumas dezenas de metros do palco onde tocava a banda oficialmente escalada, um carro de som obscenamente ruidoso apresentava o ritmo banido, com uma fina seleção dos, digamos, menos leves rebentos do estilo. Mas a chopada aconteceu, com o amplo espaço intermediário ocupado por cambiantes entre as duas frentes sonoras. Lucro para o CA e divertimento para os participantes, mas se a maioria deslocante provou que não foi uma ruptura dual simples do curso, o espaço inegavelmente se cindiu.

De qualquer forma, tratei antes da chopada por nela o cisma se tornar mais palpável, mas na verdade camuflou-se sob o aspecto da própria música e, de forma subsidiária, questões políticas e sociais. No ENEH a coisa foi bem diferente. Bom, num brevíssimo retrospecto, a divisão “demográfica” dos dois ônibus enviados já, de algum modo, marcava uma certa diferenciação sentida, embora ela tenha sido parcialmente casual, que se repetiu na divisão da delegação em dois alojamentos diferentes, e com diferencial de que agora cada um escolheu onde ficar. E os dois grupos quase não se viram, quase não se buscaram. Quando houve contato, o que por vezes foi teatral tornou-se, de fato, dramático. Numa disputa pelo controle sonoro de um ônibus com uma clara distinção entre um grupo sentado nas primeiras cadeiras e outro nas últimas, houve discussão nada amigável, xingamentos e provocações, e surgiu um designativo para um dos grupos: Leds. Aqui é importante ressaltar que, embora o apelido mais uma vez remetesse à música, o que se viu como os leds não era um grupo de aficcionados por rock setentista, mas sim um círculo de sociabilidade que já se notava desde muito antes como distinto. Leds veio a substituir o que antes simplesmente era eles.

Mas os eventos posteriores, na chopada, mais claramente musicais, não encontraram correspondência perfeita entre leds e seja lá qual seja um designativo para o outro grupo. Mas em outro evento, precedente aos dois, esta se deu de maneira bem mais nítida. Este evento foi a calourada. Novamente, tudo começou em uma reunião da Comissão Gestora, e o tema espinhoso foi o formato do trote. Pode-se imaginar as questões levantadas, não é? Pois bem, o que se passou é que pela primeira vez em milhões de anos se teve trote de fato na História da Uff, com pintura, brincadeiras, até o mal-afamado elefantinho. Isto provocou indignação profunda e expressa por parte do grupo que seria mais tarde chamado de leds. Composto em grande parte por pessoas dos períodos finais do curso, estes viram ser contrariada uma tradição há muito encampada por eles. Claramente, o não-trote era um elemento de orgulho e marca constituinte deste grupo, e de forma geral se articulavam nos espaços “legítimos” para garantir esta continuidade. Mas outros grupos têm se formado, novas correlações emergiram e, com isto, os conflitos. Aqui se centra a minha tese, de que as recentes disputas de aspecto cultural remetem aos elementos configuradores dos nossos círculos sociais. Elas se dão porque para alguns círculos a sua identidade depende de uma correspondência imagética suposta com o estudante de história genérico, embora esse genérico seja na verdade não uma média dos estudantes, mas sim o legítimo. Para tanto, é preciso que os espaços comuns do curso não contrariem esta imagem. Mas se desde há muitos novos grupos têm se levantado e cotidianamente marcado o curso, alguns dos mais novos vêm se insurgido diretamente contra esta imagem. É uma disputa sobre como o estudante de História se vê e pretende ser visto. É aí que o funk, o maracatu, o guache, maconha, elefantinho e cerveja entram: são marcas do que nós somos e tentamos ser. Talvez a solução para esta disputa seja simplesmente assumirmos que o que mais se evidencia disto tudo é uma variedade de modos de ser, e talvez esta possa ser uma base mais potente para compor algo que simplesmente marcar posição de diferença para com o mundo.

Ivan Dias Martins - Quinto Período

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