Sugestão para Atores

 

 

Principiantes

Muitos atores recorrem ao divã

Na primeira leitura, a gente

O lugar do exagero

Imitar ou não imitar

 

 

Principiantes

 

Tente representar duas vezes mais depressa. Grande parte das representações pecam pela seu ritmo lento, tornando-se bastante cansativa, apresse as falas que os resultados irão melhorar, torne mais leve a movimentação e, sobretudo, cuide do encadeamento seguro das réplicas.

Ao ensaiar, leve um cronômetro e anote a duração dos quadros, cenas e atos, depois, no próximo ensaio tente ganhar tempo.

Cuidado com o mal de ambulatório, não fique balançando em cena, não mexa demais com os pés, não se mova sem nenhuma razão.

Não cubra seus colegas, nem se deixe cobrir.

Não olhe tão freqüentemente para a platéia, que o público se dá conta disso, pode estar certo.

Não dirija todas as tiradas ao público, esta não é a melhor forma de se fazer ouvir.

Não pilherie no palco, nem nas coxias.

Não chame a atenção quando seu colega está trabalhando. Não sabe o que fazer? Escute!

Escute o texto como se você o ouvisse pela primeira vez. Você verá que terá muito o que fazer.

Não se deixe absorver por seus erros.

 

Muitos atores recorrem ao divã...

 

Certos papéis, incluem obstáculos e problemas tão variados que podem abranger não só as dificuldades imediatas da representação como também obstáculos que têm sua origem em estorvos meramente pessoais e particulares. O ator que não reconhecer vários obstáculos, passará sua vida e sua carreira sobrecarregado desnecessariamente. Alguns atores podem se sentir desencorajados e eventualmente serem derrotados por eles. Outros ainda, descobrirão quais são seus problemas e tentarão resolvê-los. O ator deve aprender desde cedo que seu talento para representar (e com isto quero dizer sua sensibilidade, inteligência, percepção e até sua atração física) será regido pela sua vida pessoal. Conseqüentemente, seus problemas pessoais afetarão seu talento. Se estes problemas forem muito sérios, é natural que eles possam afetar o curso de sua carreira. Para onde os seus problemas o levarão, depende de cada pessoa.

Muitos atores recorrem ao divã do psicanalista a fim de compreender e justificar seus problemas pessoais. Outros podem não ter a sorte de ter recursos para pagar este luxo e têm que resolver seus problemas sozinhos. No entanto, estes "infelizes", que aprendem a lidar com seus problemas diretamente, no fim podemse sair até melhor, porque um ator que toma conhecimento da psicologia freudiana não se sairá melhor se ele não reconhecer a relação íntima entre sua vida pessoal e seus problemas como ator. A condição mental mais verdadeira torna-se falsa depois de um tempo e o analisando deve evitar isto utilizando o que  aprendeu para si próprio.

O requisito importante para uma análise bem sucedida é a mesma que deve guiar o ator: encarar e trabalhar a realidade. Este requisito recebe sua confirmação da natureza e suas leis. Sem tentar parecer um especialista em psicologia freudiana, que eu não sou, sei que um ator que se apoia nas leis da natureza para treinar e desenvolver sua arte comumente tem um caráter saudável e livre de aberrações. Não vou dar conselhos para solução de problemas como estes são para sala de aula, ou para analista, devido seu feitio. Nenhum livro ou artigo deve tentar resolver problemas como este. O próprio ator deve estar a par de quaisquer fatores psicológicos existentes na sua interpretação e aprender a lidar com eles sem medo.

Este trabalho inclui muitos problemas que surgem durante as primeiras leituras, ensaios, apresentações, problemas encontrados no dia-dia, dificuldades com voz, movimento, etc. 

 

Na primeira leitura, a gente...

 

Consequentemente, quando o ator consegue aquela chance rara de trabalho, que normalmente significa uma "leitura" ,é fácil compreender porque ele fica mais ansioso ainda, já que normalmente ele só pode ler uma vez. Os exercícios sobre relaxamento e concentração podem ser muito úteis durante testes ou primeiras leituras. Neste caso, é muito importante que o relaxamento dê credibilidade às suas emoções e que a concentração de segurança ao texto.

Durante a primeira leitura, o ator deve buscar a verdade simples nas palavras do autor, sem preocupar em "criar" o personagem. Em primeiro lugar, ele normalmente tem um período de tempo mais curto (às vezes só meia hora, às vezes menos), para dar uma lida no seu papel. A verdade simples e às vezes, uma pequena faceta da personalidade do papel é o máximo que se pode obter com uma primeira leitura. 

É raro que o ator consiga fazer bem a primeira leitura sem uma caracterização completa. No entanto, às vezes um ator recebe um papel por ter feito exatamente isto, só que o diretor descobre que o que viu é tudo que o ator é capaz de fazer (normalmente de competência bastante afetada e artificial). Em outras palavras, sua leitura era sua atuação final.

É fundamental que a fala seja natural durante esta primeira leitura. Quando conversamos com uma pessoa na vida real, nunca sabemos o que ela vai dizer. Portanto, não sabemos como, ou o quê, vamos responder. No palco nós sabemos quais serão as palavras da outra pessoa, e as nossas também. Por isto devemos tentar falar com naturalidade. 

Devemos, nestas primeiras leituras, como nas representações ao vivo, assegurar a comunicação com nosso parceiro. Deve-se falar com ele como se fala na vida real. Você deve fazer com que ele o entenda, e com isto, será melhor compreendido.  

Então, se na vida real nosso diálogo não é planejado, não podemos antecipar nossas palavras poruqe muito depende da fala da outra pessoa. Assim é que tem que se no palco. Devemos ter cuidado de não antecipar o que o nosso parceiro vai dizer mesmo que saibamos suas falas. Fazer isto dá um veniz de artificialidade no qual a platéia nunca acredita.

A antecipação não é um problema que só existe na fala. Devemos ter cuidado com ela em todas as fases da representação. Qualquer coisa a ver com o palco, ações e movimentos, deve ser trabalhada conscientemente para que pareça nova e espontânea a cada representação. É muito decepcionante ver um ator reagir ao outro mecanicamente, de um modo que claramente foi ensaiado várias vezes, sem a liberdade que temos na vida de ter comportamentos um pouco diferentes.

 

O lugar do exagero

 

Durante os ensaios o exagero pode ser útil para o ator e diretores e às vezes deve ser incentivado, principalmente pelo diretor. O objetivo do exagero nos ensaios é o de servir como um processo de clarificação da verdade. O diretor, às vezes, pode ter uma perspectiva mais clara dos limites dos atores em relação aos seus papéis. Para o ator, é útil quando unido a processos imaginativos de improvisação.

É muito importante saber que freqüentemente em papéis difícies, uma expressão verdadeira pode ser atingida através do exagero exarcebado. É o diretor que decide: ele poderá sugerir que falem mais alto, façam movimentos floreados e exagerem externamente todas as expressões emocionais. Quando o exagero é levado a este ponto, é natural que várias realidades e relacionamentos do personagem interpretado desapareçam, mas outros resultados úteis poderão ser acrescentados ao produto acabado. Você saberá quanta energia deve usar durante a representação, a dimensão de seus sentimentos, temperamento e imaginação. A força da cena e possivelmente da peça dependerá disto.

É verdade que qualquer coisa é legítima durante os ensaios; no entanto, o diretor não deve cometer o erro de deixar que estes ensaios de representação exagerada passem a fazer parte do ensaio normal. O contraste entre o ensaio normal e o outro, usando o exagero, ajuda a resolver os problemas já existentes. É interresante que atores experientes têm mais tendências a exagerar seus papéis do que principiantes. Eles percebem que a atenção da platéia está frequentemente centrada nos aspectos mais emocionais de um papel e tentarão obter esta atenção exagerando, se não conseguirem criar as verdades interiores do seu papel que, por sua vez, produziriam emoções verdadeiras. 

 

Imitar ou não imitar?

 

O problema seguinte é o da imitação e a ênfase de certos hábitos que, por gerações, foram a ruína de talentos criativos.  A imitação pode ser dividida aproximadamente em três grupos: imitar um indivíduo que é um produto da imaginação do ator; imitar uma pessoa real que o ator decide ser o tipo de personagem que o seu papel exige; imitar as características e maneirismo pessoais de outro ator.  

A imitação é uma antítese da originalidade e da criatividade. Não pode haver imitação no palco e ao mesmo tempo presença da vida, da verdade, da realidade. 

Normalmente, um ator começa sua carreira imitando uma semelhança de um personagem ao invés de tentar viver como uma pessoa real no palco. Isto acontece em virtude de uma falta de compreensão, conhecimento e treinamento da sua parte. O ator que depois dedica-se a imitar seu comportamento de forma contrária à sua expressão própria obtém os piores resultados. No entanto, se ele esboçar estas mesmas imagens e passar a adaptá-las ao que é real na sua própria mente e meio, seu personagem será muito mais vivo e expressará a realidade no palco. Isto trará também originalidade e espírito criativo.

Talvez agora o leitor queira saber porque o ator não pode copiar uma pessoa da vida real e depois personificá-la no palco; por exemplo, alguém que ele conhece há anos e que ele decide ser exatamente o tipo de personagem que o texto pede. A resposta é sim, se ele não tentar primeiro obter o resultado final. O resultado final neste caso seria uma imitação direta de uma pessoa que ele conhece na vida real. Primeiro, ele deve dar-se conta de que ele nunca poderá ser realmente aquela pessoa, mas em vez disto, poderá criar as mesmas qualidades da pessoa que se aplicarão diretamente à sua caracterização. Para fazer isto, o ator tem que usar seu próprio corpo e suas próprias emoções para expressar o personagem, desse modo tornando-o real.

O que acontece quando nós tentamos obter primeiro o resultado final, isto é, uma imitação direta da pessoa real que conhecemos sem criar motivações para o seu comportamento? Não é difícil imaginar os resultados, pois nós os vemos freqüentemente. O personagem será uma caricatura mal desenhada, ao contrário de uma bela peça de arte que poderia ser criada. Sua fala será mimética ao invés de natural, seu modo de andar e movimentos em geral serão exagerados.

Em uma caracterização biográfica de uma pessoa real cujos maneirismos pessoais todo mundo conhece, muito pode depender da maquiagem. Ele deve deixar que o personagem flua através de suas emoções e movimentos, sem tentar obrigar, seus mecanismos a reagir a uma imagem ou um elemento estranho imposto por um clichê. 

O terceiro tipo de imitação que veio até nós através da história do teatro dramático é a cópia ou imitação de outro ator. Este fenômeno singular, quer conscientemente ou inconscientemente, deve ser considerado uma negação total do objetivo do ator na vida. Será que o seu objetivo não vai além de apenas "ganhar na vida"? A arte, a criatividade e a expressão pessoal não entram em questão?   Através de uma associação constante no palco com uma personalidade forte e atraente é possível que algumas qualidades típicas de um ator sejam vistas em outro. Algumas das qualidades podem ser boas, outras ruins. No entanto, o perigo está na semelhança que é freqüentemente visível para o público. Alguns atores adotam inconscientemente o estilo de outro, por causa de uma profunda admiração e desejo de ser como ele. Outros copiam de propósito por razões mais mundanas, como por exemplo, a publicidade e outras trivialidades. Muitas atrizes, na década passada, vestiam-se, posavam e comportavam-se como Marilyn Monroe para promover suas carreiras. 

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