O judaísmo feminista

Vivemos hoje na era do politicamente correto. E nesta era PC, é padrão na sociedade lutar-se pela igualdade de direitos entre os sexos, sendo hábito das feministas mais renhidas criticar as religiões por serem machistas e excluírem as mulheres. Neste texto, vamos tentar provar que o judaísmo não se inclui nesta lista de religiões machistas, e que, ao contrário, sempre teve a mulher em altíssima consideração.

Nossa primeira tentativa pode ser através de exemplos retirados das fontes judaicas. Se lermos com cuidado o Tanach (Antigo Testamento), extrairemos muitos exemplos interessantes. Sara mandava em Abraão, e, quando este tentou contestá-la, foi desencorajado por Deus. Rebeca rezava junto com Isaac e conseguia sempre com que este fizesse suas vontades.

Além destes exemplos, temos outro que é o mais interessante de todos : os judeus foram os primeiros a ter uma mulher como "chefe de estado". Esta foi a juíza Débora, que liderou o povo judeu em sua época (século XI a.C.) chegando até a liderá-lo durante uma guerra, estabelecendo a estratégia a ser seguida na batalha por seus generais.

Nossa segunda tentativa será através das leis de proteção da mulher. Há centenas de anos os judeus estabeleceram leis que se tornaram o principal objetivo da luta dos movimentos feministas do século XX. Um exemplo claro disto é o divórcio. Este já está previsto na legislação judaica, com regras claras de proteção aos cônjuges. Existem cláusulas para permitir à mulher requerer o divórcio quando o marido não cumprir com suas obrigações maritais (que para o judaísmo transcendem as sexuais). Além disto, existe a figura da pensão, e outros artifícios legais que vão garantir o sustento da mulher em uma sociedade onde ela muitas vezes era impedida de trabalhar pelos usos e costumes locais.

Nossa terceira tentativa de provar que o judaísmo é uma religião essencialmente feminista passa pela inexistência de leis que discriminam a mulher. A mulher no judaísmo não é proibida de realizar nenhuma das obrigações religiosas impostas aos homens. A diferença entre os dois é exatamente esta : os homens são obrigados, às mulheres é concedido o benefício da opcionalidade.

Isto acabava acarretando em uma exclusão das mulheres do serviço religioso, por uma questão de costume. As mulheres não participavam, pois participar significava ter que estudar e dedicar um grande tempo à religião, tempo este que elas preferiam poupar-se.

Mas isto não implicava de forma alguma que a mulher era ignorante nos assuntos relativos à religião. A mulher era responsável pelo cumprimento de dezenas de regras religiosas relativas a sua casa, que deviam ser seguidas escrupulosamente, como por exemplo as regras relativas à alimentação, que qualificam um alimento como kosher (puro, próprio para consumo) ou taref (impuro, proibido). Existiam dezenas de obras, escritas nos idiomas locais, que tinham como objetivo instruir a mulher sobre as leis judaicas.

Nossa quarta tentativa passa pela existência de leis que enaltecem a mulher e referem-se a ela como superior ao homem. A mulher dá a luz, e através deste ato, torna-se mais próxima do ato de criação e é mais elevada que o homem em todos os aspectos.

Além disto, o judaísmo pode ser considerado basicamente como uma religião matriarcal, visto que o fato de uma pessoa ser judia ou não (tirando os convertidos) deriva do fato de sua mãe (e não o seu pai) ser judia. Isto é, um filho de mãe judia e pai não-judeu é judeu, enquanto um filho de pai judeu e mãe não-judia não é judeu.

Mas é claro que todas estas leis eram (e são) colocadas da forma mais conveniente para os habitantes de uma certa região. Assim, apesar da lei judaica ser uma só, os usos e costumes variam imensamente em cada grupo étnico judaico existente (é importante não esquecer que os judeus foram dispersos pelo mundo e fixaram residência em países tão díspares quanto Bizâncio e Reino Franco). Desta forma, cada comunidade tratava as suas mulheres de maneira distinta, apesar de todas as maneiras caracterizarem-se pela afeição e respeito pelos direitos da mulher.

O status da mulher judia no países muçulmanos sempre foi ditado pela lei religiosa e por decretos rabínicos, além de haver uma grande influência do estilo de vida local. Assim, a mulher judia acabava sendo excluída da vida pública devido às restrições que os muçulmanos aplicavam a suas próprias mulheres. Mas decretos rabínicos sempre procuraram garantir os direitos sociais e principalmente os direitos econômicos da mulher. Isto pode ser visto, por exemplo, em um decreto rabínico da comunidade de Marrocos, datando do século XV, onde diz-se que uma filha, mesmo não sendo casada, teria o mesmo direito que seus irmãos à herança de seu pai.

Já nas comunidades chassídicas (movimento religioso judaico surgido no século XVIII, no leste europeu), o status da mulher era bem diferente. Dado que o chassidismo se amparava no fervor, na devoção e no grande envolvimento emocional com o movimento, a família perde um pouco a sua posição absolutamente central e a mulher, como esteio da família, perde status. Mas mesmo assim, várias mulheres se destacaram dentro deste movimento e assumiram condições próximas da de tzadik (pessoa pia e fervorosa, quase um santo, nos padrões judaicos), como é, por exemplo, o caso de Hannah-Rachel, uma mulher que morou na Polônia no século XIX, que observou todos os mandamentos, até aqueles que são impostos somente aos homens, até a data do seu casamento.

Como todo o resto do mundo, a religião judaica foi evoluindo, conforme ia passando de país em país, e vendo as transformações do mundo moderno, esta começou por adaptar-se. Assim, este processo de evolução culminou no fato da religião judaica moderna ser dividida em três principais correntes: os ortodoxos, que não aceitam qualquer mudança na lei religiosa; os conservadores, que modificam a lei mais cautelosamente; e os reformistas, que propõem programas de mudança amplos para a religião judaica.

Estes dois últimos movimentos, o conservador e o reformista, procuram adaptar a religião judaica aos novos tempos, cada qual no seu ritmo. E ambos já permitem que mulheres e homens tenham as mesmas funções dentro de uma sinagoga (e na vida particular, é claro), permitindo a existência, por exemplo de mulheres rabinas e contagem de mulheres no minian (quórum mínimo necessário para se iniciar uma reza).

Todas estas qualidades da religião judaica no tocante à questão feminina cristalizaram-se no Estado de Israel. Os pioneiros que foram para a Palestina no início do século para dar início à construção do Estado já tinham o feminismo em conta, e as mulheres sempre trabalharam junto dos homens, até em atividades fisicamente difíceis e desgastantes, como a agricultura e a construção de estradas.

Desde o estabelecimento do Estado de Israel, em 1948, as mulheres tiveram o mesmo status de cidadãs que os homens. Sempre tiveram direito de eleger e serem eleitas, além de terem sempre obrigação de cumprir o serviço militar como os homens (apesar delas só cumprirem 2 anos enquanto eles cumprem 3).

Israel, mantendo a tradição do judaísmo de ser a vanguarda feminista, foi uma das primeiras nações modernas a ter uma primeira ministra. Golda Meir governou o país de 1969 a 1974, e inclusive, seguindo o exemplo de Débora, conduziu o país durante a pior das guerras para o Estado de Israel, a guerra de Yom Kipur (1973-1974).

A cada dia que passa, as conquistas das mulheres dentro de Israel e nas comunidades judaicas na diáspora são ampliadas. A Suprema Corte israelense por exemplo decidiu que as mulheres não podem ser discriminadas de nenhuma forma dentro das forças armadas, o que fará de Israel um dos primeiros países a permitir que mulheres assumam posição de destaque dentro de suas unidades de combate.

O importante a ressaltar dentro do judaísmo é que a mulher sempre teve seus direitos garantidos, mas o judaísmo nunca cometeu o erro de dizer que mulheres e homens são iguais. Ao contrário, soube ressaltar as várias qualidades da mulher e permitir que esta ocupasse seus espaços dentro da sociedade. Para os judeus, homens e mulheres não são idênticos, mas sim, têm cada um seus pontos fortes e suas fraquezas e podem, ao invés de competir, manter uma relação harmoniosa e complementar-se de forma a construir uma sociedade melhor.


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