Rita




Pensei em escrever um poema,
mas não consigo.
Pensei em te dar um castigo
às avessas.
Manter-te comigo nas horas
densas.
Em que as folhas balançam
nas árvores.
E os cavalos dançam na relva
Elefantes desconfiados e
baleias agitadas.
O torpor dos chimpanzés malogrado
e vivas todas as feras empalhadas.
Pensei em escrever um poema contigo.
O teu olhar emoldurava um quadro.
Tua voz acalentava crianças.
Os teus braços me ensinavam danças
E eu te ensinava os passos.
Haveria flores no descompasso
Em que tropeçaríamos e 
ao flutuarmos cairíamos.
E eu te teria no chão
(como eu gostava do chão quando menino)
E te imaginaria também menina
E me permitiria um pecado,
meu Deus:
Que fôssemos maduros no sexo
porque por essa minha fraqueza
Te penetraria profundamente
seria assim que te daria as
nuances do quadro dos teus olhos
E nesse chão te abraçaria.
Pensei em escrever um poema
Em que te levantaria no colo
E passearia pela cidade.
Entraríamos na casa de maior
jardim e quintal
(não valem parques artificialmente
produzidos)
E aí teríamos nossos bichos:
grilos, cigarras, gafanhotos, formigas,
louva-a-deus, ziguezigues, lagartas,
borboletas, rãs e lagartixas.
Absolvidos do nosso pecado
de crianças sexuadas, por
um anjo liberal,
Faríamos amor na frente de toda
essa platéia.
E descobriríamos, com nossa
inocência de crianças (sim, ainda
éramos inocentes), alguns deles
copulando.
Eu te queria fazer um poema infantil,
mas não posso.

2003

 

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