“Encontramo-nos, portanto, diante de um impasse. Todo conhecimento histórico é condicionado pelo ponto de vista e, por isso, relativo. Mas a partir dessa constatação, a história se deixa apropriar de maneira crítica, por meio de um ato de compreensão, o que conduz à formulação de declarações verdadeiras sobre ela. Formulando de modo mais agudo: parcialidade e objetividade excluem-se mutuamente, mas remetem uma a outra ao longo do desenvolvimento da tarefa histórica.”
pág 163
Nascido em 1923, Reinhart Koselleck tem publicado no Brasil obra de brilhantismo inquestionável, traduzida pelo título de "Crítica e Crise". Tendo falecido neste ano, em fevereiro, com 82 anos; nos herdou ainda "um monumental" (pelo menos é o que dizem os afortunados que tiveram a oportunidade de lê-lo) dicionário histórico dos conceitos político-sociais fundamentais de nove volumes, do qual foi co-autor. Confessamos desconhecer o conteúdo preciso da obra, ainda não traduzida para o português, restringida a lingua natal de Koselleck, historiador nascido em Gorlitz, na Alemanha; professor nas universidades de Heidelberg, Bielefeld e Bochum.
“Chegamos ao fim. Devemos nos precaver de condenar sumariamente a moderna expressão “fazer história”. Os homens são responsáveis pelas histórias em que estão envolvidos, não importando se têm ou não têm culpa nas conseqüências de suas ações. É a incomensurabilidade entre a intenção e o resultado que os homens têm que assumir, e isto confere um sentido enigmaticamente verdadeiro à expressão 'fazer história'.”
pág. 245
O lançamento somente em 2006 da obra de Reinhart Koselleck, editada primeiramente em alemão e na data de 1979, traz de novo somente a lembrança que o mercado editorial brasileiro é deveras incompetente, atrasado e relaxado com ótimas produções que esperam demais para chegar à colônia. Porquanto todo o resto já era de se esperar. Conhecendo "Crítica e Crise", aguardamos não menos que uma ótima análise historiográfica, inteligente e pouco descolada de filosofia profunda, que contraria apressadas conclusões quanto ao sucesso dos tradutores. De fato, Koselleck esbanja erudição e rebusque, teórica elaborada e disposição para levantar questões que desafiam para leituras atentas; por vezes releituras. Não se iludam se uma obra leve era a esperança.
Seu livro, composto por ensaios publicados ao longo de sua carreira, tenta construir, mediante análise histórica, o momento que os indivíduos introduziram o conceito de progresso, e de que forma a divisão entre passado, presente e futuro foi sendo conduzida pelos homens no tempo. O que seria o passado, presente e futuro, ao contrário do que ainda podemos imaginar, não é uma revelação; faz parte de um processo histórico, portanto, construído por seres humanos, e como não haveria deixar de ser, numa lógica dialética. Os meios de provar sua tese é que são interessantes.
O encadeamento dos ensaios, numa seqüência que torna cognoscível a viagem que Koselleck nos convida a fazer, passa por diferentes análises, dentre as quais são evocadas a história sob uma perspectiva magistra vitae (mestra da vida), e a conseqüente impossibilidade de um progresso. Afinal, aprender do passado os ensinamentos para, no presente, moldar a realidade na construção de um futuro provável, definitivamente não compõe um quadro de alterações, na verdade, reformar ou ajeitar o futuro são palavras muito mais adequadas que revolução propriamente dita (no sentido de mudança das estruturas históricas); termo este que Koselleck trabalhará minuciosamente em outros momentos. O conhecimento histórico projetado na construção do futuro desejado, certamente passa por um plano alocado no tempo presente, portanto utilizador de instrumentais disponíveis à época. Inexiste, portanto, novidade nesse projeto de futuro. Os ajustes são para que tudo permaneça como está.
Somente com a existência do imprevisível o futuro deixa de ser previsível. E num debate acerca do binômio “fatos narrados” e “estruturas descritas”, Koselleck entra em questões de perspectiva, no trabalho do historiador, na validade de fontes narradas, na diferenciação entre estrutura e fatos. Percepção esta que certamente mudou o que se entendia por história. De todo modo, sentimos falta do aprofundamento “braudeliano” que conseguiu em sua tese alcançar um tempo longo (das estruturas), um tempo curto (dos eventos e fatos), mas também um tempo médio (das conjunturas), que dá cabo de algumas periodizações históricas que extrapolam o evento e o estrutural.O método utilizado pelo autor, marca de sua carreira como historiador, e objeto de mais um de seus ensaios, é a história dos conceitos. Através desta, Reinhart Koselleck estuda e compara os conceitos no tempo histórico, fazendo do estudo semântico um instrumental profícuo ao analisar a construção de novo conceitos. Quando são criados, a mudança de seu sentido com o tempo, assim como a percep-ção do valor imbuído na substituição de um conceito por outro, são características desta metodologia, que fora utilizada no estudo do termo revolução e suas diferentes conceituações no tempo. A maneira que os indivíduos viram a História também passou pela metodologia defendida pelo autor (apesar de uma história das idéias estar na mesma esteira). Antes encarada como a narração de fragmentos do passado, com o passar do tempo, assume um diferente significado, não mais composto por diferentes histórias, mas sim um coletivo singular que, inevitavelmente, engloba o passado vivido pelo homem como um todo. Uma história “por si”.
Em outro artigo, nos brinda com a historicização do debate da perspectiva do historiador na construção do conhecimento histórico. Aqui, ressalta a problemática do “ponto de vista” inserido na produção historiográfica, as limitações impostas pelo perspectivismo a produção de conheci-mento afinada com o método canonizado pela historiografia, e sua inevitabilidade. Arrisca mergulhos mais profundos, buscando nos sonhos uma espécie de resultante dos medos e terrores presentes na vida dos indivíduos. Aqui, caminha em chão pouco seguro, na medida em que os limites de uma história psicologizante, acredito, podem arriscar a certeza das conclusões. Apesar de ser cuidadoso ao tatear na expressão numérica destes sonhos, e aí utiliza o exemplo do período em que as práticas nazistas tinham vez na Alemanha e os sonhos de perseguidos, parece escorregar na certeza que dá a interpretação dos sonhos. A imaterialidade deste componente (o sonho) gera discricionariedade o suficiente para uma produção historiográfica pouco firme em suas bases, que de certa forma também tateia suas conclusões; à semelhança do que faz com suas fontes.
Ergue-se, no entanto, ao traçar um astuto debate acerca do resultado do conhecimento histórico produzido: a experiência que cria expectativa. Em argumentação primorosa, fala de um espaço de experiência criado pelo conheci-mento histórico e mesmo pela experiência obtida; dela surge um horizonte de expectativa, com a qual projetamos um futuro, nos preparamos para ele ou sobre ele colocamos expectativas. Da tensão entre experiência e expectativa, surge o tempo histórico, pois é exatamente delas é que surge o entrelaçamento entre o que se entende por passado, e o que se vislumbra como futuro.
Desses artigos, pouco pode ser aqui fixado, tão grande é o volume de informações, e tão pouco o espaço destinado. Fica, no entanto, o convite para uma leitura de “Futuro Passado”, que oferece excelentes reflexões e interessantes observações quanto ao debate historiográ-fico, abrangendo método e discussões já no âmbito epistemológico. Da experiência, fica a expectativa que obras de mesmo nível ainda estejam por ser traduzidas. A expec-tativa e a esperança do crescimento de novas edições de qualidade no Brasil, por outro lado, são diminutas, fruto da experiência acumulada de anos de defasagem e descaso com o mercado editorial brasileiro.
Guilherme P. Bresciani C. Linhares - Quarto Período