Os limites da dúvida

“Mesmo céticos podem ser tão dogmáticos quanto os crentes mais fervorosos” Judith Shklar

Voltamos ao debate, este sim “objetivo primeiro” da nossa revista. Nos dois primeiros números, dois textos se opuseram frontalmente, embora com mais semelhanças do que é perceptível à primeira vista (as quais pretendo demonstrar abaixo): “O valor da dúvida” e “O valor da certeza”. No primeiro, fiz um apelo, “Duvidemos!”; no segundo, meus angustiados amigos Lucas e Marco matizaram, discordaram de e criticaram o meu texto. Duvidaram, enfim. Sua contribuição foi essencial, colocando certos limites no meu entusiasmado, mas imaturo, ceticismo, corrigindo-o, em certo sentido. É sobre isso que versa (ou prosa?) este texto.

Comecemos por algumas definições. O ceticismo político pode ser entendido basicamente como uma dúvida sobre os princípios da ação política, mas não questiona necessariamente as crenças morais e políticas. Penso o ceticismo filosófico, por outro lado, como uma dúvida mais ampla da possibilidade mesma de uma crença racionalmente fundamentada. O que me interessa aqui, porém, é a dúvida sobre a moral e a política, muito mais urgentes que os interessantes quebra-cabeças filosóficos sobre a existência do real. Preciso, porém, fazer uma distinção que não ficou clara anteriormente: o ceticismo refere-se à dúvida, não à negação, pois senão cairemos no niilismo ou no relativismo, ambos dogmáticos, pois o primeiro afirma a inexistência de qualquer doutrina moral objetiva, enquanto o segundo acredita na impossibilidade de princípios universais. O ceticismo, por sua vez, duvida também destas proposições.

Já foi dito que o ceticismo leva a um conservadorismo, pois incentivaria a inação; da mesma maneira, dificultaria a defesa de quaisquer princípios, pois eles não seriam universalmente válidos. Poderia também libertar às pessoas de constrangimentos morais, transformando-as em monstros. Existem, porém, visões mais positivas, em que o ceticismo poderia incentivar a tolerância, pois seria mais difícil impormos nosso modo de vida se temos dúvida sobre a sua superioridade. As implicações são variadas, pois dependem do quê se duvida e porque se duvida, e ao mesmo tempo das crenças que se têm, pois é impossível a suspensão total do julgamento. O ceticismo, portanto, acaba por ser uma posição inerentemente instável, a qual, em minha opinião, devemos lutar a todo momento para retornar, mas em que não podemos (nem devemos) sempre permanecer, pois a dúvida por si mesma não pode desempenhar papel político algum.

A indiferença parece ser o maior perigo moral e político para o cético, mas, creio que ela é fundamentalmente determinada pela predisposição anterior à justiça -- entendida esta da maneira que for --, pois os resultados dependem fundamentalmente das crenças que o precedem e resistem ao seu efeito, em cada pessoa. É possível pensar também que existem dois elementos resistentes à dúvida, e, conseqüentemente, ao ceticismo -- as necessidades por uma consistência psicológica interna (que inclui a luta por uma consciência intelectual honesta) e por reconhecimento social, pois são essenciais para o viver em sociedade e para que cada indivíduo possa construir uma identidade minimamente coerente. É possível construir daí um fundamento básico para a ética, pois as necessidades acima expostas exigem reconhecer o Outro e suas demandas, ainda que numa perspectiva crítica. Daí pode nascer um desejo por alguma espécie de justiça, baseada no reconhecimento mútuo, o que poderia evoluir para uma atuação política baseada na busca pela igualdade. Qual igualdade, porém, depende de como o cético pretende viver sua vida, questão esta para a qual a dúvida é incapaz de fornecer respostas -- e nem é este seu papel.

Enfim, pode ser melhor pensar o ceticismo não como uma posição ou um conjunto de princípios, mas como uma ferramenta intelectual ou uma predisposição psicológica, baseada na crítica constante e na auto-reflexão. Não deve ser uma desconfiança irrefletida, mas um exercício sempre em curso de consciência intelectual. Esse tipo de ceticismo não é fácil; ele nos deixa intranqüilos, pois exige uma luta perpétua contra a tendência de parar de questionar, isto é, de pensar. Talvez seja a própria capacidade de refletir sobre estas questões o principal indicador da dignidade humana, pela qual devemos suspender a suspensão de julgamento e lutar por ela.

Estante:
Petr Lom -- The Limits of Doubt: The Moral and Political Implications of Skepticism. A este livro devo a maior parte das reflexões acima.
Thiago Krause - Sexto Período

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