| STRADIVARIUS |
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| Olha o avi�ozinho: Vruuuuummmmm... "Dotoso! Tem que comer tudinho". Essa tentativa de Maria, j� t�o costumeira, deixou-o mais nervoso do que habitualmente o era. Num esfor�o tremendo, pois uma fralda mal colocada lhe dificultava os movimentos, chutou vigorosamente a bandeja esparramando o mingau quente no rosto dela e em parte da cama. - Ora seu... Maria se conteve ao m�ximo para n�o esbravejar com ele, sabendo que de nada adiantaria, pois seu g�nio j� era bastante conhecido por toda a fam�lia - Pois agora vai ficar com fome at� Melissa lhe fazer outra comida. Meliiiiiiiissa! Venha tomar conta desse malcriado que eu j� perdi a paci�ncia. Melissa, jovem vaidosa e j� m�e solteira, apareceu na porta do quarto, aflita, assoprando as unhas recentemente pintadas e com uma touca t�rmica na cabe�a, tentando concluir seu penteado. - Hoje n�o, Mara. Tenho um encontro marcado com um aquele malhad�o da locadora de v�deo e j� estou bastante atrasada para o baile. Voc� tem mais jeito e j� est� encalhada mesmo... Ali�s, mam�e antes de morrer passou a dire��o da casa para voc�, e n�o pra mim. - Como vou terminar meu doutorado se tenho que ficar com ele todas as noites? Se pelo menos ele dormisse, menos mal. Mas s� dorme de dia no hor�rio da empregada que est� sendo paga para n�o fazer quase nada. - N�o sei, voc� sempre d� um jeitinho e � minha irm�zinha do cora��o. Dito isso, Melissa saiu em desenfreada carreira, pois j� se ouvia uma buzina insistente na rua. Maria a seguiu, provocando e insistindo na responsabilidade dela em tomar conta dele, que a essa altura j� estava sozinho no quarto, uma su�te de luxo lindamente decorada e com vista para a cidade, mesmo sentado na cama. Aos p�s desta, em uma estante, existia um aparelho de TV de 37 polegadas e um v�deo onde passava os seus desenhos favoritos. Ca�a uma garoa bem mais fina nesta noite paulistana enquanto Maria, do duplex da fam�lia em um bairro nobre, ligava para uma empresa de loca��o de m�o-de-obra a fim de contratar uma profissional, pois teria de ir defender sua tese de doutorado na faculdade. Quando esta chegou, recebeu recomenda��es inclusive sobre a maneira com que ele aprovava ou n�o o desenho que deveria passar (gostava muito de desenho animado): Se sorrisse ao ver o in�cio, estava aprovado, mas se fechasse a cara, fosse o filme tirado imediatamente. - "Vamos mudar a loupinha pa v� a namolada ... Ponto. T� buiiiito." A resposta foi uma sonora flatul�ncia seguida de muitas fezes, urina e batidas de pernas. No trajeto, dirigindo seu carro importado, Maria pensava na �ltima conversa que tivera com os irm�os, em uma das poucas reuni�es que fizeram, e o tema descambou, sem ningu�m perceber, para a possibilidade de asilo dos pais. Marcos, 28 anos, advogado bem sucedido, levantou-se da cadeira bruscamente, e abrindo os bra�os dirigiu-se aos outros que estavam encostados na balaustrada do terra�o: - Eu n�o posso tomar contar deles pois agora que estou engrenando na profiss�o. - Mas voc� tem escrit�rio luxuoso na avenida Paulista, carro importado, apartamento, tudo dado por papai - disse M�rcio, 25 anos, afeito a esportes radicais, e Melissa, a ca�ula, retrucou: - E sua asa delta, motos, carros de corrida, cabana em Aspen, skis, tudo o que temos, n�o foi ele tamb�m? Maria era a mais velha dos quatro irm�os e j� fora o tempo em que os outros a obedeciam, visto que acompanhara o crescimento deles. Descuidara um pouco de si pr�pria, s� continuando seus estudos de mestrado e doutorado depois da maioridade de Melissa, cuja frivolidade e irresponsabilidade era not�ria. Aos dezenove j� era m�e de um menino que nascera doente e nem por isso abandonou sua vida irregular e o pensamento fixo de ser atriz. Eles n�o souberam como, mas tudo indica que D. Maria, a m�e deles, j� bastante velha, teve conhecimento do ocorrido e semanas depois faleceu, possivelmente de desgosto. Na volta para casa, ap�s ter tido sucesso na Universidade, achou que era hora de ter uma nova conversa com os irm�os, em car�ter de urg�ncia, para deliberarem sobre o patrim�nio que ela atualmente gerenciava. Levou muito tempo, por�m conseguiu convenc�-los de uma reuni�o naquela mesma noite, e no caso de Melissa, ela mesma teve que arrast�-la � for�a da boate. Depois de muitos improp�rios, a empregada substituta limpou a cama e tudo que estava sujo, pegou o primeiro filme que encontrou e sem esperar rea��o nenhuma do espectador, ligou o videocassete e foi para sala com o fone do seu r�dio no ouvido. Na realidade n�o era um filme, mas sim um conjunto de clips antigos que foram editados e montados de maneira a retratar a vida profissional de um dos maiores jogadores de futebol brasileiro, o melhor zagueiro de todos os tempos (como constava na abertura), e o mais competente t�cnico daquele esporte, respeitado at� no exterior: O famoso URIEL. Eram tomadas que mostrava todas as jogadas, dribles e roubadas de Uriel, defendendo os times do S�o Paulo, Palmeiras e Corinthians. Era um atleta alto, forte, vigoroso, educado, consciente e de quase cem por cento de efici�ncia. Jogadas que causavam del�rio nas torcidas e arrancavam aplausos at� dos advers�rios, gerando v�rias frases de efeito entre os locutores de r�dio e TV: - � magia pura. O atacante n�o o v� e de repente descobre-se correndo sem a bola. Ou dos comentaristas esportivos: - � uma mistura de N�lton Santos, Djalma Santos e Didi. A literatura inteira do futebol! Outros clips mostravam Uriel na sele��o brasileira onde fez v�rios gols de cabe�a lembrando o velho Le�nidas, apesar de ser defensor. - Olha l�, olha l�, olha l�, no placarrrrrr! - dizia o saudoso radialista. Alguns clips apresentavam a festa de despedida de Uriel como atleta, a estr�ia como t�cnico e ascens�o � sele��o brasileira, reinando absoluto por v�rios anos, acumulando ta�as e trof�us. O filme continua e mostra o t�rmino da carreira de Uriel j� velho, alquebrado e doente, quando fez a �ltima entrevista para a TV na luxuosa sala de sua resid�ncia, sentado numa cadeira forrada de veludo vermelho e s�. Era a pr�pria imagem da melancolia, apesar de estar sendo homenageado pelos servi�os prestados ao futebol brasileiro. Suas bochechas e olhos profundos, �culos mal seguros no nariz, voz baixa e rouca deixavam qualquer um que o conhecera no auge da fama consternado, como dizia um rep�rter: - Para mim que o acompanhei durante sua carreira � bastante triste v�-lo nesse estado. Ao fim do �ltimo clip, viam-se imagens mal tomadas e bastante nebulosas, som pouco percept�vel, como se a filmadora estivesse escondida em uma caixa. Todavia, podia-se perfeitamente distinguir Marcos levantando-se bruscamente da cadeira, abrindo os bra�os enquanto se dirigia aos outros irm�os encostados na balaustrada do terra�o. A� o filme termina trazendo a realidade da su�te de volta. Desta vez, estranhamente, ele n�o ficou inquieto e debatendo-se, como acontecia ao final de cada desenho. Indiferente �quela maldita fralda que tanto odiava e que ningu�m colocava direito, tentou v�rias vezes at� conseguir rolar pela lateral da cama, inadvertidamente deixada aberta, conseguindo a proeza de cair quase sentado na cadeira de rodas que sempre estava ao seu lado. Movimentou-se com dificuldade at� se sentar nesse estranho ve�culo e, com aux�lio do corrim�o preso na parede deslocou-se at� o banheiro e postou-se diante do espelho a se contemplar. Foi como se o monitor de um computador se acendesse e um software gr�fico de morfismo fosse executado, modificando sua face desde o nascimento at� o est�gio atual. Chorou. Nesse momento, uma esp�cie de clar�o surgiu no espelho, como se algu�m atr�s dele tivesse ligado uma l�mpada forte. Ouviu ent�o, perfeitamente, uma voz suave e firme: - � chegada a hora. S� ent�o Stradivarius se fez notar atrav�s de seus uivos agudos, e antes que Uriel tombasse a cabe�a para um lado, recebeu o �nico e �ltimo afago daquele que nunca lhe dera um prato de comida nem o levara para passear, mas a quem permaneceu sempre fiel. Deitou-se im�vel com a cabe�a apoiada nas patas dianteiras, mantendo aquela m�o j� inerte sobre o seu focinho, como se quisesse perpetuar esse precioso momento, at� que a porta do quarto se abriu e os irm�os, quase em coro, gritaram: - PAPAI! |
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