Poema Alegre 



   Eu quis fazer um poema alegre, 
   mas a tristeza me invade. 

   Talvez deixe para outro dia, 
   ou para mais tarde. 

   Eu quis falar do dia-a-dia, sorrisos. 

   Não queria mais a nostalgia, sinceridade. 

   Eu queria poesia na vida, atrevida. 

   E que a morte não fosse partida, chegada. 

   Eu choro de luz apagada para não ver 
   o meu rosto, desgosto. 

   E canto com a boca fechada, pensamento. 

   Não paro um só momento no tempo, tormento. 

   Em busca de um sentido, universo. 

   Eu traço na folha meus versos, tristonhos. 

   Eu tenho um medo medonho, eu sonho 

   Com um tempo de solidariedade, e verdade 
   Com um tempo de fartura, e ternura 
   Com um tempo de inclusão, e utopia 

   Um poema cidadania... 

   ... Alegria. 
 
 

Sobre foto de Pierre Verger

2002
 

 
 
Uma Vida, Um Esquecimento




   Vagam as tardes 
   Vagam os dias 
   Vagam as vidas vazias. 

   Vão-se os sonhos 
   Vão-se as horas 
   Os últimos raios d'aurora. 

   Vem a idade 
   da realidade 
   Vem a tarde sombria. 

   E vagam as saudades 
   Vagam nos dias 
   Vagam ao acaso 
   os raios do ocaso 
   das noites tardias. 

   E vêm os lamentos 
   Os ressentimentos 
   Varam as madrugadas 
   em salas perdidas 
   de pura utopia. 

   E vagam os senhores 
   Volvem os errantes 
   Vagam os amantes 
   Vagam os rumores 
   de dores de outrora. 

   Mas ao fim da hora 
   Vão-se os resquícios 
   maldizem-se os vícios 
   excomungam-se os males 
   Vão-se os autores 
   Vão-se os amores 
   Que pairam no tempo... 

   E vai-se uma vida... 
   Que vaga perdida 
   Vê-se um tormento 
   que revolve no tempo 
   A vida de um dia 
   a vida vazia 
   em silêncio. 

   Foi-se mais tarde 
   Foi sem alarde 
   Foi-se o vazio 
   Vai-se o vadio 
   Foi-se o tardio 
   que vivia no fio 
   do esquecimento. 
 

2002

 

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