Em 2004 os alunos de graduação em história foram informados por alguns de seus colegas que estavam em curso as eleições para coordenação do curso e chefia do departamento. Sem nenhum aviso prévio, nenhuma divulgação, nem tampouco qualquer tipo de debate e diálogo com os estudantes, foi instaurado o processo eleitoral “democrático” visando à continuidade da mesma política de descaso com a graduação. Uma rápida mobilização dos graduandos conseguiu, naquele ano, impugnar o pleito como repúdio ao modo como este havia sido conduzido.
E eis que em 2006 nos defrontamos com o mesmo cenário sombrio: nenhuma consideração para com aqueles que são de fato os maiores interessados em tal eleição, nós, os estudantes. Uma vez mais, a mobilização levou à impugnação do escrutínio. Muitos podem pensar que agora nos reunimos em bares para celebrar nosso triunfo eleitoral. Enganam-se, no entanto. A verdadeira vitória estudantil só se configurará no momento em que tivermos uma oferta de disciplinas condizente com a demanda e a fama do curso, quando tivermos um número adequado de professores, quando for construída uma relação mais sadia e democrática entre docentes e discentes, enfim, quando o currículo estiver de fato sendo implementado.
Para que possamos percorrer o restante do longo trajeto rumo ao curso de nossos sonhos, devemos começar voltando nossos olhos para o momento presente a fim de perceber o que se passa. Nesse sentido, a dupla anulação (inclusive para uma instância que não havia sido deliberada em assembléia estudantil, a chefia departamental) sinaliza um claro descontentamento do coletivo dos estudantes com o modo como o departamento de modo geral tem se comportado em relação a esse coletivo. A não-campanha desse primeiro turno foi uma sintomática representação do afastamento cada vez maior entre professores e estudantes (vale lembrar que muitos estudantes sequer conheciam os professores candidatos). Assim, para além de uma reação imediata ao modo como foi conduzido o processo eleitoral (especialmente no que diz respeito à falta de diálogo), a campanha pela anulação reflete, também, uma reação a este afastamento crescente.
Muitos professores, no entanto, ao invés de interpretarem a anulação das eleições como o apelo ao diálogo que de fato foi, preferirem nela enxergar uma manifestação infantil de birra estudantil.
Mas será que estes estão certos? Será que não passamos de crianças levadas fazendo manha e batendo o pé, e que como tais, o que merecemos são umas boas chineladas? Não, não se trata aqui de nenhum tipo de síndrome rara que inflige a uma boa parte dos estudantes uma regressão mental coletiva, levando todos a se portarem como crianças imaturas cheias de “vontades”. Somos, isso sim, sujeitos autônomos, com pensamentos próprios, e também com angústias particulares (já que somos os maiores afetados) sobre o nosso departamento e a situação cada vez mais calamitosa de nosso curso. Nós também temos idéias para melhorá-lo, nós também temos propostas e projetos. E exigimos ser ouvidos, ser tratados com respeito e participar de qualquer processo que decida nada mais, nada menos, que o NOSSO futuro, a NOSSA formação acadêmica.
Reivindicamos de forma geral à comunidade dos professores do departamento, antes de tudo, o reconhecimento da capital importância dos estudantes, não somente como componentes do curso de graduação, mas como a parte que fundamenta e justifica a própria existência da instituição como um todo. Isto posto, entendemos que os professores, detentores como são de múltiplos dispositivos institucionais, deveriam não apenas mostrar-se solícitos ao necessário diálogo, mas também dispostos a iniciá-lo e fomentá-lo.
Em termos específicos, nossas reivindicações aos que se propõem a gerenciar o curso e o departamento são diversas. Queremos que seja garantida uma oferta de disciplinas minimamente condizente com a proposta de nosso currículo (evitando a espúria ocorrência da última pré-inscrição, quando uma disciplina beirou a centena de postulantes), permitindo aos alunos que se formem nos eixos (temáticos e cronológicos) por eles escolhidos. Pedimos, também, um mínimo de pressão para que os professores cumpram o número de aulas exigido e apresentem (inclusive via internet) com antecedência os programas dos cursos que pretendem oferecer, especialmente os de ementa aberta, como os seminários temáticos. Em relação aos seminários questionamos também o seu caráter muitas vezes micro-temático, baseado em um tema específico de alguma pesquisa realizada pelo professor. Neste sentido, exigimos inclusive que sejam oferecidas mais matérias regulares, em lugar da atual enxurrada de seminários, que gera problemas devido à repetição de códigos de disciplinas por vezes extremamente díspares.
Defendemos a realização de pesquisas quantitativas com os estudantes a fim de determinar os eixos e disciplinas instrumentais com maior demanda, além da publicização do planejamento bienal das disciplinas a serem oferecidas. Advogamos um rodízio de professores nas disciplinas do ciclo básico já acertada em dois momentos: no seminário de currículo e na plenária departamental de 05/10/2005 -, que evitaria dois problemas: o empoeiramento de alguns docentes em certas cadeiras, além do virtual desconhecimento de muitos professores por parte do corpo discente. Além deste, reivindicamos também um rodízio de professores pelos dias da semana.
Cabe ressaltar que temos perfeita noção de que a implementação de muitas das reivindicações acima mencionadas necessita de algo mais do que mera vontade política e, em função disso, exigimos que a Comissão Acadêmica reassuma suas funções (exigência esta que é também um compromisso do coletivo de estudantes), através de reuniões quinzenais, e que a mesma constitua um ponto de pauta em todas as reuniões departamentais. A fim de que os outrora tão comuns “esquecimentos” na divulgação das reuniões seja evitado, propomos o estabelecimento de um número mínimo de cartazes (indicando, inclusive a pauta) que deve ser afixado com, pelo menos, uma semana de antecedência, para que os estudantes possam deliberar a posição de seus representantes. E já que falamos em representação, propomos que a nossa seja elevada para 1/5, com um suplente para cada titular. Exigimos também a paridade real, além dos direitos de autonomia frente a escolha de nossa representação e o direito a voz para todos os estudantes que desejarem participar das reuniões departamentais.
O atual quadro de professores, bastante reduzido em relação ao do momento no qual o currículo foi elaborado, nos leva a demandar, também, um maior planejamento das concentrações de disciplinas e saídas de professores, bem como uma avaliação das dispensas relativas ao número de orientandos e, obviamente, a saída de certos professores de seus feudos na pós-graduação.
Por fim, conclamamos nossos próximos coordenadores a organizar um seminário de gestão no último semestre do mandato, com o fito de garantir o caráter processual e não-estacionário da gestão do currículo e da relação estudantes-professores. Em caráter emergencial, exigimos, a organização de um amplo debate envolvendo estudantes (com dispensa de aula garantida), professores e técnicos-administrativos a fim de apararmos as arestas existentes e reiniciarmos um diálogo que, caso bem conduzido, só terá ganhos a oferecer para todas as partes envolvidas. Essas duas propostas visam à construção de um diálogo mais consistente entre as partes que compões o nosso GHT, além de buscar responder às questões que nos parecem ser mais importantes para todos: O currículo é bom em tese mas impraticável? Ou será o nosso problema o mesmo de toda a educação pública brasileira? Ou pior, será que ambas as questões se combinam? Estas questões nos parecem ser importantes pontos de reflexão que reverberam diretamente no nosso quadro de horários e em nossas salas de aula.
Certamente, nós, estudantes, temos também uma parcela de culpa na falta de diálogo que motiva as críticas e propostas nesta carta explicitadas, uma vez que o mesmo pressupõe a ligação entre duas pontas. Estamos, porém, dispostos a correr atrás do prejuízo e apresentamos desde já alguns temas que deverão ser prioridade para uma futura chapa candidata a coordenação do curso, caso queira ter os estudantes a seu lado. Reafirmamos nossa postura de repúdio à falta de diálogo, assumimos nossa posição de anular novamente o processo eleitoral, caso se desenrole da mesma maneira e reafirmamos nossa disposição de trabalhar conjuntamente e colaborar na sustentação política de qualquer chapa que se comprometa com nossas reivindicações.