A Micro Capital Intelectual

Era uma vez um viajante, que em suas andanças já ouvira mais de dez mil contos. Imbuído de um vasto leque de personagens, cenários e monumentos, dedicou-se a criar sua própria estória enquanto se dirigia a Pax, a Capital Cultural do seu mundo.

Apesar de viajado, o homem não pôde conter sua admiração pela resplandecente aura que a cidade projetava. Logo em seus primeiros passos pode ver o porquê de tanta limpeza: cantando com contagiante alegria, uma dezena de homens catavam o pouco lixo que a cidade produzia, e mesmo este era setorizado.

Boquiaberto, procurou saber mais da vida daqueles que ali viviam. Depois de ouvir os lixeiros, procurou os carteiros, os artesãos, os músicos, os burocratas e, por último, um oleiro. Recolheu tudo o que pôde daqueles homens e jurou para si mesmo que não deixaria uma vírgula que fosse escapar ao seu projeto de estória.

Com alguns dias de estadia, declarou em praças públicas e a plenos pulmões que havia uma História a ser contada, e fez questão de a divulgar desta forma nos cartazes.

Deixou sua estadia no momento marcado; muitas pessoas vieram para escutá-lo. Muitas. Muito mais do que ele vira antes, e até começou a se lamentar por não ter ouvido aquelas outras pessoas que, provavelmente por timidez ou modéstia, não saíam às praças e que não o procuraram para lhe contar seus causos. Mas o show tinha de começar.

Mas ele não sabia por onde começar. O que preparara era muito extenso e cheio de detalhes. E ele odiava perder os detalhes. Começou então pela descrição do local: uma estrada mágica, que possuía lindas flores em suas laterais. Como o contador viu que o conjunto de ouvintes o observava vidrado, pedindo pelas suas expressões que ele continuasse a falar, ele prosseguiu detalhando a flor: pétala por pétala, se alongando sobre cada pedacinho dela, minimizando cada vez mais a sua escala e exponenciando a duração de sua fala.

Os olhos continuavam a lhe pedir mais e mais, não havia qualquer movimentação na cidade; durante a estória, foi como se o tempo parasse.

A retórica tanto se aproximava da hipnose que aqueles que o escutavam não deram a menor atenção ao mensageiro de cartola que chegava da cidade que muitos consideravam gêmea de Pax: em Amor houvera uma rebelião de escravos e este regime fora abolido por conta da revolta, instaurando-se um regime em que se serve e se é servido ao mesmo tempo.

No entanto, a estrutura de Pax não permitia que ela fosse atingida por esses pormenores, ainda mais com a narração de tão melodiosa voz. Todos ficaram e ouviram até a exaustão, quando resolveram aplaudir entusiasticamente àquela performance, e, de tão fracos, acabaram por apenas se aproximar dos já adormecidos bois e cerrar seus olhos, sabendo tudo sobre uma ínfima parte de um pequeno filigrana.

Renato Rodrigues da Silva - Quarto Período

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