N° 11 - NOV / DEZ DE 2002

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O power pop australiano nas mãos de Michael Carpenter
Por Marina Nantes

A era dourada do power pop na Austrália. Pelo menos foi como ouvi de Michael Carpenter, músico e produtor independente num cenário bem distante do que conhecemos. Sim, o Aussie Rock (como eles carinhosamente chamam o rock 'n' roll lá) ultrapassa fronteiras e garante o sorriso daqueles que descobrem o quanto a viagem vale a pena. Uma cultura musical mais conhecida por "sol, surf e Men at Work" que vêm à mente. Pois fique sabendo que o indie deles se fortifica graças a pequenos tesouros que evitam a atitude superstar "minha-banda-é-melhor-que-a-sua" ou "não-falo-com-quem-não-é-o-máximo-como-eu". Seus nomes: Lazy Susan, You Am I, Chevelles, Icecream Hands, Superscope e o próprio Carpenter, entre muitos outros. Apenas alguns expoentes do power pop local.

Não o que a mídia iria rotular de "salvação" atribuída à figurinhas rockers como um meio para facilitar a entrada nos Top of the Pops da MTV; é realmente sincero. E nada melhor para purificar sua alma.

Dessa forma, Michael Carpenter consegue ir além. A melodia é limpa e contagiante e te remete às maravilhas dessa vida. Talvez, uma descrição para a maioria de suas letras. Então apure os ouvidos...

Desde 1999 lançando grandes discos como o debut, Baby, seguido por Hopefulness e SOOP #1 Songs of other People. Em edição limitada, SOOP #1 apresenta releituras para "This Will Be Our Year" (The Zombies), que o Quasi também regravou, Beach Boys, "Rain" (The Beatles), Bob Dylan e ousa até Bruce Springsteen, Tom Petty e Sam Cooke. Talvez na próxima coletânea você possa votar no site e também pedir pela sua. Bem explicado porque está "sold out".


Michael Carpenter em turnê com Happy
Losers pela Espanha em 2001

Up Close é seu mais recente trabalho, reunindo músicas já gravadas em álbuns anteriores. Pra quem nunca provou néctar talvez Up Close seja um bom começo. Carpenter também participou de um tributo à Paul McCartney com "Getting Closer".

Uma de suas músicas inclusive entrou pra série de TV Fantasy Island, antes exibida pelo canal pago Sony Entertainment Television.

Ele ainda dedica seu tempo à Stagefright Studios, onde ele produz grupos da Austrália, e diversos outros como o finlandês Ben's Diapers e os espanhóis "teenagianos" do Happy Losers, além de gravar seu próprio material. No total, já são mais de 50 clientes satisfeitos, como ele próprio afirma. Fazendo fãs virarem amigos.

Depois de grandes álbuns, Michael então se tornou uma espécie de "queridinho da Not Lame" (sua gravadora nos States). Já que a América é bastante...

Recomendado se você quer ouvir uma sonoridade totalmente sixties, com um ar meio largado-country Gin Blossoms, Wilco, Whiskeytown, Cowboy Junkies.

Tantos excelentes lançamentos australianos que fica difícil escolher por onde começar. Bem, quem sabe escolher ser ouvinte assíduo do bom Carpenter antes de qualquer coisa? Mérito da devoção de Michael, sua música, claro. Fiquem agora com uma entrevista com Michael Carpenter.

Na sua opinião, o novo power pop está conquistando um espaço equivalente em importância como na década de 60?
De maneira alguma... Estamos numa época completamente diferente, onde as chances de expor nossa música é limitada. Nos anos 60, tudo era bem menos segregado porque uma mesma estação de rádio tocava Kinks, The Temptations e Archies, ao passo que agora isso não acontece. Você sabe que conseguir divulgar o power pop é muito difícil hoje em dia, por isso não tem o mesmo impacto como em seus anos de glória.

Qual sua experiência com o power pop? Você, como músico, também cresceu ouvindo suas influências de agora?
Sim, e muito. Minhas primeiras experiências foram com os discos dos Beatles do meu tio. A música sempre foi encorajada em nossa família, embora meus pais não sejam músicos. Mas meus dois irmãos são, então já explica um pouco como a música já é parte de mim.

Acredita que pra geração atual ficou mais fácil conhecer os clássicos do power pop, uma vez que muitas bandas contemporâneas revisitam seus ídolos?
Com certeza ajuda a associar, o novo pop com os Clássicos. Também não vejo problema, mas algumas pessoas argumentam que ser muito derivativo não é bom. Se ouvindo power pop te dá vontade de pesquisar e encontrar discos antigos, só pode ser um bom sinal.
Mas acho importante verdadeiramente "se inspirar" pela música, e não copiar. Tenho consciência de que fiz melodias muito repetidas, mas agora sinto um lado meu tentando buscar algo novo e próprio. É importante também... não apenas descobrir sons maravilhosos nos discos clássicos, mas entender que esses discos foram literalmente criando um molde que foi muito imitado desde então, eles "criaram" a sonoridade. As pessoas deveriam cada vez mais encontrarem sua própria voz, assim como esses artistas fizeram em seu tempo.

Como foi sua experiência no festival International Pop Overthrown esse ano? Algum episódio engraçado na noite que você tocou, na Not Lame night? Já tocou em edições anteriores?
Minhas experiências no IPO este ano foram fantásticas. Toquei em LA e em Chicago, na noite da Not Lame, e ambas as apresentações foram lotadas como uma reação impressionante, muita diversão... Os Shazam fizeram um grande show em Chicago, eu toquei bateria pro Cliff Hillis em LA, Starbelly foi perfeito em Los Angeles. Bom estar de volta, mesmo não tendo tocado na edição de 1999. Também toquei no primeiro em 1998.

Como você conheceu o Bruce Brodeen (dono da Not Lame Recordings)?
Entrei em contato com a Not Lame antes do IPO em 1998, e mandei algumas coisas minhas. Ele ficou interessado mas não a ponto de distribuir. Encontrei Bruce no IPO aquele ano, ele me falou sinceramente de sua opinião sobre meu material. Fui pra casa, muito inspirado por suas palavras e pelo festival, escrevi e gravei mais algumas canções, e trabalhei melhor algumas mais antigas. Quando ele ouviu as versões revisadas, logo me veio com a proposta de ser um artista da Not Lame. Bruce tem sido uma inspiração, um grande amigo.

Destaque algumas das suas recentes descobertas sonoras que se confundiriam fácil com as bandas obrigatórias da prateleira?
Hmmm, meio difícil não? Ironicamente, muitas coisas fora do gênero pop tem me conquistado, embora eu ainda ache pop... A maioria dos discos do Steve Earle dos últimos 7 ou 8 anos são sensacionais, Lucinda Williams, Car Wheels é um disco incrível. Sem mencionar o mais recente de Ron Sexsmith, uma obra-prima. Mais pro lado pop das coisas, se você está falando de clássicos modernos, Split Milk do Jellyfish é um dos meus favoritos. O primeiro do Myracle Brah... Splitville, Pet Soul é tudo o que você precisa num álbum pop.

Que tipo de ouvintes você espera atingir com seus álbuns? Acha que as pessoas que ouvem o rock 'n' roll e pop tocado no rádio hoje em dia entenderiam seu trabalho? Ou você se sente feliz sendo "underground"?
Não acho que alguém esteja feliz sendo underground, e respondendo sua outra pergunta aqui, o mais frustrante de ser underground é que se o maintream tivesse a oportunidade de ouvir nossa música, consigo imaginá-la um tanto popular. Não encontro uma diferença muito grande entre o pop tocado hoje nas rádios e nossa cena power pop franzina, e pra mim isso é simplesmente desanimador.
No momento, estou menos preocupado em "fazer acontecer" e mais envolvido em produzir discos que quero fazer. Os discos que hoje me inspiram não são os mais populares. Mas pra finalmente responder à sua pergunta, sou um cara normal. Tenho sensações como qualquer pessoa, e tento colocá-las em minha música de modo que reflete quem eu sou. Sei que não é um estilo que todos adoram, nem a música para todas as ocasiões, mas escrevo de uma forma que todos podem se identificar, de certa forma.

Alguns afirmam que é um gênero muito derivativo. Talvez seja isso que faz o power pop não ser suficientemente popular em todos os lugares ou tem público restrito. Outros preferem acreditar que sempre se renova. Qual sua perspectiva?
É um gênero incrivelmente derivativo. E tenho sido vítima disso. Mas você também pode ver com duas perspectivas diferentes. Uma é que nós não fazemos nada novo mesmo, ou que nós estamos produzindo canções que remetem aos grandes discos da história. Todo artista passa por esse período, de querer soar como seus álbuns favoritos, mas chega um momento que ele percebe querer ir para um lado mais criativo. O problema hoje em dia é ter oportunidade de não só gravar um álbum, mas vários, para se desenvolver. É onde a renovação acontece.

Pode-se afirmar que o Lost Weekend é um festival com o mesmo espírito do International Pop Overthrown ou é restrito à bandas locais? Acontece todos os anos? Planos para o futuro?
O Lost Weekend é um festival que organizei com alguns amigos aqui na Austrália o ano passado. Foi na verdade uma experiência com objetivos de tentar apresentar para a platéia o power pop australiano como se fosse realmente grande. Fomos bem-sucedidos com shows lotados durante todos os dias, e uma energia incrível. A coletânea que lançamos com os festival é, modestamente, uma das melhores coletâneas. Estávamos planejando um próximo, mas parece que só pra março de 2003, em Sydney, Melbourne a Perth também. Ainda é restrito à nossa própria cena musical, mas nesse estágio das coisas estamos bem "vamos ver como funciona", e quem sabe logo teremos bandas internacional vindo pra cá.

A amizade prevalece e parece estar funcionando. Essa corrente de bandas ajudando outras a ficarem conhecidas impulsiona e muito a distribuição em outros países, não? Grandes talentos como You Am I, Challenger 7, Lazy Susan, Icecream Hands, The Chevelles podem ser ouvidos através da Not Lame agora. Talvez tenha muito a ver...
Bem, somos um país pequeno demais se levarmos em conta a grande montanha desproporcional de boa música, então o único jeito de sermos ouvidos é trabalhando em conjunto. Não sentimos estar numa constante competição, pelo contrário. Se alguém comprando meu disco em algum lugar ajuda a abrir portas para outra banda, então todos nós ficamos felizes em fazer o que for necessário para isso acontecer cada vez mais. Obviamente a Not Lame tem sido grandiosa em proporcionar às pessoas um local pra encontrar bandas diferentes e ouvi-las. Mas também posso dizer que agora temos selos modestos trazendo o pop para o mainstream.

Comente essas bandas/canções:

Beatles: Eles são meu número 1 e a banda mais significativa de todos os tempos. Alguém duvida?
Raspberries - "I Wanna Be With You": Boas canções. Sou fanático por 12 músicas deles, e o resto me deixa meio parado. Gosto dessa, mas a criatividade esteve mesmo em canções como "Overnight Sensation" e "Tonight". Brilhantes!
Zombies - "Maybe After He's Gone": Confesso conhecer Zombies há poucos anos, e infelizmente só tenho Odessey and Oracle. Mas foi suficiente para me fazer chorar, e essa é uma canção que se destaca. Exemplo clássico de uma banda que foi além de limites e inventaram sons e um estilo bem distinto. Uma ligação de estilos nesse álbum, embora tenham usado de elementos diversos para criar a sonoridade Zombies.
Crowded House - "Don't Dream It's Over": Sem dúvida uma canção maravilhosa e única, mas tão tocada por aqui que já não consigo mais ouvir. Tenho que admitir que já passou do tempo. Bem... ótimas harmonias, Hammond Organ enfeitando um solo, excelentes guitarras. Muito do clássico que ela se tornou.
Squeeze - "In Quintessenc": Puxa, não conheço essa, mas estou querendo comprar um Best of do Squeeze há algum tempo. Agora já tenho um bom motivo.
Nick Lowe: Comecei devagar com Nick Lowe, embora sempre tenha sido fã de Rockpile desde criança. Tudo mudou com The Convincer do ano passado. Desde então entendo a profundidade de seu catálogo. Impressionante!
Jellyfish: Uma das bandas mais misteriosas da geração pop moderna. Já falei sobre Split Milk ser um dos meus favoritos pra sempre. Só uma bandas capaz de fazer qualquer coisa, mantendo a criatividade num contexto pop. Eles subiram a um nível inspirador que muitas outras bandas, e infelizmente foram ignorados, o que reflete em parte num cenário musical pobre em dias atuais.

O Brasil e a Austrália tem uma proximidade e familiaridade quando se trata de esportes aquáticos. Aqui, sempre acontecem campeonatos mundiais de surf onde os patrocinadores insistem em sempre trazer Spy vs Spy, Gangajang e Men at Work pra entreter a garotada. Existe alguma possibilidade, de quando eles aceitarem vir pela 13ª vez, vocês power popers se infiltrar e arrumar um espaço no avião? Por favoooorr!
Ha, ha! Adoraríamos, mas ninguém aqui sabe quem somos. Você bem que poderia falar com esses organizadores pra gente!

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Como sempre, obrigado pelo apoio e fiquem atentos pra o novo álbum, Kingsrdworks, a ser lançado em janeiro. Visitem meu website (http://www.mcarp.com/) e ampliem seus horizontes musicais, afinal bons e novos artistas surgem a todo momento!

Músicas de Michael Carpenter e informações, visitem http://www.mcarp.com/

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