A menina de cristal

 
As coisas se vão,
O interstício se vai.
A lembrança congela.
Lembro do coração.

Respiro sem querer
Como não queria voltar
Por que Deus fez toda
essa confusão?

Não acredito no Diabo.
Mão e contra-mão.
Sinais desiderativos.
Hospitais filantrópicos?

Os loucos ao meu lado
São todos sãos e
quem sou eu?
Não acredito no Diabo.
Aposentadoria e pensão.
Mercado Financeiro.
Queria mais dinheiro
E o pão do milagreiro.

Não queria voltar
Dormi trinta horas
Acordo agora
Vejo um altar
E uma consagração:
Um avião para a Palestina
E uma menina de trança.
O sonho não me alcança
Lábios azuis
e rosto de porcelana.

Não quero que ela caia
E se quebre em muitos pedaços
Coloco-a com um laço em
meu braço
Alojo-a no fundo do peito.
Sim, eu quero o seu sorriso
Meu Deus! É tudo que me falta!
Quero ir com ela ao paraíso
esperar que complete quinze
anos e desvirginá-la num
dos seus jardins.

Um querubim se aproxima
e olha seu rosto sereno
traz-nos mel e veneno
fel de Satanás.
Mas não acredito no Diabo
E digo isso a ela quando
desperta
De camisola azul
Meu Deus... Onde está
o Carlos Pena.
Ancorado no cais?
Uma água viva?
Um zéfiro Sul Americano?

Uma menina
E o que fiz com ela?
Toquei o seu corpo
com uma promessa
de germinar areia.

Levo-a à praia
e molho seus pés na água
É apenas uma menina,
meu Deus...
O que foi que eu fiz?
Não há lágrima e
ela sorri abundantemente.
Meu Deus, o que foi
que eu fiz...
O sal bate em seu rosto
e o torna mais radiante.
sargaços calçam seus pés
e os caranguejos os olham
de longe.
O ventre... E o seu ventre...
O imagino a cama de uma
criança.
Espero essa criança
e Satanás me alcança.
Não acredito em Satanás.
Onde estão teus anjos meu Deus?
Afastados de mim pelo pecado?
Não havia maçã, ou uva, ou
hóstia.
Havia o mel do arcanjo que
fecundou a alma da menina.
Meu sêmen fecundou seu ventre
E só Deus poderá reverter
essa realidade.
Não quero que os mate.

Areia, num deserto,
Não há água e temos
fome.
A menina dissimula
com a força dos titãs.
Satanás se aproxima.
Não acredito em Satanás.
Tentará a menina?
Não. Não com seu anjo
azul.
Começo a rezar um poema
e encontro um oásis
Prometo não comer fruta
alguma.
Prometo não tentar a Deus.
Eu acredito em Deus.
Levo a menina pela cintura
Dispo-a suavemente
e nos reencontramos com a
água.
Meu Deus, é disso que precisamos:
água!
Água e areia fundaram o mundo.
Satanás se aproxima,
mas sinto-lhe a fraqueza na alma.
Meu sêmen novamente é derramado,
o anjo olha e ela sutilmente geme.
O anjo me fita e sorri.
Meu Deus, como eu precisava desse
sorriso!
Meu Deus, perdoe-me pela violação.

Estamos na cidade.
O Diabo nos espreita.
Ela já traz no ventre uma criança.
Eu a tenho presa à cintura
e o anjo observa de um
arranha-céu
Procuro nas esquinas,
nos muros, cartazes,
fachadas, um poema do Carlos Pena
para rezar.
Satanás se esconde na indiferença.
Satanás é contido pelo anjo.
O anjo me observa.
Na cidade parece desconfiar de mim,
dos meus cabelos, roupa, do meu andar.
A menina veste branco, mas a roupa
íntima é azul.
Meu Deus... Perdoe-me por este pecado.
O anjo a acha feliz e hesito
em me considerar aquele que
assim a manterá.

A menina afaga meu rosto
Eu estou triste e cansado
Tentado estou a me achar
um tolo ou um ninguém.
Temo que o anjo a leve
Será melhor para ela?
Pelo menos serei o pai
de seu filho.
Eu sei que ela não sentirá
dor ao ter esse filho.
Sei que dormirá e acordará
a seu lado.
Lembrei-me do Carlos Pena,
e recitei para ela.
Meu Deus, me perdoe,
mas é como se não existissem
o Senhor ou Satanás, ninguém,
só nosso anjo que levava
mel no alforge e mirra.
Seríamos sepultados
naquela cidade,
entre metrôs, avenidas,
prédios, shoppings, bancos
e toda aquela parafernália.
A criança, de sandálias,
declamaria aos ventos
os versos do Carlos Pena.
O Diabo morrera conosco.
O anjo fiel leva flores à
nossa sepultura.
Hoje procuramos por Deus.


 
 2004

 

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