O show da História ou Ginzuburg e as hordas bárbaras

Você sai de casa feliz e contente porque vai ter a oportunidade de passar um início de noite agradável com uma atividade bastante interessante e prazerosa. Caminha até seu destino assobiando distraidamente, tecendo comentários consigo mesmo acerca da beleza do mundo. Porém, assim que alcança o lugar almejado, depara-se com uma longa fila já formada. Sem problemas, você pensa, afinal, trata-se de um evento que obviamente contaria com um grande público. E, a bem da verdade, é perfeitamente aceitável que outros, com mais vontade ou disponibilidade de tempo, tenham chegado antes que você, e é totalmente justo que entrem primeiro e ocupem os lugares de suas respectivas preferências. Só lhe resta, então, aguardar pacientemente em seu posto na fila e, sem maiores transtornos, conseguirá entrar em poucos minutos.

O tempo avança e a fila mantém-se imóvel, exceto pelas dezenas de pessoas que, ao encontrar seus amigos bem localizados, não têm a menor cerimônia e nela imiscuem-se. Quanto mais os ponteiros avançam, mais distante da entrada você está, num intrigante movimento de reversão das funções básicas de uma fila. Já levemente irritado com o desrespeito do qual é um dos alvos e com a prolongada espera, você toma uma corajosa decisão: dirige-se à entrada e indaga o responsável por ela em torno do porque de tamanha lentidão em franquear o acesso aos espectadores. Você retorna cabisbaixo para seu lugar após ter recebido uma resposta esdrúxula e reinicia sua monótona observação da corrida entre os ponteiros do relógio.

E eis que, quando você já desistiu de contar o número de pessoas que furaram a fila na sua frente, as portas se abrem e, em rodadas de pequenos grupos, as pessoas são admitidas no desejado recinto. Após ouvir uma recomendação, em tom desesperado, de um dos responsáveis pelo evento para que dê um passo de cada vez (???), você examina suas roupas a fim de descobrir se por acaso encontra-se trajado como um visigodo pronto a investir contra as fileiras do Império Romano. Plenamente convencido não se tratar de um bárbaro raivoso, nem de um membro das turbas inglesas do século XVIII estudadas por George Rudé, você deixa para trás o portal que lhe fora interditado durante as últimas horas.

Finalmente você poderá sentar em um bom lugar, condizente com sua posição na fila, e descansar enquanto aguarda o início do evento. Mas, para sua surpresa, várias cadeiras já se encontram ocupadas por mochilas que te informam, mesmo que você não precise perguntar a elas, que aqueles lugares encontram-se “guardados” para outras pessoas que, obviamente, chegarão depois de você.

De qualquer forma, você consegue se acomodar e, ao sentar, dá-se conta de um fato curioso: as cadeiras tidas como melhores ainda não foram ocupadas. Ora, o que levaria as primeiras pessoas a chegar a não ocupar de forma maciça tais assentos? Um exame superficial é suficiente para você descobrir que está diante de mais um daqueles “curraizinhos VIP”, ou seja, os melhores lugares foram reservados para as pessoas mais “importantes” que, para ocupá-los, não tiveram a necessidade de penar na fila como você. Ainda assim, dos males, o menor, pois você já está devidamente acomodado. Só fica o condoimento por aqueles que não puderam ou não quiseram chegar mais cedo e tiveram que se espremer de pé numa multidão, e por aqueles que nem conseguiram entrar em função da lotação (previsível) do recinto.

Bem, vamos interromper nossa narração nesse ponto, não em função do horário eleitoral gratuito, mas porque certamente você já viveu uma situação parecida com esta ao menos uma vez em sua vida. Ou, então, conhece a história de alguém que já teve esse desprazer. Ou, pelo menos, conhece alguém que conhece alguém que relatou algo parecido. Mas, o que está acima descrito é referente a um evento tão específico quanto recente. Será que você seria capaz de descobrir a que acontecimento nos referimos?

A vocês que marcaram A, B ou C, nossas sinceras desculpas, mas a alternativa D é a correta: trata-se da palestra proferida com grande brilho, é bom que se diga pelo historiador italiano Carlo Ginzburg no auditório do ICHF, na segunda-feira, 18/09/2006. Infelizmente, em função de nossos parcos recursos não poderemos disponibilizar nenhum prêmio para os (muitos?) acertadores. Podemos, no entanto, elaborar alguns breves comentários acerca da situação que provavelmente muitos de vocês, nossos leitores, puderam ver por si próprios.

Se a situação já estava bastante complicada nos maracanãs, casas de shows e cinemas da vida, parece que agora alcançou a universidade de uma vez por todas, e bem em seu núcleo pretensamente mais politizado e engajado, o ICHF de modo geral e, mais particularmente, o curso de história. O espaço privilegiado de produção e aquisição de conhecimento que ocupamos, aquele que, em teoria, deveria refletir sobre a sociedade com o objetivo de trabalhar para transformá-la para melhor, agora reflete a sociedade, exatamente no que ela tem de pior. Desrespeito, hipocrisia, egoísmo, desorganização, descaso, entre outros males que permeiam esse Brasil ficaram claríssimos através de simples atitudes em um pequeno evento de duas horas de duração.

O que dizer, por exemplo, do enorme distanciamento existente entre os professores e alunos que de maneira tão emblemática se manifestou neste episódio? Isso nos leva a refletir de forma mais séria sobre a situação de nosso curso como um todo, e de como ele reproduz graves distinções sociais. Quais os motivos que levaram a tal desrespeito para com aqueles que tiveram que esperar prostrados por mais de uma hora na fila? Os professores, esta casta privilegiada pelo fato de seus nomes serem precedidos de duas letrinhas, possuíam seus lugares cativos nas duas melhores fileiras. Então, não havia motivo para distribuir senhas ou, pelo menos, abrir as portas com alguma antecedência, para que os alunos pudessem se acomodar? Não haveria razão para alocar a palestra num auditório com uma capacidade condizente com o talento e a fama do professor Ginzburg?

Ao comentar um outro problema entre alunos e professores (a última eleição para coordenação do curso), um professor parece ter jogado uma luz sobre a questão: “Muitos professores aqui têm medo dos alunos”. Coincidência ou não, o medo da desordem que poderia se instalar com a entrada dos estudantes foi o argumento da professora Márcia Motta para não abrir as portas quando alguns alunos se manifestaram. Após uma segunda reclamação, a professora pediu mais 15 minutos para que acabassem de montar o datashow. Ora, quem estava na palestra pôde ver que o tal equipamento estava colocado em uma mesa a quase um metro da parede mais afastada da sala, dentro da área do protegido curral (verdadeira apropriação privada do espaço público). É difícil imaginar como a entrada de estudantes poderia prejudicar tal tarefa, a menos que estivéssemos entrando munidos de tacapes, urrando gritos de guerra contra a Micro-História e o professor Ginzburg.

O problema está colocado: porque muitos professores parecem considerar os alunos da graduação como uma turba sanguinária e ameaçadora? Será que nós, reles graduandos, somos realmente assim tão mais ignorantes do que nossos colegas da pós? Será que somos realmente tão distintos de nossos magnânimos mestres com seus tão numerosos títulos? Essa talvez seja uma discussão importante para entendermos porque tantos professores constroem verdadeiros feudos na pós-graduação e detestam dar aulas na graduação (certamente um dos grandes motivos pelo qual cada vez menos disciplinas são oferecidas para a graduação), entre outros tantos problemas de nossa conturbada relação.

Embora desse episódio nos tenha saltado aos olhos de maneira mais pungente a crescente tensão existente entre professores e alunos no curso de história, de forma alguma esse é o único aspecto de nosso cotidiano que o evento, tal qual uma alegoria de nosso departamento e nossa sociedade, trouxe à baila.

Mais clara, e talvez mais indignante, do que tudo, ficou a sensação de que mesmo no posto mais avançado de nossa sociedade que se propõe moderna, do século XXI, potência do futuro, ainda valem mais as redes estruturadas de conhecimento, compadrio e hierarquia (para furar a fila, guardar um lugar ou acessar o curral VIP) tão bem estudadas por Roberto DaMatta, do que o singelo ideal republicano de igualdade de oportunidades.

Enfim, nesses tempos de grande indignação contra tudo e todos, esse desabafo indignado e a percepção de que se as pequenas atitudes não se transformarem, nada se transformará ao menos, para melhor , ficam registrados.

Marco M. Pestana - Quarto Período - e André Basséres - Oitavo Período

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