As eleições e o liberalismo – uma análise de conjuntura

Os cenários foram todos bastante parecidos. Uma mesa, alguns senhores em torno dela, eventuais senhoras, eventuais alfabetizados; alguma estética precária a justificar a simplicidade da mesa, das cores, dos gráficos – tentativas de transformar a obscuridade e a falta de apelo em minimalismo e sobriedade. Gritos aqui e ali, com variações razoáveis nas diferentes mesas; mortes anunciadas, ressurreições comentadas com espanto; atores mesmos do drama que ali apresentava seu último ato fingindo bastante pateticamente que conseguem se comportar como meros espectadores, quer com a afetação dos camarotes quer com a fúria das galerias. Sob o pretexto da análise imparcial os atores foram chamados a chorar as perdas, celebrar as vitórias e tripudiar dos adversários – apenas para que fechassem o espetáculo da forma mais canhestra possível, com a negação de derrotas óbvias e a construção de vitórias só apoiadas nesses entes sempre tão respeitáveis quanto farsescos, os então aviltadíssimos números, servos de todos os senhores. No dia 29 de outubro de 2006, mais uma eleição terminava no Brasil – a depender meramente dos seus personagens principais, mais uma eleição sem vitoriosos ou derrotados; a depender dos organizadores das mesas de debates pós-eleitorais, vitoriosos e derrotados por todos os lados. Os primeiros em busca da nossa tão tradicional conciliação – a conciliação que facilita a corrupção, a conciliação que fragiliza o que resta das ideologias, a conciliação que transforma interesses específicos em nacionais -, os últimos em busca da análise diferente, do dado ignorado pela mesa concorrente, da declaração bombástica que decretará a morte dessa ou daquela elite ancestral – desde que essa elite goze de desprestígio suficiente para que a declaração não reverta como verdade para o seu próprio autor, de forma figurada ou literal. Como elemento comum, o desejo de não gerar a controvérsia: identificar claramente quais seriam as forças progressistas, não atacá-las e, se possível, acenar com uma conciliação futura a redimir picuinhas menores do presente; não ficar mal com os que saem, com os que entram e menos ainda com os que continuam; postar-se da forma mais olímpica possível, travestindo de ciência desejos e juízos de valor. Com isso, ignora-se o óbvio: ignora-se quem de fato venceu e quem de fato perdeu em prol das análises menos ideológicas, menos desfavoráveis a futuros alinhamentos, menos perigosas possíveis. Felizmente não sou jornalista nem político, ao menos não no sentido que me impeliria ao comportamento chapa-branca descrito; e é por isso – e pela esperança pouca que tenho ainda no país, em vocês, em mim mesmo – que me sinto obrigado a dizer o óbvio infelizmente nada ululante: o grande derrotado dessas eleições foi o liberalismo. Você, eleitor de Lula ou não, pode concordar com a sombria fala do Ministro Luiz Dulci: “Foi a vitória de todos que acalentam o sonho do socialismo”. Você, leitor de Hayek ou não, pode ter a certeza de que O Caminho da Servidão continua sendo pavimentado com tijolos de ouro na terra de Macunaíma.

Por partes, do nacional para o local. A eleição presidencial foi o centro de nossas atenções por motivos maiores que o óbvio, a preponderância natural do Poder Executivo diante de Poderes rivais preferencialmente mensuráveis por padrões os mais estritamente mercadológicos que pela ideologia e valores de seus membros; nos interessou especialmente também por ser o momento por definição no qual os eleitores rejeitariam ou não a experiência petista de governo, os 4 anos do presidente operário, do partido da ética, dos trabalhadores; nos interessou por ser bem diferente das eleições presidenciais últimas, nas quais dificilmente alguém, na ocasião ou hoje, em retrospecto, não veria um desejo genuíno – nem por isso correto – de mudança na população, de esperança, mesmo de sonho – e de delírio; pela campanha eleitoral ter trazido à baila a questão dos valores, tão caros a processos políticos de outras nações e tão pouco discutidos em país no qual a moral parece ainda profundamente influenciada pelo privado, pelas circunstâncias do particular, do agente, e tão distante da definição transcendente que lhe deveria ser característica. Por tudo isso eu e tantos outros vimos as eleições presidenciais com apreensão; e foi com apreensão que vi meu candidato viável – no qual votei no segundo turno, mas rejeitei no primeiro – ser derrotado exatamente através de golpes desferidos na filosofia política que inequivocamente defendo, o liberalismo. Pois é: para além de outros fatores – de menor mas inequívoca importância – o que fez Geraldo Alckmin ter no segundo turno um número de votos significativamente menor do que no primeiro foi um repúdio da população brasileira ao liberalismo. Isso não por ser Geraldo liberal, como dirá a vocês a esquerda que tantas vezes já deu mostras de desconhecer profundamente o liberalismo que tanto ataca; não pela população brasileira ter algum conhecimento do que vem a ser liberalismo e mostrar repúdio a filosofia já exaustivamente estudada e ponto por ponto refutada nos lares do nosso Brasil; o que a população fez no segundo turno foi votar não às privatizações – não àquelas já realizadas, das quais a maioria já se esqueceu e nunca compreendeu devidamente; mas sim àquelas ressurgidas na fantasmagoria petista, nos comerciais sinistros, soturnos, com mãos(estrangeiras?) retirando fábricas do mapa do Brasil; àquelas inexistentes no primeiro turno da campanha, inexistentes no programa de Geraldo, surgidas nos programas de televisão após a percepção óbvia e certeira do marqueteiro petista de que o PT é melhor como discurso do que como prática; de que como discurso o PT conseguiu, durante oito anos de Fernando Henrique Cardoso – outro que nada teve ou tem de liberal – satanizar as privatizações em um cenário no qual o discurso contrário se prendia, quando muito, a tecnicismos e outras verdades cruas demais para uma massa apaixonada de funcionários públicos – de fato ou em potencial – como é a brasileira; certeza de que o PSDB nunca se preocupou em produzir discurso contrário, nunca se preocupou em produzir uma militância que fosse capaz de defender as privatizações – em parte pelo caráter elitista do partido, em parte pelo simples e óbvio fato de que o partido aderiu às privatizações de forma conjuntural, não ideológica. Passaram-se anos – incluindo aqui os anos de Lula-lá – e Fernando Henrique insistia em defender as privatizações apenas como necessidades diante da incapacidade do Estado continuar investindo nas empresas vendidas, em tom de explícito lamento; não foi outra coisa que fez Alckmin durante a campanha, quando começaram os ataques, se pôs a negar em absoluto futuras privatizações, vestiu com sua patetice habitual uniformes de estatais, percebeu a rejeição das privatizações diante da população, o sucesso do discurso petista nesse aspecto, e preferiu jogar no campo do adversário – tornando-se então apenas um duvidoso genérico(afinal, seu partido privatizou mesmo) diante de um genuíno estatista; tentou combater Getúlio sem querer tornar-se um Lacerda – e perdeu feio. Fugiu da guerra de valores e ideologias –muito por não tê-los, em parte por covardia –e perdeu feio. Fugiu do liberalismo – e o homem e a doutrina perderam feio.

O espaço reduzido – e precioso – da nossa revista já torna esse texto longo demais, o que me impede de analisar a coisa com a profundidade devida. Passo então a uns dados rápidos sobre as eleições para deputados federal e estadual no estado do Rio de Janeiro, e uma análise tão rápida quanto possível a fim de cumprir minha promessa de ir do nacional ao local. Os dados que nos interessam são os seguintes: é sabido e comentado pelos políticos fluminenses que há dois tipos de votos no nosso Estado – Um, majoritário, é voto ligado ao político local, identificado com determinada região na qual estabelece a sua clientela política, beneficiada diretamente, através de empréstimos, materiais para obras, cadeiras de rodas etc; indiretamente, através de Centros Sociais, substituição da saúde pública, republicana, pela política, personalista; e não raras vezes antiéticas e/ou ilegais, com empregos públicos e relações com todo tipo de atividade criminosa. O outro é o voto ideológico, minoritário, concentrado na região metropolitana, algumas áreas mais ricas do interior – região serrana, por exemplo – e em parte da pequena classe média-alta de regiões mais pobres. O que me interessa aqui é o voto ideológico, exemplo que é da fragilidade do liberalismo também no estado do Rio de Janeiro: o candidato Marcelo Freixo, do PSOL, notório e explícito socialista, foi eleito deputado estadual com quase 115.000 votos na legenda do partido, enquanto o candidato mesmo obteve 13.547 votos; o candidato Chico Alencar, mesmo partido, também autodeclarado socialista, foi eleito deputado federal com 119.069 votos; por outro lado, foram eleitos para o cargo de deputado federal o ex-Secretário de Segurança Marcelo Itagiba e o militar Jair Bolsonaro; para deputado estadual, o apresentador Wagner Montes, o Coronel da PM Jairo e Flávio Bolsonaro, filho do já citado Jair. O que temos aqui? Ignorando possíveis relações mais claras de clientela, de tom mais assistencial – pelo menos possíveis nos casos de Freixo, ligado às comunidades carentes, e dos Bolsonaro, esses últimos explicitamente corporativistas – nós temos dois tipos de votos ideológicos: um voto ideológico em uma esquerda socialista, que pode ser também um voto na “moralidade”, principalmente no caso do Chico; e um voto que se diria em uma “direita”, um voto de força, em pessoas que defendem a polícia e pregam combate duro à criminalidade, sendo vistas comumente como “reacionárias” pelos eleitores ideológicos da esquerda. Ora, o que está faltando aí? O voto ideológico liberal. O único candidato assumidamente liberal dessas eleições legislativas no Rio – e o fato de ser único já dá uma medida do fracasso dessa doutrina – foi o senhor Gilberto Ramos, meu candidato a deputado estadual, membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro. Quantos votos teve o Gilberto? 8.976, ocupando a modesta posição de número 192 para deputado estadual. Ou seja: nós temos votos suficientes para eleger a esquerda socialista e a “direita” corporativista, nacionalista e autoritária; mas não temos votos para eleger o único candidato que se apresenta como liberal em um estado do tamanho do Rio de Janeiro. E isso num país – eles querem convencer você disso, não duvide – “profundamente neoliberal”. Quem dera, amigos. Quem dera.

Felipe Svaluto Paúl - Sexto Período - escreve também para o blog Warfare State

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