A sutura do poeta

tô com uma idiossincrasia hoje
percebo que nem a pirlimpsiquice do coltrane
nem ela burla a lei da testa única

o canto da estrutura metálica
o canto lamurioso da estrutura metálica
da estrutura tocada pelo vento
o canto inútil daquela que se quer vento
o canto remetido ao vento

a fumaça do rabinho do carro sai incolor
tenta se disfarçar pra parecer com o ar

a general eletric mentiu pra mim
a general eletric garfou engano na lâmpada
na lâmpada de luz fria
tava escrito que é luz do dia

a lâmpada, se descobrindo enganada
a lâmpada, coitada, agoniza na tremedeira

a água sai fria, mas esquenta devagarinho
o box se torna algo como útero materno

surpreendo a dose de esquizofrenia que carregamos
a dose variável que carregamos no ventre

o projetor que nos lança na tragédia
a luz que sai do projetor trágico
a fumaça delimita a luz do projetor
a fumaça difusa delimita o foco certeiro

o despertador permanece carcereiro
o despertador é carcereiro do círculo causal

a sutura do poeta em cirurgia
a suturorgia do poeta produz cicatriz brilhosa
produz pele nova que se quer vida
que se quer brilho

que gente é pra brilhar

Fernando Rodrigues - Quinto Período (Letras – UFRJ)

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