Á!, música, essa tão adorada parte da vida -- ó pedaço de nós, metade adorada de nós! Contigo, música, dividimos nossos caminhos nessa vida, compomos conjuntamente os passos por que passamos pelos tortuosos caminhos da existência, cada vez mais complexos desde que se fez a luz e desde que se fez o som, desde que nasceu a vida, desde que o SER se viu, há tanto atrás. E nessa conseqüência da visão de SER, na compreensão dos caminhos tomados, no estudo das histórias -- na própria consciência de ser -- tu, ó música, ainda elevas as secas assertivas costumeiras da filosofia aos campos da visão artística, atravessando as fronteiras da compreensão. Há músicas de texturas tão bem delineadas, ou tão extravagantes, que são como representações do próprio movimento da história; suas harmonias marcapassadas vão diminuindo ao passo que harmonias mais fluidas nascem dos panos de fundo para, ao substituir as anteriores, decadentes, assumirem o advento de um novo movimento -- soam como nossas transições histórica, rupturas ou elevações. Ora, e existe melhor noção de evolução do que a desfilada pelo samba?, que deixa a retidão para as avenidas, que corre o risco de ser atravessada, mas que ainda ruma feliz da vida e têm sua apoteose por fim?
Mesmo na poesia, já há muito que artistas elaboraram seus temas em melodias e harmonias, e verdadeiras sagas ganharam as dimensões musicais e se abriram para novas interpretações do que se expressava -- por vezes, houve trilhas sonoras que superaram as próprias imagens que deveriam simplesmente completar, como óperas e filmes recordados de ouvido. A música pura também ganhou seu relevo próprio; as composições na linguagem universal discorrem suas próprias sagas sem palavras, sem ter que enfrentar os degraus oriundos da Babel dos homens e de suas línguas. São vivas novas histórias, contadas em melodia, provocando interpretações nas mentes dos homens, relacionando-se com momentos da vida como se os narrasse em memória do passado. A música se fez referência para muitos homens e civilizações, podia responder-lhes questões sem perguntas, inspirar sentidos e mesmo compreensões.
Mas não sou pretensioso (não tanto) para tentar abarcar o tema da música na história; desse mundo conheço infinitésimos. Me volto a minha experiência própria, vivida com amigos nos tempos atuais, nesta metrópole e em alguns lugares mais, a experiência que motivou tão pretensiosas palavras.
Vivemos em tempos e lugares agraciados por uma verdadeira vastidão musical, acúmulo dos processos de interferência cultural que se deram e desenvolvimento tecnológico; a presença da música se faz mais intensa, constante e mesmo portátil. Nunca antes de poucas décadas atrás se pôde carregar consigo as apresentações de singulares mestres, nem de imensas orquestras, numa caminhada por aí, em fones de ouvido ou estéreos escandalosos.
Grande parte das últimas gerações compartilha suas vidas cada vez mais com a música, não raro se identificam com (e pela) música, cantam suas aspirações como se assim as realizassem, como se expressassem seu próprio ser. Momentos marcantes e conseqüentes são acompanhados por lamentos ou exaltações, crises ou sucessos brilham sob a aura duma singela melodia, e tornam-na uma singular referência para a futura memória, talvez simplesmente por ser contemporânea aos fatos vividos, ou talvez por ser parte ativa dos acontecimentos. Mas, referência, esta melodia irreversivelmente seguirá como a marca de um tempo que se passou, ao qual se poderá retornar pelo canto da melodia. Pois quando marcada na memória, terá sua forma “deturpada”, significando algo próprio do ouvinte, não do criador, e quando revisitada, a melodia ainda estará “deturpada”, e se sentirá o sentido nosso tempo passado e recordado.
É como se estabelecemos relações de paixão quando a música nos toca, e de amor quando tocamos ou compomos. De fato, eu estava apaixonado pelo reggae e pelas orações de suas estrelas jamaicanas e brasileiras quando 'saí da casinha' para o mundo, quando lógicas primitivas de existência podiam ser reveladas, ainda em poucas palavras é verdade, mas o feeling estava lá! Faríamos a revolução!, e eu não estava errado, demos os primeiros passos no caminho que chegaria por fim a encontrar a uma verdadeira morada, numa manhã reluzente, quando teria sido realizado o trabalho que precisava ser feito. Mas também apaixonado eu estava quando da conclusão deste primeiro caminho, em meio ao Fórum Social Mundial e sua cidade de cabanas caóticas, lendo e me sentindo um hobbit no Dark side of the moon, vivendo num mundo não muito mais fantasioso do que aquele dos que estavam a minha volta. E o caminho ganhava novos rumos, não contraditórios aos anteriores, mas diferentes.
Pois as paixões se acumulam, algumas podem até ser simultâneas, como as dimensões da própria existência humana. E houve outras tantas paixões musicais, falando do amor e das amizades de então, e muitos sambistas lhes são referência -- pois quem me vê sorrindo pensa que estou alegre, mas não tive a mocidade perdida. Pois desde que comecei a enfrentar a Ciência, esta safada, a Marisa deu belos montes para contemplação, e agora, na empreitada da história, a Nunes clarificou meus horizontes -- pois será que ninguém ouviu um soluçar de dor no canto do Brasil?!! Ó Música, eu nunca vi coisa mais bela, quando ela pisa a passarela e vai entrando na avenida!
E, muito mais do que uma coadjuvante trilha sonora, a música constrói e é construída pelas pessoas e grupos, carrega tons e sentimentos, significados, dúvidas ou certezas, sendo parte inseparável destes que se tornam verdadeiros 'interagentes' musicais. A bem da verdade, cada um poderia fazer um retrospecto de sua vida pelos períodos musicais por que passou, destacando-se as melodias e harmonias referenciais que foram lembradas pelo sentimento vivo de então. E, quando relembradas, revelarão, não o significado imediato de uma canção, mas o que ela representava, aquele gosto, aquela paixão. E nada é mais histórico do que reconhecer que não o representa mais, não com a mesma força de quando vivo o momento, e acompanhar o traçado desta evolução de paixões -- ilusões ou realizações -- costurando os lances desse jogo com a existência; cada um se conheceria melhor a partir de si, a partir do som. Afinal, eu canto, logo, existo. Mais do que existo, eu crio, dando graças a SER, à música, esse nosso leitmotiv de cada dia.
Lucas Von der Weid - Sexto Período