“Eu defendo uma tese de que a cultura deve ser tratada como assunto ecológico”Hermínio Bello de Carvalho
Numa entrevista cedida por Hélio Turco (maior campeão de sambas-enredo) ao Globo (23/10/2005), uma afirmação do sambista é sublinhada: “o nome não é escola de samba? Pois, do jeito que as coisas vão, é melhor mudar pra escola de pula-pula!”. E depois: “Eles [os artistas] inventaram que a escola tem que voar. Tem de ser rápida. E que o samba também tem de ser rápido. Isso é ignorância”, e ainda: “A idéia é cantar um samba melodioso que vai crescendo, um samba bem dividido, redondo. Por que um trecho de melodia pequeno e uma letra desse tamanho? Um trecho com 10 notas musicais pede 10 sílabas. Hoje tem 13, 14. é o que eles fazem. Quebra-se a linha melódica, não se tem segmento melódico, o samba não tem alma.”. Isto se dá por causa de um processo de globalização das escolas de samba, onde vemos cada vez mais piruetas e menos arte.
O artigo explica que antigamente havia concurso pra ingressar na Ala dos Compositores. O candidato tinha que apresentar três sambas de sua autoria a serem avaliados por um ou mais examinadores (Cartola chegou a ser um deles). Hoje nada disso acontece. As alas abrem-se, a melodia se perde, o ritmo é acelerado. A música popular já não tem base nem vanguarda. No entanto, não devemos achar que há por detrás disso apenas um interesse mercadológico. Não, o problema é amplo e arraigado num inconsciente coletivo. A melodia está associada a uma certa subjetividade, a um enredo, uma narrativa linear centrada numa personagem. O ritmo é o que há de coletivo na música, é o que a caracteriza, a nacionaliza, é o seu tempo. Se vivermos num mundo acelerado onde a idéia de individuo romântica se perde, a música será também acelerada e sua melodia, difusa.
Hermínio Bello de Carvalho (letrista, produtor, cronista, historiador...) diz numa entrevista cedida à revista Palavra (11/03/2000) que tem “um depoimento do Cartola gravado em 62, 63 em que ele fala da sua desilusão com as escolas de samba, com a estrutura da bateria, fala da deturpação... uma denúncia sobre as transformações das escolas de samba...”. Donga, por sua vez, autor do primeiro samba gravado (Pelo telefone, 1917), dizia que “ritmo quer dizer bateria, partitura de bateria”. Em entrevista realizada no Museu da Imagem e do Som (02/04/1969) fala que o problema consiste em não escrevermos nossos ritmos, em não registrá-los. Estaríamos presos em resquícios de uma antiga cultura oral que não registra sua história. “O certo é nunca perturbar o ritmo. As características próprias não devem ser feridas. Isto é um crime. [...] Todo mundo se intromete e dá opinião sem saber”. Ambos os músicos se referem ao mesmo fe-nômeno de perda da tradição, de esqueci-mento inerente a uma cultura não letrada. Até hoje não sabemos dizer ao certo o que é um partido alto. Exis-tem várias interpreta-ções e acabamos por dar uma de antropólo-gos para saber.
No entanto, devo ressaltar, nem Donga nem Hermínio podem ser considerados tradicionalistas. Só para dar um exemplo, Donga defendia Roberto Carlos e Chico Buarque ao mesmo tempo, numa época em que havia uma rixa entre os da guitarra e os do violão. O que os dois entrevistados fazem é apontar para a preservação de nossa história, não para a estagnação da mesma. Neste sentido Hermínio é, até certo ponto, otimista, pois vê uma certa “salvação” na nova cultura letrada que estaria fazendo música popular de qualidade e registrando-a. “Quando eu vejo uma nova geração, esses meninos, com 23, 24 anos, todos lendo música, vejo que é uma geração de boa opinião, que briga a favor dessa qualidade a que estou me referindo... todos músicos excelentes, fazendo um trabalho de uma modernidade absoluta.... brasileiríssima....”. Com certeza Hermínio está se referindo aí a músicos como Yamandú Costa e Daniel Marques, músicos brancos de classe média, modernos que buscam caminhar por sobre uma base de música popular. Estaria o samba nas mãos de uma elite artística branca?
Vemos que a música popular vive um momento frágil e único em sua história. Cada vez mais valorizada pela classe-média (como vemos acontecer no Rio de Janeiro e em Recife: uma recente volta do frevo, do forró, do chorinho e das rodas de samba), está sumindo das favelas, de suas bases populares. Paralela a isto há uma tentativa de resistência por parte de certos músicos populares e regionalistas. Este texto deixa evidente o processo acelerado de ocidentalização e deculturação a que se refere Serge Gruzinski em “A colonização do imaginário”. O primeiro conceito denota um processo onde tudo tende a se igualar: a “redefinição do imaginário, dos meios de expressão e de transmissão do saber” a partir de um sistema imposto pelo padrão dominante (no caso, um padrão musical acelerado com linhas melódicas indefinidas). Já a deculturação, quer dizer “cultura da marginalidade e da alienação”, do esquecimento, enfim, em que vivem muitas dentre as pessoas que seriam justamente aquelas que resguardariam a tradição popular do samba.
Devo acrescentar que nenhum dos três entrevistados dão algum valor ao esquecimento. Pois, a meu ver, se a nossa identidade nacional depende de uma memória coletiva -- como diz Hermínio Bello: “A forma de cantar, de comer, de vestir, de falar, os ritmos que identificam cada região... é isso que dá ao país o sentido de nação, de nacionalidade...”-, por outro lado, as lacunas deixadas pelo esquecimento, assim como pela ocidentalização, este “furo na rede” tão caro a Gruzinski, dão vazão a novas possibilidades de criação. E são justamente estas criações totalmente novas que nos entregam, a nós latino-americanos, uma identidade não mais nacional, e sim forjada entre os dominados, uma identidade terceiro-mundista. Portanto, se a ala está aberta, se a música que ouvimos é de má qualidade, o negócio é transformar, aproveitar a fraqueza da linha melódica pra revidar com uma antropofagia de qualidade.
Lucas Gadelha Parente - Sexto Período