Papel social da escola de samba

Assim como a maioria das manifestações artísticas e culturais do país, a escola de samba sofre a influência negativa de estar atrelada a uma mídia que usufrui do espetáculo proporcionado por essas manifestações, esquecendo, escondendo ou até desconhecendo que a instituição escola de samba é algo mais do que se apresenta em oitenta minutos de desfile na Marquês de Sapucaí.

Quem possuir a curiosidade de procurar qualquer escola de samba durante o transcorrer dos meses, perceberá minimamente em cada uma delas a preocupação com questões mais amplas, perceberá que cada escola de samba possui uma inquietação, que em muitas é vista como dever, de ter uma participação efetiva dentro da sociedade, exercendo um papel social de atendimento às necessidades e carências da população à sua volta, preenchendo as lacunas deixadas por vários governos desde o limiar do surgimento do samba ainda no início do século XX.

Aos críticos do samba e da escola de samba deve ficar claro que o motivo pelo qual esta parece representar apenas a volúpia e a busca pela mídia -- representada por modelos siliconadas e atores da emissora que transmite o desfile -- tem origem na infame mercantilização dos desfiles, que se dá entre o final da década de1970 e construção do sambódromo (1983/1984) e que hoje chega aos extremos. Mas para além do que a mídia deixa transparecer, a instituição escola de samba é palco não só da alegria efêmera, e sim do espaço de discussão sobre o passado histórico do país -- via enredos e sambas, espaço de crítica social -- através da ironia, do deboche e da concepção artística de alegorias e fantasias. E não se resume só a isso. Se assistirmos durante as décadas de 80 e 90 a mercantilização do carnaval, assistimos também o reforço de iniciativas interessantes no campo social promovidas pelas escolas de samba. Louvo o trabalho social proporcionado em conjunto com a iniciativa pública pela Unidos da Viradouro, que desde 1991 atende a população que circunda sua área de atuação.

Para além de fornecer ajuda aos necessitados, a escola de samba proporciona à sua comunidade a oportunidade de atingir o mercado de trabalho e crescer social e profissionalmente através de cursos, por exemplo. Assim como a Viradouro, Porto da Pedra, Beija Flor de Nilópolis, Acadêmicos do Grande Rio, Acadêmicos de Cubango, Tradição, Império Serrano, entre outras, igualmente transformam-se durante o ano em espaço de atuação social sério e preocupado com o bem estar, qualidade de vida e saúde da sociedade.

Aos que não acreditam na importância da escola de samba e do samba, ou mesmo para aqueles que desconhecem o papel social de tais instituições é sempre válida a iniciativa de ir conhecê-las. Com certeza serão bem recebidos e se encantarão com a organização interna e com a preocupação dos principais responsáveis no sentido de alcançar seu objetivo, que para além do resultado de “quarta-feira de cinzas”, ultrapassa e se expande ao longo do ano na busca pela melhoria da condição social do outro, não apenas no sentido paliativo, mas “definitivo”.

Para fechar, me permito relembrar a fala de um grande radialista carioca, falecido em 2003, Arlênio Lívio, que sempre bradou que se os nossos governantes espelhassem sua organização governamental na organização de uma escola de samba, o Brasil deixaria de ser o país do futuro para ser o país do presente, mais organizado e preocupado com todos os setores de nossa sociedade. Axé Ciata.

Acredito que o nosso saudoso radialista tinha razão. Viva nossas escolas de samba, viva seu papel social louvável! E esperemos todos que esse papel seja fomentado e reforçado pelas futuras gerações e não seja atingido negativamente pela mídia infame. “chega de ser o país do futuro! Que seja do presente”!

Leandro M. Silveira - Sexto Período

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