Carlos Pena Filho mostra-se também um dissecador dos zéfiros e das primícias do arco-íris, num gesto poético ainda mais ousado que dá a noção exata do alcance de sua percepção: 
 
“Aquém do sonho e além dos movimentos 
uma nesga de azul perdeu as asas. 
Quem a invadir, invade os próprios ventos 
que varrem mares e entram pelas casas. 

Às vezes, penso: não tem dor nem mágoas 
quem se ofertou a tão alegre ofício, 
mas a mulher que mora atrás do início, 
diz: são meus estes céus, minhas as águas

que dormem neste chão, minhas as cores 
que apascentam teus olhos e que vêm 
de mim e vão das nuvens ou das flores. 

Mas só pode ir além dos movimentos, 
onde, serena, habito há muito, quem 
pela nesga de azul entrar nos ventos.”

Soneto Raspado das Telas de Aloísio Magalhães 
(1999:88) 


O Trovador Atlântico também “pisava” na terra (e como a semeava...). Como uma espécie de Ícaro luso-brasileiro e insatisfeito, do século XX. Talvez Renato Carneiro Campos tenha-lhe decifrado o porquê no seguinte depoimento: 
 

Nos últimos poemas, nos mais brasileiros pelo ritmo e pela temática, revela sua mestiçagem verbal, escreve palavras de sua época. Tudo isso como resultado da luta tremenda que trava todo escritor latino-americano [...], na procura de uma expressão nova e mestiça.” (1999:primeira orelha) 


Este aspecto pode ser visto, inclusive, neste poema: 

 

 
 
"Carolina, a cansada, fez-se espera 
e nunca se entregou ao mar antigo, 
Não por temor ao mar, mas ao perigo 
de com ela incendiar-se a primavera. 

Carolina, a cansada que então era, 
despiu, humildemente, as vestes pretas 
e incendiou navios e corvetas 
já cansada, por fim, de tanta espera. 

E cinza fez-se. E teve o corpo implume 
escandalosamente penetrado 
de imprevistos azuis e claro lume. 

Foi quando se lembrou de ser esquife: 
abandonou seu corpo incendiado 

e adormeceu nas brumas do Recife". Soneto das Metamorfoses – A Edmundo Morais (1999:112)
O Poeta do Azul, Poeta Solar, ou para nós (e muitos nós náuticos) Trovador Atlântico, ou Deus saiba lá o quê (e acho que o saiba), era apaixonado pela ilha metade roubada ao Mar, metade ao Rio, o nosso, dos pernambucanos e de todos, Capibaribe. Daí o seu, o que modestamente lhe oferecemos, epíteto. 

O poeta fez dessa ilha, a ilha Recife, seu porto de pousada e seu túmulo vivo de palavras e da sua alma. Tanto que podemos encontra-lo, vívido e de olhos bem abertos e certamente azuis, se aceitarmos o seu convite para conhecê-la: 

No ponto onde o mar se extingue 
E as areias se levantam 
Cavaram seus alicerces 
Na surda sombra da terra 
E levantaram seus muros 
Do frio sono das pedras. 
Depois armaram seus flancos: 
Trinta bandeiras azuis plantadas no litoral. 
Hoje, serena flutua, metade roubada ao mar, 
Metade à imaginação, 
Pois é do sonho dos homens 
Que uma cidade se inventa.” 
Guia Prático da Cidade do Recife – O Início (1999:129)

 

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