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Maria
Eugênia Pereira dos Santos era uma garotinha bonitinha quando conheceu Raul
Varella Seixas, tinha 7 anos e ele 9. O namoro, que durante anos ficou
somente na troca de olhares e bilhetinhos, culminou em 16 de setembro de
1944 quando ambos casaram-se as 17:30 hs na Igreja do Bonfim, em Salvador,
Bahia. Nove meses após a união de Raul Varella e Maria Eugênia, nascia o
primeiro filho do casal: Raul Santos Seixas, em 28 de junho de 1945. Nasci
baiano mesmo, na av. 7 de setembro, número 108, que é a avenida principal
de Salvador. Hoje estão comendo bacalhau no quarto onde nasci.”, brincaria
Raul mais tarde referindo-se ao Restaurante Português que funciona hoje na
casa em que nasceu. Três anos mais tarde nasceria seu único irmão: Plínio
Santos Seixas.
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A vasta biblioteca de seu pai foi seu brinquedo favorito, foi daí que veio o
gosto pela palavra e uma miopia precoce. Vivia trancado no quarto devorando o
Livro dos Porquês do Tesouro da Juventude e inventando histórias fantásticas
que, transformadas em gibis escritos e desenhados pelo próprio Raul, eram
vendidos ao irmão caçula, Plininho. Melô era o personagem central de suas
histórias, um cientista louco que viajava no tempo com figuras históricas,
Deus e o Diabo.
Eu estava muito preocupado com
a filosofia sem o saber (isto é, eu não sabia que era filosofia aquilo que eu
pensava). Tinha mania de pensar que eu era maluco e ninguém queria me dizer.
Gostava de ficar sozinho. Pensando. Horas e horas. Meu mundo interior é, e
sempre foi, muito rico e intenso. Por isso o mundo exterior naquela época não
me interessava muito. Eu criava o meu.
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No ano de 1954 ganha seu primeiro
violão, um presente dos pais, que a principio não lhe deu muita
importância, mas pouco a pouco foi dedilhando e sozinho aprendeu a tocar
algumas músicas, logo se apaixonando pela novidade. A família Seixas então
muda-se para uma casa que ficava próxima ao Consulado Americano. Ali Raul
conheceu os garotos do consulado, que lhe emprestaram alguns discos de
Elvis Presley, Little Richard, Fats Domino, Chuck Berry... Foi o primeiro
contato com o Rock and Roll.
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"Eu
ouvia os discos de Elvis Presley até estragar os sulcos. O rock era como uma
chave que abriria minhas portas que viviam fechadas. Usava camisa vermelha,
golinha virada para cima. As mães não deixavam as filhinhas chegarem perto de
mim porque eu era torto como o James Dean. Olhava de lado, com jeito de
durão. Cada vez que eu cumprimentava uma pessoa dava três giros em torno do
próprio corpo. Eu era o próprio rock.Eu era Elvis quando andava e penteava o
topete. Eu era alvo de risos, gracinha, claro. Eu tinha assumido uma maneira
de vestir, falar e agir que ninguém conhecia. Claro que eu não tinha
consciência da mudança social toda que o rock implicava. Eu achava que os
jovens iam dominar o mundo."
A escola foi ficando de lado, o bom era ficar na loja Cantinho
da Música, curtindo rock and roll ou marcando ponto no Elvis Rock Club,
fã-clube de Elvis Presley fundado por Raulzito e o amigo Waldir Serrão.
Corria o ano de 1962 e a necessidade de fazer rock levou Raul a fundar, ao
lado dos irmãos Délcio e Thildo Gama, o grupo Os Relâmpagos do Rock, chegando
a se apresentar na TV Itapoan, onde foram chamados de cantores de música de
cowboy.
"Eu era um fracasso na escola. A escola não me dizia
nada do que eu queria saber. Tudo o que eu sei, eu devo ao mundo, à rua, à
vivência e, principalmente a mim mesmo. Repeti 5 vezes a 2a. série
do ginásio. Nunca aprendi nada na escola. Minto. Aprendi a odiá-la.”
1964 é um ano importante para Raul. Os Relâmpagos do Rock,
com nova formação, passam a se chamar The Panthers. É ao mesmo tempo o ano da
profissionalização definitiva e da descoberta dos Beatles.
"Foram os
Beatles que me deram a porrada. Foi quando os Beatles chegaram e passaram a
cantar as próprias coisas deles que eu vi, pôxa, esses caras estão dizendo o
que pensam. Então eu posso fazer a mesma coisa. Dizer exatamente o que penso
em minhas músicas. Foi quando eu comecei a compor, juntando tudo no meu
caderninho."
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Ainda
em 1964, The Panthers entra em estúdio para gravar aquela que viria a ser a
primeira gravação oficial: duas músicas para serem lançadas em um compacto
pela Astor (Nanny/Coração Partido) que acabou ficando apenas em acetato,
não sendo lançada comercialmente. Somente em 1992
a música Nanny seria lançada
entre outras raras gravações no álbum O Baú do Raul. Então, o grupo passa a
se chamar Raulzito e Os Panteras, compram aparelhagem nova e melhor, tocam
em boates e nos shows em que muitas vezes, brilhavam astros da Jovem Guarda
paulista e carioca como Roberto Carlos, Wanderléa, Jerry Adriani, Rosemary
e outros. Seus maiores rivais são os grupos de samba e bossa nova,
aquartelados no Teatro Vila Velha. A bossa nova estava arretada em
Salvador. De um lado o Teatro Vila Velha;
do outro o Cinema Roma, que era o templo do rock and roll, organizado por
Waldir Serrão, O Big Ben.
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"A bossa nova significava ser nacionalista, ser
brasileiro, eu me lembro perfeitamente. Gostar de rock era ser reacionário...
entreguista, alienado. E eu era o chefe do rock em Salvador... tanto que eu
entrei para a faculdade de Direito, eu era superpichado, torto pelo pessoal
do diretório e olhado como o idiota do rock, entreguista. Eu não gostava de
bossa nova. Tinha ódio de bossa nova. Eu não me ligava na cultura musical
brasileira."
Em nome do namoro com a americana Edith Wisner, resolve parar
tudo e retomar os estudos e, em pouco tempo, presta vestibular (e passa num
dos primeiros lugares) para a faculdade de Direito.
"Eu queria provar às
pessoas, à minha família, como era fácil isso de estudar, passar em
exames. Como não tinha a mínima
importância. Tão sem importância que, em 1967,
decide ao mesmo tempo casar com Edith e retomar a carreira com Os Panteras.
Atendendo a um pedido de Jerry Adriani, Raul Edith e Os Panteras, partem para
o Rio, realizando assim um velho sonho. Conseguem gravar para a Odeon o LP
Raulzito e Os Panteras, lançado em 1968, mas o disco foi ignorado pela
crítica e pelo público."
Chegamos em fim de safra, não entendíamos nada do
que estava acontecendo. Agnaldo Timóteo de um lado, Gil e Os Mutantes de
outro.Tocávamos coisas complicadas, minhas letras falavam de agnosticismo,
essas coisas e complicamos demais. Não tínhamos idéia do que era comercial em
matéria de música em português."
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Com o fracasso do disco, ficam algum tempo como
banda de apoio de Jerry Adriani, até a dissolução do grupo. Só sobrou eu,
os outros não agüentaram a barra e caíram fora. Desiludido e
psicologicamente abalado, volta para Salvador.
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Fui obrigado a voltar para Salvador, para talvez ser um
bancário. Foi um período muito confuso. Vivia freqüentando sessões de
psicoterapia e trancado no meu quarto, lendo o tempo todo. Lendo, escrevendo.
Foi nesta fase que escrevi minhas melhores coisas."
Em 1970,
conhece Evandro Ribeiro, diretor da CBS, hoje Sony Music. Talvez eu tivesse
trilhado o caminho da paranóia se não tivesse tido a chance que tive. Conheci
o diretor da gravadora CBS lá mesmo na Bahia e foi ele mesmo quem me deu
oportunidade de estar em contato com a arte outra vez. E lá foram Raul e
Edith de volta para o Rio; desta vez para trabalhar como produtor de discos
na CBS. Durante um ano, Raul criaria músicas e discos de sucesso para Jerry
Adriani, Tri Ternura, Renato e Seus Blue Caps, Tony e Frankie, Diana e Sérgio
Sampaio. Novembro de 1970, nasce Simone, a primeira filha.
Sérgio
Sampaio foi o primeiro artista que eu realmente descobri. Acreditei muito
nesse cara. Acreditei tanto que ele me incentivou a ser artista outra vez.
O
incentivo de Sérgio Sampaio levou Raul a produzir e lançar em julho de 1971 o
LP Sociedade da Grã-Ordem Kavernista – apresenta – Sessão das 10,
aproveitando a viagem do presidente da CBS, com Sérgio Sampaio, Miriam
Batucada, Edy Star e o próprio Raul. Isso lhe valeu a expulsão da CBS quando
o presidente voltou. O disco some “misteriosamente” do mercado.
Neste disco cada um
cantava suas músicas em faixas separadas, num trabalho que resumia o caos da
época. Valeu a pena, apesar de ter vendido muito pouco. Nós nos divertimos
muito. Foi também a primeira vez que eu fiz algo para ser consumido e do qual
me senti paranoicamente orgulhoso e feliz. Como os Beatles que prenderam no
estúdio, eu aprendi tudo na CBS, os macetes todos. Aprendi a fazer
música fácil, comercial, intuitiva e bonitinha, que leva direitinho o que a
gente quer dizer.
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Em setembro de 1972, no VII Festival Internacional da Canção, à
frente de um público ávido por novidades, Raul, mais uma vez, incentivado
pelo amigo Sérgio Sampaio, resolve se tornar popular. Inscrevendo no
festival Eu sou eu, Nicuri é o Diabo, defendida por Lena Rios e Os Lobos, e
Let me Sing, Let me Sing, uma mistura de rock com baião defendida pelo
próprio Raul, travestido de Elvis. Ambas fora classificadas.
Depois de sair
da CBS, onde ganhava 4 mil cruzeiros por mês, decidi ser Raul Seixas. Então
usei, este é o termo, aquele negócio de brilhantina, do rock, do casaco de
couro, como trampolim, como uma maneira de ser conhecido. Por que eu só
passei a existir depois daquela encenação, daquele teatro que eu fiz.
Combinar rock com baião foi a fórmula certa para chamar a atenção. Mas foi
só o começo.
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A classificação de Let
me Sing, Let me Sing entre as finais, além da excelente repercussão que Raul
provoca no público e na imprensa, garantem a continuidade de sua carreira
como cantor e compositor da Philips. A consagração ainda tardaria alguns
meses, durante os quais Raul atuará ao velho estilo, como produtor (e, no caso,
também como cantor, mas anônimo, sem crédito na capa) de um disco antológico
de clássicos de rock and roll e da Jovem Guarda, Os 24 Maiores Sucessos da
Era do Rock (selo Polyfar, 1973). Mais tarde, em 1975, esse disco seria
reeditado com algumas alterações, o nome de Raul na capa e um novo título: 20
Anos de Rock, aproveitando a notoriedade de Raul. Mas o “bum” só viria mesmo
com a explosão do compacto Ouro de Tolo, que inclusive teve que ser prensado
duas vezes em uma semana. Uma letra autobiográfica e ao mesmo tempo uma
bofetada na face da classe média, que trocava a verdadeira realização pelo
acesso às bugigangas comuns de consumo, naqueles tempos de Milagre Brasileiro.
Contratado pela
Philips (selo onde brilhavam os medalhões da MPB como Caetano, Gil Gal...)
parte então para o primeiro álbum solo, Krig-há, Bandolo! (o grito de guerra
de Tarzan), que quer dizer: cuidado, ai vem o inimigo, lançado em 1973 e tido
pela crítica como seu melhor trabalho. Em algumas músicas de Krig-há,
Bandolo!, Raul divide parceria com Paulo
Coelho, que escrevia para a imprensa alternativa artigos para a revista A
Pomba e Rolling Stones. Paulo escreveu um artigo sobre discos-voadores na
revista 2001, da qual era o editor e fundador, que chamou a atenção de Raul,
daí surgindo um relacionamento marcado por choques de personalidade, mas que
daria muitos frutos artísticos (Gita, Há 10 Mil Anos Atrás, Rock do Diabo, Al
Capone, As Profecias...) até 1978.
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O LP Krig-há, Bandolo!
foi feito todo de uma vez. A música Ouro de Tolo foi lançada antes por
causa de uma jogada comercial da Philips, que remexeu na ópera, que é o LP,
e dela retirou a parte que achava mais interessante. Então, para mim, o
valor e o gosto ficam por conta de todo o LP, porque ele é o todo de um
trabalho, onde todas as músicas se interligam e de onde é quase impossível
você só tirar e citar uma parte.
Em agosto, Raul e Paulo Coelho lançam a Sociedade
Alternativa e dedicam-se com afinco aos estudos esotéricos, mergulhando
fundo na obra do mago inglês Aleister
Crowley. Raul anunciava que era hora de mudar o mundo e distribuía nos
shows um gibi/manifesto chamado A Fundação de Krig-há, ilustrado por
Adalgisa Rios (esposa de Paulo, na época). A Sociedade Alternativa com sede
alugada, papel timbrado e relatórios mensais, chega a anunciar a aquisição
de um terreno em
Minas Gerais, para a construção da
Cidade das Estrelas, comunidade onde a lei única era Faze o que tu queres,
há de ser tudo da lei. A idéia da Sociedade Alternativa não agradou a
muitos e Raul foi preso e torturado pelo DOPS, tendo que deixar o país.
Então Raul, Paulo, Edith e Adalgisa partem para os Estados Unidos. Ficam
algum tempo em terras americanas fazendo contato com algumas
personalidades. Enquanto isso aqui no Brasil, a música Gita toca de
norte a sul do país e é graças ao tamanho sucesso de Gita que Raul e cia.
voltam para o Brasil. O casamento de Raul com Edith vai chegando ao fim e
ela (Edith) volta aos Estados Unidos, levando consigo a filha do casal,
Simone.
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O
sucesso de Gita deu a Raul seu primeiro Disco de Ouro, pela venda de 600
mil cópias. O mesmo não ocorreu com seu disco seguinte: Novo Aeon (1975,
Philips), que vendeu apenas 60 mil cópias. Foi a maior decepção, mas dei a
volta por cima com Há 10 Mil Anos Atrás. Raul conhece, então, outra
americana, Glória Vaquer (Spacey Glow), irmã de seu guitarrista Gay
Vaquer. Acaba casando-se com Glória e, desta união, nasce a segunda
filha de Raul, Scarlet, em junho de 1976, no Rio, no mesmo ano em que é
lançado o álbum Há 10 Mil Anos Atrás, no qual Raul aparece maquiado na
capa, como se fosse um sábio ancião. Chega ao fim a parceria com Paulo
Coelho, embora continuem amigos (ou inimigos íntimos). Sai da Philips para
outra gravadora, a recém fundada WEA. O rosto sem barba nem bigode, suas
marcas registradas, um novo parceiro e antigo vizinho dos tempos do Rio,
Cláudio Roberto, professor de ginástica, poeta e cantor nas horas vagas.
Juntos fazem o LP O Dia em que a Terra Parou, em 1977.
A crítica não gostou por não
ter o mesmo “nível” dos trabalhos anteriores. Mas os fãs se deliciam com
Maluco Beleza, Sapato 36 e a faixa título. Faz alguns shows, mas sem muito
sucesso, devido às críticas do LP. Separa-se de Glória, que volta aos
Estados Unidos com a filha Scarlet. As mudanças em sua vida pessoal e
profissional parecem tê-lo abalado e a isso se juntam problemas de saúde.
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Com a saúde abalada resolve
passar alguns meses na fazenda dos pais em Dias D’Avilla,
interior da Bahia, para recuperar-se da pancreatite que sofre e que é
agravada pelo consumo de bebidas alcoólicas. Volta mais gordo, com uma nova
companheira, Tânia Menna Barreto, com quem divide parceria em seu novo álbum:
Mata Virgem (1978, WEA). O disco traz também Paulo Coelho de volta, porém a
má divulgação atrapalhou o LP e a crítica também não ajudou. Em 1979 faz seu
último álbum para a WEA: Por Quem os Sinos Dobram, em parceria com o amigo
Oscar Rasmussen e sai da gravadora levando sua secretária de imprensa, a
carioca Ângela Costa, mais conhecida como Kika Seixas. Raul assina novo
contrato com uma velha conhecida sua, a CBS e, em 1980, lança o LP Abre-te
Sésamo. O disco vende razoavelmente, mas bem menos do que merecia. Raul e
Kika decidem morar em
São Paulo e, com a ajuda de Jair
Rodrigues, conseguem alugar uma casa no bairro do Brooklin, zona sul de São
Paulo, onde nasce a terceira e última filha de Raul, Vivian, em 1981. São
Paulo o recebe de braços abertos e então inicia uma série de shows pela
capital e interior do estado. Faz uma temporada no Teatro Pixinguinha com
sucesso absoluto, em julho de 1981. É também neste ano que Sylvio Passos,
ainda com 18 anos de idade, começa a fazer parte do cotidiano de Raul, após
procura-lo para comunicar que havia fundado o Raul
Rock Club. Raul fica surpreso e participa ativamente daquele que ele
denominaria de Raul Seixas Oficial Fã-Clube. Ainda em 1981, Raul rescinde
contrato com a CBS por pedirem que ele dedicasse seu próximo disco a Lady
Diana, pois era o assunto do momento.
Sem gravadora, mas com um público enorme e fiel, apresenta-se
para mais de 150 mil pessoas em 13 de fevereiro de 1982 no Festival Música na
Praia, em Santos, São Paulo. Mas Raul andava insatisfeito e mergulhava cada
vez mais na bebida, o que leva ao cancelamento de shows e crises de hepatite.
Em maio de 1982, apresentou-se tão alcoolizado em Caieiras, interior de São
Paulo, que acabou sendo tomado por impostor de si mesmo, sendo preso e
torturado pelo obtuso delegado da cidade.
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Deprimido, sem gravadora, ainda com problemas de saúde, Raul,
juntamente com Kika, desenvolvem o projeto da ópera-rock Nuit e saem de
porta em
porta. Batem em todas as gravadoras, mas
nada acontece. Chegando ao cúmulo de ouvir de um certo diretor artístico:
“Já estou vacinado contra Raul Seixas.” Magoado, Raul volta para o Rio e
fica lá alguns meses num apartamento em
Copacabana. AtéRaul Seixas. O disco traz
também uma faixa gravada ao vivo durante um show realizado no Sociedade
Esportiva Palmeiras, onde Raul contou, através de músicas, a história do
rock and roll para mais de 10 mil pessoas. que João Lara Mesquita, jovem
diretor do Estúdio Eldorado e fã incondicional de Raul, resolve realizar um
velho sonho e convida seu ídolo para gravar. Raul, Kika e a filha Vivian
então voltam para São Paulo, põe mãos a obra e, em abril de 1983, lança o
álbum
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"Coloquei o nome do disco apenas de Raul
Seixas porque quase todos os meus trabalhos são feitos dentro de um ponto de
vista filosófico, algo como se fosse uma faixa única, com todas as músicas
concebidas dentro de um certo prisma. Este já é uma coleção de momentos
diversos que não fogem ao meu estilo, mas também não fecham uma concepção
filosófica. Assim, pensei que neste disco não havia nada para guruzar."
Houve ainda, em 1983, o lançamento do livro As
Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor, que é dividido em três
partes: um diário escrito entre os sete e os quatorze anos, no qual se nota
um grande conhecimento de rock and roll; uma série de contos feitos entre os
doze e os vinte e um anos e; uma história em quadrinhos, chamada A Lei dos
Assassinos da Montanha que, segundo Raul, é um bom exemplo de humor negro.
Com o sucesso do disco, do livro e da tour pelo Brasil, Raul e
Kika fazem uma viagem aos estados Unidos para acompanhar de perto o que
estava acontecendo musicalmente por lá. Voltam com a bagagem cheia e inspiradíssimos.
Raul então assina novo contrato com a Som Livre e em junho de 1984 lança um
novo álbum: Metrô Linha 743.
A música é toda preto e branco. Tudo madeira, vozes, só
o baixo e o Juno 60 são eletrônicos. Há anos sonhava fazer um disco assim. O
colorido aprisiona a imaginação. O preto e branco é mais forte e livre porque
dá asas a cada um projetar sua imaginação, de criar o que você sente sem se
prender ao óbvio das cores impostas pelo colorido do mundo.
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O
penúltimo casamento de Raul vai se rompendo. Sua saúde não anda boa. Mais
uma vez ele volta a Salvador, como fizera em 1978, para se recuperar. Depois
de curta permanência em Salvador, retorna a São Paulo com nova companheira,
Lena Coutinho. Em
São Paulo, junto com Lena, procura uma
nova gravadora, mas as portas do mundo artístico parecem estar fechadas
para Raul. Enquanto isso, milhares de fãs e amigos de Raul permanecem na
expectativa de novidades. Em
São Paulo, no ano de 1985, o Raul Rock
Club (o Fã-Clube Oficial) lança o álbum Let me Sing my Rock and Roll, o
primeiro disco produzido e distribuído independentemente por um fã-clube
brasileiro, que hoje é disputado a peso de ouro pelos fãs e colecionadores.
Estamos em 1986, Raul e Lena continuam à procura de uma
gravadora e com a ajuda de amigos assina contrato para 2 álbuns com a
Copacabana. Porém, os problemas com a saúde atrapalham as sessões de
estúdio e o LP, que todos esperavam para esse ano, acaba sendo lançado só
no início de 1987. O disco traz como título o grito de guerra de rock and
roll: Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!
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Eu fiz esse disco para os roqueiros ouvirem, para eles não
deixarem o rock and roll morrer... afirma Raul. O disco é executado de norte a sul do país e,
mais uma vez, Raul seixas é notícia, ocupando lugares de destaque na mídia
brasileira e o melhor, sua música está na boca do povo. Contudo, continua
desaparecido dos palcos e da TV devido aos problemas de saúde causados pelo
abuso de bebidas alcoólicas. A música Cowboy Fora da Lei estoura nas paradas
de sucesso ganhando um vídeo clip no Fantástico e sua inclusão na novela das
7 da Rede Globo. A música revela a quase paranóia de Raul, onde diz: Mamãe
não quero ser prefeito/ pode ser que eu seja eleito/ e alguém pode querer me
assassinar.
A convite do discípulo e amigo Marcelo
Nova, então vocalista e letrista do grupo baiano Camisa de Vênus, Raul
participada gravação do álbum que o grupo preparava para lançar, dividindo
vocais e parceria com Marcelo Nova na música Muita Estrela, Pouca Constelação,
onde referem-se ao cenário pop brasileiro de maneira desdenhosa.
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No ano seguinte (1988), mostrando que ainda está vivo, humana e
artisticamente falando, Raul lança, em setembro, o álbum A Pedra dos
Gênesis, que fala da controvertida Sociedade Alternativa. A música Não
Quero Mais Andar na Contra-Mão mostra que Raul não está mais afim de
maluquices e que seu papo agora é paz e sossego, no aconchego do lar...
sossego que virou tédio e então Marcelo Nova, para tira-lo do tédio,
convida-o para viajar a Salvador, onde iria se apresentar. Raul, que estava
afastado dos palcos há três anos (sua última apresentação ao vivo foi em
dezembro de 1985, em
São Caetano do Sul, São Paulo), aceita o
convite e voa com o amigo para Salvador e ali iniciam juntos uma série de
50 shows pelos quatro cantos do Brasil, aventura que acabou resultando o
disco A Panela do Diabo, lançado dois dias antes do falecimento de Raul.
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Segunda-feira,
21 de agosto de 1989, 9 horas. Dalva Borges da Silva, a empregada de Raul, chega
ao apartamento número 1003 do Edifício Aliança, zona Central de São Paulo,
e encontra Raul morto em sua cama. Dalva imediatamente comunica-se com o
médico e a família de Raul. A notícia se espalha e logo as emissoras de
rádio e TV divulgam o fato. Milhares de fãs, jornalistas e amigos
dirigem-se ao prédio onde Raul Seixas residia. Raulzito havia falecido duas
horas antes da chegada de Dalva ao prédio, de parada cardíaca causada pela
pancreatite que sofria há dez anos. O corpo é levado para o Palácio das
Convenções do Anhembi, zona norte de São Paulo, onde é velado durante toda
a noite e madrugada. Milhares de fãs vindos de todas as ´partes,
jornalistas e alguns amigos permanecem de vigília madrugada a dentro. Às 8
horas da manhã do dia seguinte o corpo seguiu num jatinho para Salvador,
onde foi Sepultado às 17 horas no Cemitério Jardim da Saudade.
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"A gente tem de por nossa impressão no mundo. Tem o dever.
Você tem uma missão pra cumprir aqui, você não está aqui por nada, acho que
todos tem esse direito, o dever de marcar a presença, a passagem. Esses que
tem o embrião. Porque o povo sempre foi povo, sempre foi liderado. Eu estou
cooperando devagarzinho, quero botar minha impressãozinha, quero sair na
História, ser lembrado. Porque tem gente que morre e gente que não morre.
Estou fazendo minha pequena participação aqui, de passagem por este
lugar. "

RAUL SEIXAS
Biografia por Sylvio Passos
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