Era eu


Não. Não me conheces.
Me viste à mesa,
ouvindo calmamente o 
que meu pai dizia?
Caminhava um pouco para
chegar à escola e não era
eu que ali ia. Ia passar
o tempo que hoje me sei imposto.

Não me conheces não.
Tomaste água-de-coco comigo,
pão-doce com caldo-de-cana,
foste a um jogo do Náutico
e Sport no domingo?

Com sorte não me conheces.
Eu estive dentro de mim mesmo
por um longo tempo.
Uma hibernação que me trouxe
uma solidão profunda.
Depois o modesto exército de sonhos
(sempre os sonhos)
e o real. Um casamento.

Tens contigo um momento.
O momento em que estive
ao teu lado.
Mas era eu? Tens certeza,
Rita?
Minha alma grita teu nome
num sonho de trinta e três
dias. Era eu?
A cidade era imensa e os
metrôs haviam tomado conta
de tudo. Eram a sua razão de 
existir.
Dizias: cuidado à noite.
Eu repondia: por quê, se sou
amigo dos metrôs?
De madrugada sessão solene
no Teatro Municipal, de 
Desafio de Repentistas.
Sonhávamos com os motes e
às onze da manhã os entregávamos
à organização do evento.
Na saída, o saracotear de uma lagarta
no jardim se parecia com
a moda vencedora.

Será que me conheces
E eu não entendo?
De outro modo, o que direi
É que o que sentes
eu mapeei.
Um coração do lado esquerdo
do peito
Bate como a eito
Pela despedida.
No meu uma ferida
Que o toca lerdo
e interruptamente.
Se parar, e haverá o dia,
será você, quem o sentia,
a saber primeiramente. 

 
 2004

 

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