Os contatos culturais entre conquistadores, jesu�tas e �ndios do Rio Grande do Sul fizeram parte de um processo de dizima��o, dos nativos, da perda de sua identidade. Processo esse que evolu� do s�culo XVI ao s�culo XIX.
Durante o s�culo XVI as investidas dos conquistadores � �rea rio-grandense foram inexpressivas, por isso, foi poss�vel ao �ndio a continuidade em seu territ�rio, mantendo sua identidade cultural.
O guarani sedentarizou-se nos povoados nos povoados missioneiros, o que representou um processo hist�rico gradual de transi��o da pr�-hist�ria para a hist�ria. O jesu�ta ao entrar em contato com o guarani foi respons�vel pela implementa��o de valores e elementos materiais da sociedade europ�ia da �poca. Surgia um termo novo, "pol�tica indigenista real", desenvolvia pelo jesu�ta, a qual fomentava a convers�o, educa��o e "civiliza��o" dos �ndios.
A Terra de ningu�m, come�ou a ser terra de algu�m com a colabora��o dos jesu�tas e suas expedi��es para catequiza��o dos ind�genas, registrando suas observa��es acerca do territ�rio explorado. Um mundo inesperado e selvagem estava a sua frente na espera da apresenta��o do Deus conhecido por eles, que era superior ao Deus reverenciado pelos nativos, chamados de gentios ou pag�os. A preocupa��o com o salvamento das almas e o encaminhamento para o c�u, motivava esses mission�rios para o trabalho.
Remonta do ano 1605 o primeiro contato proveitoso dos mission�rios portugueses com o ind�gena litor�neo rio-grandense. Outros tantos se sucederam com sucessos e fracassos, at� que conseguiram o objetivo de aldear e catequizar os �ndios.
"Importa, finalmente, ressaltar a data - 1605 - em que se verificou o primeiro contato frutuoso dos mission�rios portugueses com o ind�gena do litoral ga�cho,...". (p�g. 18)
Os mission�rios espanh�is, depois de alguns insucessos conseguiram reduzir os �ndios guaranis, Roque Gonz�les de Santa Cruz, fundou S�o Nicolau em 1626, na margem esquerda do rio Uruguai, sucedendo Nossa Senhora da Candel�ria, fundada em 1620, �s margens do rio Ibicu�, mas de ef�mera dura��o.
"... antes de haver o jesu�ta espanhol procurado fixar-se na margem esquerda do rio Uruguai, o que s� se deu em 1626, com o padre Roque Gonz�lez de Santa Cruz, fundador de S�o Nicolau." (p�g. 18)
As impress�es quanto aos costumes e maneiras de viver dos �ndios, � relatada com veem�ncia pelo Padre Jer�nimo Rodrigues, criticando a acomoda��o dos ind�genas que comiam quando tinham fome, sem fazer previs�o para a pr�xima refei��o. Tratando-os como pregui�osos, de acordo com sua vis�o cultural. Os �ndios n�o necessitavam da acumula��o de bens, na sua maneira de viver, diversa do invasor europeu, acostumado com uma organiza��o diferente baseada na aquisi��o de bens e vida prazerosa.
"Tem o ano repartido em quatro partes, scilicet, tr�s meses comem milho, outros tr�s favas e ab�boras, outros tr�s alguma mandioca, e outros tr�s comem farinha de uma certa palmerinha, que � assaz de fome e mis�ria. E tudo isto lhes nasce de pura pregui�a, e de se contentarem com comerem quanta sujidade h�...". (p�g. 24)
Nos relatos do Padre Antonio Vieira, baseados em informes de mission�rios em servi�o no extremo sul, informa, que ap�s contato de mission�rios vindos do Rio de Janeiro com os nativos do nordeste ga�cho, o servi�o apost�lico foi interrompido.
Para os moradores de S�o Vicente n�o era interessante ter aldeias jesu�ticas por perto, sabidamente os jesu�tas eram contra a escraviza��o dos ind�genas. Os jesu�tas decidiram n�o abrir conflito com os vicentinos que utilizavam a m�o-de-obra dos �ndios, fazendo-os escravos.
"O principal obst�culo foi-lhe oposto pelos habitantes de S�o Vicente, os quais, sabendo que na regi�o de Laguna dos Patos havia numerosas popula��es ind�genas, muito cedo para l� se dirigiram, na trafic�ncia do escravo vermelho. Desse viveiro humano come�aram logo a retirar bra�os para suas lavouras, e o com�rcio assim estabelecido havia prosperado quando os padres apareceram. Como os estes se opuseram a escraviza��o do �ndio, os vicentinos tudo fizeram para que n�o se estabelecessem aldeias de jesu�tas naquelas paragens...". (p�g. 23)
A regi�o descrita fazia parte de Santa Catarina, norte e nordeste do Rio Grande do Sul, regi�es habitadas pelos �ndios goianases, que se estabeleciam no planalto de Vacaria e o vale do Ararangu�.
Desejando expandir os contatos at� o rio da Prata, descreve os proveitos j� recebidos desta regi�o, e estimula sua conquista dos espanh�is, pelas riquezas que ainda poderiam ser exploradas, e os poucos recursos materiais e humanos necess�rios para sua conquista.
"Tamb�m se pode intentar a conquista do Rio da Prata, de que antigamente receb�amos t�o consider�veis proveitos pelo com�rcio, e se podemos conseguir ainda maiores, se ajudados dos de S�o Paulo marchamos, como � muito f�cil, pela terra adentro, e conquistarmos algumas cidades sem defesa, e as minas de que elas e Espanha se enriquece, cuja prata por aquele caminho se pode trazer com muito menores despesas. ... porque bastam dois navios, e duzentos ou trezentos homens, para tomar Buenos Aires, que � a �nica povoa��o que ali h� de castelhanos, e, se n�o nos anteciparmos, podem os franceses tomar-nos a ben��o...". (p�g. 24)
Nas cercanias de Laguna, foram catequizados e batizados duzentos �ndios(6), e segundo os relatos, por sua pr�pria vontade, continuando a participar das missas com qualquer tempo, mesmo n�o sendo obrigados(7).
"P�s Deus nestas palavras tal efic�cia que, rendidos muitos, com grandes desejos no cora��o e l�grimas nos olhos come�aram a pedir que os fizessem crist�os, de modo que em oito dias foram suficientemente catequizados e receberam �gua do sagrado batismo perto de duzentas almas, e tal afei��o tomaram depois de serem batizados, �s cousa divinas, que, morando muitos deles uma l�gua de distante da igreja, continuaram com muito fervor a ouvir missa todos os dias santos, e ainda em tempo de grandes frios e chuvas, n�o obstante a declara��o que se lhe fez de ficarem totalmente desobrigados." (p�g. 25)
As expedi��es catequizadoras dos dois padres, do col�gio do rio, levaram a palavra de Deus e o batismo para diversos ind�genas, encontrando receptividade em muitos casos, e resist�ncia em outros, como o fato de terem de deixar suas v�rias mulheres, ou o do chefe Tubar�o dizendo: "o batismo � para crian�as, e que Deus n�o o criara para o c�u, mas para morar na terra, em testemunho e prova da qual verdade o pusera nesta, e n�o naquele"
Nas peregrina��es pelas aldeias, por onde os dois padres passaram, at� a �ltima do Caibi,(10) levaram aos �ndios a import�ncia da salva��o e a preocupa��o com os doentes, tratando-os e aplicando-lhes a extrema un��o.
"A outra e maior dificuldade que nestes contra a lei natural reina, � o haverem de deixar as suas muitas mulheres que t�m." (p�g. 26)
"...Desceu tamb�m o mesmo tubar�o a chamado dos padres, os quais lhe deram uma bateria para o converter, mas ele endurecido acudiu que "o batismo era para crian�as, e que Deus o n�o criara para o c�u, mas para morador da terra, em testemunho e prova da qual verdade o pusera nesta, e n�o naquele"...". (p�gs. 26 e 27)
Acreditando na inviabilidade econ�mica da regi�o rio-grandense, as autoridades espanholas entregaram-na aos jesu�tas para pacific�-la e reduzirem aos �ndios.
Os padres jesu�tas, desde de 1605, tentavam cristianizar os �ndios que habitavam as proximidades da lagoa dos Patos, sem sucesso desistiram do empreendimento em 1622. Ao contr�rio de 1626 onde foi poss�vel a efetiva��o da redu��o do ind�gena, do guarani, � f� cat�lica.
Na primeira fase, entre 1626 e 1640, reducional, o padre jesu�ta Roque Gonz�les fundou a redu��o de S�o Nicolau �s margens do rio Piratini, enfrentou a resist�ncia de certos Xam�s e apresadores de �ndios e o meio ambiente hostil, ocorrendo secas, prejudicando assim a obra reducional. Mas mesmo assim, auxiliados pelos �ndios Tapes, do grupo Tupi-Guarani, fundaram dezoito redu��es pela bacia do rio Jacu�.
Os padres transformaram os �ndios em excelente m�o-de-obra especializada, pois ensinaram-lhes t�cnicas de cultivo e aproveitamento do solo, permitindo assim uma melhor produtividade e colheita.
A funda��o das redu��es jesu�ticas do "Tape" representou uma dilata��o das Miss�es do Paraguai para o Rio grande do Sul, e assim uma penetra��o de ordem espanhola , ou seja, as redu��es integravam o sistema Colonial Espanhol para isso os padres objetivavam a convers�o dos infi�is e a obedi�ncia ao Rei da Espanha. Todavia cada redu��o possu�a auto-sufici�ncia econ�mica e autonomia administrativa.
As redu��es do Tape e mais tarde os sete povoados missioneiros, foram partes integrantes do Antigo Sistema Colonial espanhol. O qual utilizou os mission�rios para amansar os �ndios conforme a filosofia do conquistador, em nome de Deus e Sua Majestade.
REFER�NCIAS BIBLIOGR�FICAS:
CESAR, Guilhermino: Primeiros Cronistas do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 1981.