Diálogo
Viram-se e apenas se falaram.
Um ou dois verbos, Alguns
substantivos e até locuções.
Emoções? Sim,
nas interjeições.
Até logo...!
Uma lágrima E um tratado
sobre o seu significado.
Era ele um lunático,
hesitante e pusilânime.
Ela um sonho inacabado:
firme mas em frangalhos.
Acharam que serviam um para
o outro.
Tolice, pensa o
narrador.
O narrador os vê insistindo
na permanência e torce para o
pior desenlace.
O narrador é frio
e, sinceramente, um nada. Pensei em dizer idiota, mas concluí por
um nada. O narrador se contenta com os não-significados da vida.O
niilismo do narrador é pífio se comparado à sua fenomenologia:
"não acredito
na bondade e boa-vontade humanas. Sou um utilitarista, e há casos
em que nem o sexo mantém um homem junto a uma mulher".
Voltemos aos dois e deixemos
o narrador.
Quietos, mantêm a
cabeça ao chão.
E tudo que lhe disse?
Guardo dentro do
meu coração.
Ah... Ainda bem que você
ainda tem com você.
Tenho e jamais me
esquecerei.
O narrador cede ao cinismo.
Brinca consigo mesmo. O narrador é um canalha. O narrador
é um escroque, um pústula, um crápula.
Voltemos aos dois:
Há possibilidade
de ficarmos juntos?
Há, desde
que você mude.
Que mudança?
Participe mais da
minha vida, dos meus projetos, dos meus ideais.
Ideais...? Você ainda
tem ideais neste país?
O narrador se revela. Desfere
o golpe capital. Ela é apaixonada pelo Brasil. O narrador é
um anti-patriota, não sabe uma parte sequer do hino nacional. Não
torce pela seleção. Não comemora o sete de setembro.
Não sabe quem foi o Duque de Caxias. Voltemos aos dois:
Tenho. Tenho fé
na melhora.
Mas e a conjuntura internacional?
Somos periféricos, dominados e continuaremos enquanto não
houver mudanças estruturais.
O narrador conhece o Consenso
de Washington, mas mesmo assim encena esse diálogo. Ele é
um verdadeiro idiota, mesmo.Voltemos aos dois.
E o Fome Zero, o
Bolsa Escola, o Vale Gás, As Reformas?
As Reformas não reformam
e os programas são meramente assistencialistas. Meu Deus! E como
é que se dá jeito nesta merda!
O narrador dá voltas,mas
sabe bem o que quer. Divertir-se. Sim, apenas divertir-se, e usa a situação
do Brasil para ora aproximar, ora afastar duas pessoas.Voltemos aos dois:
O jeito é
distribuir renda com reformas que garantam o reaparelhamento do Estado.
Só falta
você falar em planificação e chamar o Delfim Neto.
Planificação só
a tabelinha que eu fazia quando estava com você.
O narrador situa fatos interessantes
da vida a dois. Coisas que deixaram boas lembranças, marcas. Voltemos
aos dois:
Não há
a Governança Progressista?
O que é isso?
O novo nome da Terceira
Via.
Por que você não
me dá uma terceira chance? Eu mudo, desde que você aceite
seus erros.
Que erros?
Esse ufanismo inservível.
O narrador coloca palavras duras
na boca dele. Ela é sensível, meiga, atenciosa, sincera e
verdadeira. Voltemos aos dois:
Não. Até
logo.
O narrador se cala. O narrador
chora um pouco.
2004
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