Entrevista – Marcos Alvito

Eis que A roda finalmente ultrapassou a longínqua fronteira do bloco O, e foi ouvir o que lá se tem a dizer aos estudantes e sobre os estudantes. Agradecemos imensamente ao Prof. Marcos Alvito pela colaboração e, desde já, deixamos aqui nosso pedido de desculpas pela brutal mutilação que sua entrevista teve que sofrer em função de nossas limitações de espaço. Sem mais delongas, deixamos que vocês se divirtam com as palavras do bem-humorado professor.

A roda: Quando você entrou na Universidade foi para estudar história antiga e agora suas pesquisas são mais voltadas para a história oral, certo?

Alvito: Minhas pesquisas são hoje mais o que os historiadores chamariam de cunho antropológico e os antropólogos chamariam de cunho histórico. Eu acredito que você tem uma ciência social, que apenas por uma questão de tradição e de habitus, e por uma questão corporativa, de poder, você não funde os cursos de antropologia, de sociologia e de história. Existem alguns saberes e técnicas específicas, mas estamos pensando os mesmos problemas. Portanto essa oposição é ultrapassada. Eu não trabalho com história oral. Eu trabalho em pesquisas em que a história oral está envolvida, há etnografia, há observação, o contato e também as entrevistas propriamente de história oral. Meu campo não é propriamente a história oral. A história oral tem entrado como técnica nas minhas últimas pesquisas.

O material que é produzido pela história oral muitas vezes sofre questionamentos de várias ordens. Muita gente afirma que não é um documento histórico por causa da subjetividade. Como você vê essas críticas? Você acha que tem algum limite na fonte oral que não tem na escrita?

Nas pesquisas em favela, eu sempre ia 1º buscar as instituições que guardavam documentação escrita. Aí, eu morri de rir dos historiadores, porque vi como se fabrica uma documentação escrita. Ela surge sempre por conta de uma necessidade, num contexto e numa relação de poder. Eu só faço uma carta de alforria porque eu tenho uma sociedade escravista onde se eu não tiver a carta, a polícia me prende. As associações de moradores, como as propriedades da favela não eram legalizadas, funcionavam como cartórios para regular as relações internas. Acontece que a associação fazia esse serviço da mesma maneira que um cartório, cobrando uma porcentagem. Havia transações da ordem de 40 mil reais. O sujeito que estava comprando ia ter que pagar 40 mil reais, e chegava na associação de moradores pra registrar e descobria que teria que pagar 1.200. Não pagava. Aí o que se fazia: a associação de moradores fabricava, falsificava a documentação que ela mesma utilizava. Ela mesma colocava lá que tinham sido 20 mil reais. Como aquilo não ia pro imposto de renda, porque não era algo legalizado, e o próprio presidente da associação, que era quem presidia essa transação, dizia: “não, coloca 20 mil aí e paga só seiscentos”, pra manter a norma intacta, no caso de alguém querer e poder pagar. Eu fico imaginando um historiador no futuro que chega e diz: “eu vou estudar o processo de valorização fundiária das favelas cariocas”. Aí encontra um arquivo de uma associação e vai pegar lá as transações na maior seriedade pra fazer os gráficos mostrando o valor das terras, fazer estatísticas, etc. Totalmente furado. E existem, inclusive, casos de documentação escrita que a falsificação é mais importante que o documento real, como o plano Cohen, por exemplo. É falsificado, mas é genial que Getúlio naquela época tivesse necessidade de fabricá-lo.

Ou seja, tudo o que você pode falar para a fonte oral, pode falar para a escrita. Qualquer fonte vai ter presente a subjetividade, as circunstâncias, as relações de poder. A história oral se aproxima do Lucien Fébvre, quando disse que o historiador deve ir atrás da carne humana. Porque eu acho que a coisa mais difícil pra passar pros aluno de 1º ou 2º grau é o seguinte: história pros alunos é uma das matérias mais abstratas, porque há uma linguagem criada, artificial, e não deveria ser! Dizer: “não gosto de história” é renegar a humanidade. Por que o aluno não gosta? Porque os gregos não existiram. Existem no livro, na aula que o professor dá, mas não parecem vivos. São mais abstratos do que x2-y.

Eu não colocaria a superioridade também da fonte oral sobre a fonte escrita. Até porque o que existe são as questões que a gente está querendo. E aí eu quero fonte escrita, oral, se baixar o sujeito num centro espírita, também quero. A princípio eu estou aceitando todos os tipos de fonte. Eu vejo isso como o pressuposto da Escola dos Annales, fazer história total. É usar todo tipo de documentação, todo vestígio que o homem deixou. A questão não é que fonte é mais objetiva, é como nós vamos trabalhar essa fonte. E quanto mais subjetivo, complexa ela for, melhor. Desde que a gente não esteja querendo chegar a conclusões do tipo sim e não. Aí tudo bem, aí nenhuma fonte serve porque nenhuma vai dar uma resposta tão clara pra nós.

Uma outra coisa que as tendências mais tradicionais da história tendem a questionar é a utilização de anacronismos. Você vê alguma coisa positiva que pode ser extraída desse tipo de procedimento?

Tem um texto da Nicole Loraux chamado “O elogio do anacronismo”, e ela diz isso: o historiador vive com medo de ser anacrônico o tempo todo. o que é não ser anacrônico? Não sei. No estudo da Atenas antiga, por exemplo, como eu não vou ser anacrônico? Eu vou usar as categorias só da antiguidade? Não! O tempo todo eu estou construindo em termos de diálogo. Eu estou construindo a categoria “classe social”. É uma abstração, mas pode ser vista como um anacronismo também se ninguém à época pensava em termos de classe social. A história é sempre diálogo, comparação. E num certo sentido, sempre anacronismo. Agora, o que não pode haver é uma desconsiderarão total daquelas fontes, projetar da maneira mais fantasiosa naquela sociedade somente as questões da tua sociedade. Eu percebo isso claramente com os movimentos sociais, “ah, o homossexualismo na Grécia antiga”. Não tinha homossexualismo, como modernamente se coloca, na Grécia antiga! O sujeito que está trabalhando numa ONG que defende o direito dos homossexuais, vai pra Grécia antiga dizer que é o paraíso gay. É anacronismo. Agora, ele poderia mostrar essa experiência como sinônimo de “está vendo como as práticas sociais variam ao longo do tempo? Aquilo que nós vemos hediondo hoje já foi considerado uma relação pedagógica, a pedofilia”. O meu “primo” lá na dissertação de mestrado colocou uma frase do Finley que ele gosta muito que diz assim: “O que precisamos mudar é o mundo, e não o passado”. Agora, numa certa medida nós sempre somos anacrônicos. Por que eu não acho, por exemplo, que não possa comparar a Grécia antiga e Acari. Não vejo anacronismo nenhum. São sociedades, seres humanos que estabelecem relações, etc. Eu acho que posso comparar o que quiser. Desde que na comparação você estabeleça as semelhanças e as diferenças. Enfim, essas coisas são muito complicadas. Mas eu acho que partir do presente é uma obviedade. Então, se é que eu tenho que ir pro passado com questões do presente, viva o anacronismo! Por que eu acho que é no presente que estamos vivendo. Agora, tem aquela coisa que historiador faz, está direitinho, o que o outro faz, é anacronismo. Também é uma forma de manter intactas as cidadelas do seu saber.

Além da pesquisa você parece ser bastante dedicado à atividade docente. Como você elabora e prepara seus cursos e aulas?

Cada curso eu preparo de um jeito. Agora, eu acho que a atividade de professor é uma atividade “full time”. Eu estou me divertindo e pensando que tenho uma aula pra dar. Eu planejo os cursos meses antes, mas aula precisa ter pelo menos uns 20% de improviso. Você tem que estar muito bem preparado, mas a preparação é sobretudo pra que você possa improvisar. Às vezes aquela aula não funciona da maneira que você pretende, você tem que ir para outra coisa. Eu planejei todo o curso de história oral do início ao fim, mas replanejei ele também do início ao fim. Eu acho que a preparação das minhas aulas é total. Eu procuro me saturar de uma porção de coisas pra na aula ter um repertório variado, até de piadas. Existem aqueles que acreditam que vão dar aquela aula, os conceitos, que a turma vai prestar atenção. A turma é educada, finge que presta atenção, mas a gente sabe que é ficção. Acho que o professor tem que tentar interessar e usar todos os meios. Então eu fico pensando o que vai ser mais impactante, mas ao mesmo tempo me permita abordar uma questão teórica. Ou seja, eu planejo pra depois poder mudar tudo na hora. poder improvisar de acordo com a resposta.

Você podia falar um pouco do seu método avaliativo?

Eu não li nenhum livro de didática, então não sei te falar nada sobre o assunto. O método avaliativo acho que é completamente subjetivo. Não acredito em métodos objetivos de avaliação. Uma avaliação até tenho capacidade de fazer, mas uma avaliação que tem que se transformar num número, numa hierarquização, não. Não tem nada que seja mais oposto ao conhecimento do que você dar uma nota. Agora, se transforma num ótimo instrumento de controle, pra obrigar os alunos a lerem isso, fazerem aquilo, etc. Que diga-se de passagem, os alunos também já estão bastante viciados nisso aí. Eu já tentei diferentes métodos de avaliação. Tentei auto-avaliação, que não funcionou porque obviamente o pessoal começava a se dar dez, onze, doze. E até entendo os alunos. Porque, hoje em dia, a academia está montada em cima do valor básico desse novo capitalismo que é hipercompetitividade. Tem uma competição enorme hoje em dia até pra fazer uma disciplina, que é toda balizada pelo quantitativo. É óbvio que os alunos não querem ficar pra trás. Aí, era incrível, porque os alunos mais conscientes, que não tinham coragem de se dar uma nota maior, eram os maiores prejudicados. Eu tive um aluno que veio na primeira aula e na última aula. E na última aula, ele se deu nota dez na frente da turma. Porque o único instrumento de controle era a opinião pública. Aí, não funcionou. Foi muito pedagógico, entretanto. Porque os alunos puderam perceber o seguinte: a distinção entre alunos santos e professores canalhas não é verdadeira, porque o professor canalha, já era canalha quando era aluno. Aí, eu tive que criar um sistema de avaliação próprio. Tem o sistema da prova, que é injusto também, porque é num só dia de aula. Tem o sistema de misturar a prova com trabalho. Continua a ser injusto também. O trabalho, às vezes um faz mais que o outro, etc. Aí, eu resolvi fazer um sistema: o alvitômetro. Eu digo o que eu vou levar em consideração (a presença, mas não reprovo por presença, a participação, os trabalhos, e algo mais, que é um sexto sentido), e resolvi abraçar, porque eu acho que a única maneira de denunciar esse sistema é dizer “todas essas avaliações são injustas e subjetivas, mas se é pra ser subjetivo e injusto, deixa que é comigo mesmo”. Qualquer sistema de nota é tão esdrúxulo quanto isso. Eu poderia disfarçar esse absurdo, colocando uma média ponderada, e o trabalho vai ter peso dois, mas isso é apenas uma série de camuflagens da subjetividade do professor. Não tenho recebido grandes reclamações. Fiz uma pesquisa anônima, pra saber se os alunos que receberam essas notas do alvitômetro estavam satisfeitos ou não. Deu mais de 85% de aluno satisfeitos com a nota. E nos 15%, tinha até aluno que achava que tinha tirado mais do que merecia. Porque o aluno vê que tem um critério. Aí, a nota se legitima, porque ele realmente foi avaliado. Eu acho que o grande problema hoje é essa estruturação quantitativa aí do mundo acadêmico, hipercompetitiva. A gente tem alunos do mestrado, temos que avaliar um projeto. Avaliar um projeto é complicado, porque projeto é o que o cara ainda não fez. Então, você vai avaliar uma promessa. Quer algo mais subjetivo do que você vai avaliar uma promessa? Eu posso começar uma pesquisa sem projeto nenhum. Todas as minhas pesquisas começaram sem projeto. Eu sou anti-projeto. Sou anti-burocracia, anti-nota, anti essas coisas todas. Sou a favor do conhecimento. O conhecimento é caótico, complexo, rico, poético, emocional. Tudo isso não entra na CAPES, nem no CNPq. Nenhum dos donos do dinheiro. Porque hoje você tem toda uma estrutura de modo de produção de tese e pesquisa, e os alunos são mão-de-obra nesse processo. Eu sei que o pessoal vai ficar puto comigo por lembrar disso, mas há 20 anos, você, aluno de graduação, tinha direito de fazer uma pesquisa sua, com um orientador de acordo com o tema que tinha escolhido. Hoje em dia, não, qualquer bolsa de iniciação científica está presa ao projeto do professor. Então, esse modo de produção acadêmico é totalmente orquestrado pelas agências de fomento. Elas estão conduzindo a pesquisa. A pós-graduação está querendo fazer uma espécie de cadastramento bienal dos professores, que é o seguinte: o professor que não produzir um livro, não sei quantos artigos por ano, em média, fica descadastrado da pós-graduação. Eu acho absurdo. Coordenador e vice-coordenador estavam de acordo quanto a esse ponto. Por que estavam preocupados com isso? Porque estávamos ficando em 2º lugar em relação à USP. Não é porque o nosso mestrado ou doutorado estivesse caindo de qualidade, mas porque ele parecia estar caindo de qualidade e, portanto, ele ia receber menos recurso da CAPES. Pra que? Pra fazer salinha com ar condicionado? Qual a grande infra-estrutura que o mestrado e o doutorado aqui têm? Fizeram uma sala com poltrona estofada, gastaram todo o dinheiro da CAPES. Não tem aparelhos pra dar aula, porque aula é a última coisa, então, não precisa ter vídeo, data show. Estamos dando aula no século XXI, eu quero usar vídeo, internet, filme, música, eu não posso. Tem que ser tudo na base do cuspe-e-giz. Por quê? Porque a verba é pra isso e aquilo.

Me perguntam: “Por que você não quer ser bolsista do CNPq, da CAPES?”. Eu não gosto de burocracia, de ficar preenchendo papel, de ter uma porção de gente pra mandar, que fiquem dizendo o que pesquisar. Minha liberdade não tem preço, ganho a metade do salário do cara que tem a bolsa de produtividade, mas que é obrigado a requentar um artigo, a pegar um artigo do aluno dele. Tem um número razoável de currículos lattes que foram falsificados, numa maior ou menor escala. Os professores colocaram coisas que não fizeram. Minha fiscalização é em sala de aula, me interessam as aulas. Porque são seres humanos vivos. E porque muitos de vocês vão ser professores, que vão dar aula pra outros seres humanos, que vão dormir, que vão jogar bolinha, vão paquerar na aula de vocês, etc. Enfim, eu vejo que quem eu vou influenciar são os alunos de vocês. Eu nem estou interessado em vocês, estou interessado nos alunos de vocês. Porque eles não escolheram história, são obrigados a ter aula de história. Aí, tem que ter um professor preparado que mostre que aquilo é uma coisa apaixonante. Essa coisa de laboratório, de escrever relatório, tira o tesão, deixa o cara broxa intelectualmente. Broxa. A não ser quem tem tesão no poder, que aí, óbvio, você vai ter, ao invés de uma sala caótica, uma sala que tem - o intelectual é muito miserável - qualquer luxozinho. Se você vai ter 2 ou 3 computadores, um ar-condicionado, “Pronto, tenho um laboratório”. Tem nada. Que instrumentos didáticos você tem? Quais são as possibilidades de trazer um professor do exterior, de mandar alguém pro exterior pra fazer uma pesquisa? Dinheiro, aí sim, aí isso é dinheiro sério. De aparelhar a biblioteca, pra fazer um curso de graduação com quarenta alunos, e ter livro pra esses quarenta alunos. Tem dinheiro pra isso? Não. Mas tem dinheiro pra fazer uma salinha com poltrona estofada e ar-condicionado.

Você poderia falar um pouco da importância da música pra didática na sala de aula?

O Lévi-Strauss tem uma comparação muito interessante entre música e mito. Os dois são linguagens que operam com uma estruturação inconsciente, que te atinge de uma forma muito mais direta. É muito mais difícil eu te emocionar com palavras conscientes. O que acontece com a música é que ela é uma fonte histórica que guarda uma emoção de uma época, como se fosse encapsulada. Mas, existe o preconceito da academia, que com o sério, o carrancudo, você aprende mais. É claro que existem exceções, eu não estou dizendo que o professor precisa ser comediante. Numa aula séria pode-se aprender muito. Mas é muito doloroso.

Eu tenho mais liberdade, porque sou um outsider, não se cobra muito do outsider. Uma colega aqui nossa, que é marxista, que eu respeito muito, me recomendou pra um pessoal que fazia um curso de formação política. Aí, eu fui lá. Duzentos sindicalistas, jornalistas ligados ao movimento social, ex-petistas, pessoal do PSTU, do PSOL, enfim, uma platéia totalmente de esquerda. Eu contei da minha pesquisa lá em Acari, e depois, me perguntaram: “O que você acha da relação da esquerda com o outro?”. Bom, a pergunta já diz tudo, né? Que outro? Não tem outro. Aí, eu obviamente detonei a esquerda, porque se eu estou num público de esquerda, tenho que falar mal da esquerda. Se for um público de direita, tenho que falar mal da direita. Se for um público de antropólogos, tenho que falar mal da antropologia. Se for um público de historiadores, tenho que falar mal da história. Eu não sou um sujeito irritante, não. Não é esse o meu objetivo, mas eu acho que a gente deve discutir nossos problemas. E aí, eu discuti. Falei o que eu achava sobre Cuba. Hoje em dia, Cuba é uma tragédia, uma mentira. Que eu não apóio ditaduras, ditadores sanguinários, nem regimes falidos. Não quer dizer que necessariamente eu apóio o capitalismo por causa disso. Mas que não espere de mim silêncio, porque eu estive em Cuba, conversei com os cubanos. Vi a vida que estão vivendo. A Revolução Cubana enquanto experiência histórica, no seu surgimento, foi um dos mais belos fatos no século XX, não tenho a menor dúvida. E até por isso, em nome da Revolução Cubana, em nome do sonho, eu tenho que ser contra campo de concentração de homossexual, contra fuzilamento, contra até a utilização da força. Um regime que se sustenta com polícia política, tanto faz se é o Salazar, ou se é o Fidel. Portanto, eu vejo a minha posição como outsider. A esquerda vai me pichar, só falta essa, porque a direita sempre me pichou. O pessoal de esquerda pensava que eu era de esquerda, aí eu falei lá pros duzentos: “Eu não sou de esquerda, eu não sou de direita. Eu não sou comunista, socialista, capitalista. Eu sou flamenguista e pandeirista amador”. Aí, tudo bem, todo mundo achou que aquilo era ingênuo.

No curso de história oral, o fado apareceu como um elemento de constituição de uma identidade portuguesa. Você acha que existem semelhanças entre esse processo e o samba, em relação ao brasileiro?

Existem, porque o fado era, o que pode parecer uma contradição em termos, era a música da malandragem portuguesa. Na verdade, o malandro brasileiro, era um pouco o malandro português trazido pra cá. O próprio fado já nasceu num processo de mistura de culturas brasileira e portuguesa. Eu não sei o suficiente da história do fado pra te responder propriamente, mas pelo menos essas duas semelhanças, né? De que era uma música das camadas pobres, uma música ligada a determinados bairros, a figuras, como se dizia no século XIX, os capadócios. Têm algumas músicas de fado que são músicas picantes, de duplo sentido. Também tem essa semelhança com o samba. Mas também tem algumas diferenças, que Portugal à época, era um país, basicamente, de imigração. O fado também cumpria esse papel de fazer você se sentir ainda ligado a Portugal.

O samba é uma música que foi construída pra simbolizar a identidade nacional, num momento que brasileiro não emigrava. Não sei se o samba está exercendo esse papel lá fora hoje. De certa maneira está: os imigrantes brasileiros em Nova York têm um dia que eles fazem um carnaval. Então, existem muitas diferenças de momentos históricos, de como foram utilizados, mas existem também semelhanças.

O funk, hoje, está passando por um processo de saída da periferia, ou do morro, que foi onde ele surgiu primeiro, e está chegando na classe média. Você vê semelhança entre esse processo e o percurso que o samba teve?

Eu vejo semelhança, mas tem uma diferença grande num ponto. No caso do samba, houve todo um projeto. O Hermano Vianna mostra que foi, de um lado, um projeto da intelectualidade da semana de 22 e outros elementos, que passaram a valorizar a mestiçagem, e de outro, um projeto governamental de propaganda política e de criação de uma identidade nacional do Getúlio. Então, a música que você fazia de acordo com os cânones do Estado Novo, tocava na rádio. Esse era o maior estímulo pra eu deixar de produzir um tipo de música e produzir outro. Esse fenômeno do samba, ele tem a ver também com mercado. As rádios precisavam de propaganda pra sobreviver, e essa era maior quanto maior fosse a audiência. A audiência queria alguma coisa agradável, como o samba. Então, se montou toda uma fábrica de produção de samba. No caso do funk, você tem uma diferença, não houve uma orquestração por parte do Estado, muito pelo contrário. O Estado reprimiu o funk. Mas mesmo o Estado tendo essa política repressiva, mesmo os meios de comunicação tendo, o mercado foi um grande instrumento, porque, não me leve a mal, mas vou falar uma coisa que é o lado mais negativo e o mais positivo do capitalismo: tudo se transforma em mercadoria, o que obviamente é absolutamente negativo. Mas, em compensação, até aquilo que eu execro, que acho que é lixo, ou que acho que é música de marginal, se vende, eu engulo, empacoto e coloco na loja pra vender. Se vende, eu coloco na rádio pra tocar. Quer dizer, o funk chegou a outra etapa, em que queira ou não, tem que se lidar com ele como elemento dado da cultura musical brasileira. O funk não vai sair de cena tão cedo. E isso não se deu por conta, da mesma forma que o samba, de uma orquestração entre intelectuais e Estado. Se tem um milhão de pessoas que todo fim de semana dançam funk, ele é importante. Agora, são músicas de épocas diferentes. Qualquer expressão artística existe ligada à expressão de uma época, e o funk é uma boa expressão da época e da situação que é vivida por morador de favela carioca. Porque é a tal coisa, a nossa classe média e a nossa elite nunca tiveram um projeto próprio. E já os pobres, sempre tiveram um projeto próprio: sobreviver. E a classe média não vai construir nada, vai copiar Miami. Ela copia o que ela considera acima dela, cultura norte-americana. E copia a cultura do pobre, que por sua vez, tenta copiar a classe média. Existe essa interpenetração. E a gente tem que recuperar Gilberto Freyre. Na minha época de faculdade, não se lia Gilberto Freyre, porque era de direita. “Casa grande e senzala” é um livro genial, antecipa a história oral, a história das mentalidades, a história cultural. O cara foi lá visitar as senzalas, pra ver a arquitetura, entrevistou os ex-escravos. O que faltava pra você considerar o Gilberto Freyre um historiador genial? Ah, teve o negócio da democracia racial, mas isso foi depois. E o Gilberto Freyre diz uma coisa que eu acho que expressa muito isso: “num país de segregação e racista como o Brasil, o branco, entre aspas, não sabe que a maneira dele falar o português, que é completamente diferente da maneira lusitana de falar o português”, essa maneira cantada de falar o português, ela veio de onde? Dos dialetos africanos. Até a preferência nacional, a palavra “bunda”, vem do quimbundo, falado em Angola. Até a nossa tara fundamental. Por que o brasileiro é tão tarado por bunda, e conseqüentemente, pela prática do sexo anal, do homem com mulher? O Gilberto Freyre vai mostrar muito bem, a relação fundamental na formação da sociedade brasileira, é uma relação sádica, é a relação senhor - escravo. Então, a sociedade brasileira em pleno século XXI, em que homens gostam de praticar sexo anal com as mulheres, surgiu de uma relação sádica. Quer dizer, a relação sádica é o Gilberto Freyre, a interpretação de gostar de bunda e sexo anal é minha. A idéia genial é do Gilberto Freyre, a absurda é minha. Agora, me dá aí outra explicação pro brasileiro gostar de bunda. Tem a ver com a cultura africana. Mas não vou ler Gilberto Freyre, porque é de direita. O sujeito que diz isso, não venha conversar comigo. Não ler é ignorância. No mínimo, se é de direita, vou saber quais são os argumentos dele pra combater.

Há alguns dias, terminou um processo político-eleitoral, que, com uma participação forte dos estudantes, conseguiu eleger uma chapa encabeçada pelos professores Marcelo Badaró e Mário Jorge, pra coordenação do curso de graduação de história. Como é que você avalia esse processo?

Que eu saiba, foi um processo democrático. A chapa que foi mais votada vai gerir a coordenação, que é onde explodem todas as bombas do depto. de história. Todo mundo sai pra fazer pós-doutorado cinco vezes, tem gente que não quer dar aula na graduação, tem professores titulares, como foi dito numa reunião de Comissão Acadêmica por uma professora: “Não, mas fulano é professor titular”. E daí? Professor titular tem diferença de mérito e salarial, mas não tem diferença do ponto de vista da atribuição de funções. Ele tem que dar dois cursos, etc. É titular, mas é dedicação exclusiva. Se ele não quer dar aula na sexta-feira, problema dele. Eu votei na chapa do Marcelo e do Mário, até por ter certeza que essa é uma chapa, e isso que eu espero deles, que fará uma administração democrática. Que compatibilize as possibilidades que os professores têm de oferecer disciplinas, com as necessidades dos alunos, sem estabelecer hierarquias, grupinhos, vantagens. Eu não estou dizendo que a outra chapa não fosse fazer isso, ou que antes isso não estivesse sendo feito. Eu estou dizendo que aposto que esses professores vão fazer assim. E ademais, são professores que não pertencem a um grupo que é hegemônico dentro do departamento, que fez aprovar uma legislação anti-democrática em 2004, que tentou calar a voz estudantil. E o que eu acho mais bacana nessa eleição é que foi um processo iniciado pelos estudantes. Eles que não concordaram com a forma pela qual estava ocorrendo o primeiro processo eleitoral, sem apresentação de propostas. E não houve, porque acharam que a eleição já estava no papo. Mas, eu achei uma revolta digna. Não precisou xingar ninguém, foi à base da articulação política, da mobilização e do voto. Eu acho que foi um fato bastante significativo, que me dá esperanças de que alcançaremos um processo mais equânime e democrático dentro do departamento. Mas, que também não vejo assim como “Ah, vai haver uma transformação”, porque literalmente o que eles pegaram foi o osso. O que esses colegas vão ter que fazer é administrar aquilo que é menos valorizado academicamente, a graduação. E eu acho que também é uma importância que eles vão atribuir à graduação, que eu vejo uma necessidade disso. Mas, efetivamente, vão fazer um trabalho muito difícil. Eles não vão poder transformar a oferta de disciplinas do dia pra noite, porque você tem licença pros professores saírem, tem uma série de afastamentos, e não vão poder revogar isso tudo. Você tem as dificuldades materiais do curso de graduação, que depende de políticas da Universidade, das agências de fomento. Mas é interessante que você tenha, finalmente, pluralidade, e no caso daqueles que estão gerindo a oferta de disciplinas, uma proposta que partiu dos estudantes. Os estudantes, numa greve, chamaram os professores que vieram votar tangidos pelo celular, de boiada. E aí os professores disseram que aquilo era xingamento. Eu, na assembléia, disse que não era xingamento, que era um conceito, e que quando você vê um grupo que age como rebanho, sendo tangido por um líder, ao assovio do celular, você pode chamar esse grupo de boiada, que não é um xingamento. Teve um comportamento de boiada na lista de e-mail, que tudo quanto foi professor que ia votar na chapa 1, disse: "eu vou votar na chapa 1". Falava-se muito de harmonia, de ordem, que é o linguajar conservador de sempre. “Se ganhar a outra chapa, vai ser o caos”. Mas eu acho que, obviamente eu tinha que ser desagradável com vocês, os estudantes são boiada também. Os estudantes aceitam ser tangidos, ser marcados pra ser o orientando de Fulano, o auxiliar da pesquisa do laboratório. E eu vi esse fato que aconteceu como um sinal de esperança, os estudantes não estão querendo mais ser boiada. Então, eu fiquei muito satisfeito quando os estudantes deixaram de ser boiada, tanto a que aceita, quanto a que resolve simplesmente dar coice. Eles se articularam de maneira inteligente, fizeram assembléias, buscaram uma aliança com professores. Aí, como diria o Gabeira, tem um livro “Sinais de vida em Minas”, sinais de vida no planeta, no asteroidizinho ridículo chamado depto. de história. Poderia dizer que isso alegrou o meu coração.

A greve do segundo período de 2005 teve muita repercussão aqui na história, pelo menos, entre os alunos. Se debate muito isso até hoje em assembléia, e, enfim, relações com alguns professores também ficaram complicadas. Como é que você avalia o processo da greve? Dessa greve.

Difícil falar algo, porque hoje em dia, por conta do processo de fabricação da história, a greve passou a ser um estorvo, porque para alguns professores, eu não sei quantificar, mas é um bom número, a sala de aula e a graduação são estorvos. É uma situação meio esquizofrênica, a pós-graduação não faz greve, não muda o calendário. Não adianta, porque não muda o calendário num semestre, mas depois tem que mudar o calendário todo da Universidade. Eu acho ridículo isso. Acho que a pós-graduação que se colocar apolítica, “nós somos cientistas, nós não entramos em greve”. Eu acho que a greve se justificou. Eu acho que havia uma certa esperança em relação ao governo Lula, que foi totalmente frustrada. Mais uma vez o liberal Lorde Acton estava certo: “O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente”. E aí, obviamente o que acontece é que essa greve em termos políticos se justificava, mas, sobretudo em termos da nossa profissão, do salário, das condições de trabalho. E aí, o que você tem é que uma Universidade, em que crescentemente aquele trabalho na graduação, aquele salário básico de professor é um bico, porque o grosso dos vencimentos não vem mais daí, vem dos projetos, da bolsa do CNPq. E aí, a greve se torna impraticável. É claro que aí começam a pulular os discursos, “Não, porque a greve é ineficaz”. Desculpe, mas não acredito nisso. Tanto não é verdade, que todas as conquistas salariais que nós obtivemos foram através de greve. Agora, o que acontece é uma auto-privatização na Universidade. As nossas greves impediram que houvesse um processo de privatização da Universidade. O movimento docente organizado impediu essa história. Tudo que o governo queria fazer, e que não conseguiu fazer, ele usou o método habitual, que eu estou chamando de método da lingüiçinha. Que é botar uma lingüiça pendurada alguns metros à frente, o cachorro vai correndo, você vai movendo a lingüiça, ele vai pra onde você quer. Essa lingüiçinha se chama bolsa, verba, e as pós-graduações e os laboratórios ficam disputando a lingüiçinha. Voltamos ao mesmo ponto, que é o preconceito do historiador. O ethos, o habitus do historiador é um dos mais conservadores do campo científico, porque ele passa pela erudição, pelo que é bem aceito, que tem que ser tradicional, então se fala das comédias de Aristófanes. Sabe como é que eram? O ator entrava com um falo postiço de meio metro. Isso que era a comédia de Aristófanes. Agora, está em grego, e tal. Era uma avacalhação só. Atenas era uma zorra, um lugar que fedia, tinha inseto, era uma confusão tremenda. E daí surgiram algumas das principais idéias da humanidade. Não foi num mundo geométrico, lógico, racional, sério, carrancudo, foi no meio da zona, da bagunça. Foi aí que surgiu criação, democracia, tragédia, comédia, etc. Então, a academia tenta matar a vida, porque ela não dá conta da vida, porque ela não consegue reduzir a conceito, a abstração. Mas a vida nunca será controlada pela academia. Viva a confusão. Esse é o meu lema: onde há ordem, criemos a confusão, e da confusão, a gente vê que bicho dá.

Entrevista por: Flávio Amieiro (4º p.), Marco Marques (4º p.) e Rael Fiszon (7º p.).

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