A hermenêutica das críticas ao pancadão: acabando com falsos moralismos

“É som de preto De favelado Mas quando toca Ninguém fica parado.”

Recentemente, presenciei em nosso curso uma situação inusitada. Tudo começou com mais uma Assembléia (ou reunião, como quiserem) para decidir a organização da nossa festa. Seria tudo normal, se não fosse pela votação final, extremamente dispensável, na minha opinião: “devemos ou não tocar Funk?” A discussão ficou acesa durante um bom tempo e foi tema de muitas conversinhas de corredor, além de gerar indisposições, durante a realização do evento, entre quem era a favor e quem era contra. Foi a partir daí que comecei a reparar no preconceito e desprezo de algumas pessoas em relação ao ritmo (não só no nosso curso, mas de uma maneira geral).

Deixo claro desde o começo que não vejo motivos para que o Funk sofra essa discriminação. É um ritmo dançante e deve ser encarado como tal, assim como qualquer outro estilo, da mesma maneira que o Forró, o Pop, as músicas eletrônicas, o Samba... Enfim, como todas as músicas que nos despertam o desejo de dançar, o que é um fator positivo. Além disso, é interessante percebê-lo como uma manifestação cultural popular, que, ao contrário do que dizem seus inúmeros críticos, tem muito a nos dizer. É claro que não é isento de problemas, o que é visível em músicas com apologia ao crime, mas isso se deve à pouca atuação do Estado no sentido de legitimá-la e incentivá-la, para que se torne mais um meio de integração social entre as favelas (de onde saiu) e o asfalto - atuação semelhante vem sendo realizada por ONG's e iniciativas privadas, apenas.

O que mais me deixa surpresa em uma discussão acerca do tema é o discurso genérico e vazio de quem o critica, muitas vezes sem conhecer. Ouço de uns que é uma música com temática machista, no que eu discordo completamente, pois o que é retratado é o sexo, de maneira geral, sem pudores ou constrangimentos. Até porque não são apenas homens que escrevem suas letras; muitas cantoras têm seu espaço. Além disso, outros ritmos também tratam da questão sexual, como a própria MPB, o que é explicitado no livro “História Sexual da MPB”, de Rodrigo Faour. E mesmo que a temática fosse, de fato, machista, não vejo ninguém reclamando do machismo de Machado de Assis, Chico Buarque e Vinicius de Moraes, o que evidencia o preconceito em relação ao ritmo. Por que só o Funk é criticado? Por que só levantam essas questões a partir de suas letras? Acho que isso é fruto do elitismo reinante no meio intelectual, que só reconhece como sendo de boa qualidade aquilo que é produzido de acordo com as suas bases.

Outros já me disseram que é um ritmo comercial, alienante e “veiculado pela mídia”. Eu digo que comerciais e veiculados pela mídia são todos aqueles envolvidos no meio artístico, já que é óbvio que precisam disso para se manter no mercado. Do contrário, como poderíamos conhecer novas produções? É importante ressaltar que os artistas não estão nesse meio apenas pelo prazer. Lamento decepcionar os mais utópicos, mas o lucro é extremamente importante para eles (reparem nas exigências feitas para realizarem um show). E para desfazer a idéia de ser alienante, afirmo que o Funk, assim como todos os outros estilos, tem seu lado crítico e questionador, como canta o Mc Bob Rum no trecho “O Funk não é modismo, é uma necessidade. É pra calar os gemidos que existem nessa cidade”. Há ainda, letras que contestam a imagem caricatural, feita pela imprensa, das favelas, o que está presente na música de Mc Marcinho: “Porque aqui no morro também tem jogador, artistas famosos, empresário e doutor. Gente inteligente e mulher bela você também encontra aqui na Favela.”. Por outro lado, possui uma face mais voltada para o mero entretenimento. A prova do seu potencial crítico é a atuação de grandes nomes da música brasileira, como Gilberto Gil e Caetano Veloso, que realizam trabalhos sociais em comunidades, com o intuito de guiar e dar voz a esse movimento.

Gostaria, ainda, de refutar o argumento de quem disse que o Funk não cabe em um ambiente acadêmico. Ora, se é para recriminar comportamentos dentro de nossa Universidade, acho que vamos ter grandes problemas! Muitas coisas estão fora do meio acadêmico e intelectual, mas são vistas com a maior naturalidade pelos pátios. Tenho certeza de que não preciso citá-las aqui, mas garanto que não é o caso de um estilo musical.

Para finalizar, espero, sinceramente, que o Funk passe a ser visto com mais boa vontade. Lembremos, como bons historiadores, que a música de Chiquinha Gonzaga e o Samba também foram considerados ritmos de péssima qualidade, em seu tempo, e que são aclamados, hoje. Faço um apelo para que conheçam um pouco mais sobre o assunto, antes de criticar e fazer sensacionalismo barato (para quem se interessar, recomendo o documentário “Sou feia mas tô na moda”, de Denise Garcia). Ou o discurso será vazio e típico de quem não viu e não gostou.

Juliana Lessa - Terceiro Período

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