S�BIA  LOUCURA
(Ronaldo Cavalcante)
N�o sei se loucura ou coisa que o valha, pode caracterizar essa explana��o de um fato que aconteceu realmente, quando ainda tentava achar uma coloca��o para ensinar filosofia no curso superior, durante uma das minhas paradas em um bar perto da faculdade para o costumeiro lanche noturno, ocasi�o em que se comemorava os 500 anos do descobrimento do Brasil e se falava muito no fiasco da navega��o de uma famosa caravela-cover.

- Voc� conhece Ulisses? 

Perguntou-me um cidad�o, aparentando 50, bem-vestido em um terno caro e gravata de seda, cujo div�rcio com a voluptuosa e t�o desejada sanidade s� se fazia notar pelo fato do mesmo trazer, sob a axila direita, uma boa quantidade de peda�os de papel�o, gurdurosos e sujos, cortados e arrumados de forma a imitar um livro.

- Claro, lhe tenho o maior apre�o !

Disse-lhe na tentativa de n�o aborrec�-lo, uma vez que na minha parca maneira de pensar considerava os doidos alinhados os mais perigosos, mesmo tendo esse cidad�o me abordado com extrema educa��o. Talvez por ter-me sentado ao seu lado e deixado no balc�o um livro bastante volumoso sobre o qual, volta e meia, ele dava uma olhada como que querendo perguntar de que se tratava. Por�m n�o lhe satisfiz a curiosidade e aguardei um at� logo qualquer pois a hora j� se adiantava.

- Veja voc�, fala-se tanto dessa fa�anha dos 500 anos e se esquecem daquelas do Mediterr�neo, Egeu e Mar Negro que est�o na Odiss�ia relatadas por Homero sobre o retorno de Ulisses a ilha de �taca.  � a continua��o da Il�ada, o grande poema �pico que relata o cerco de Tr�ia para recuperar Helena, raptada por Paris, em que os gregos usaram mais de mil barcos e 50 mil guerreiros, sitiando por dez anos a cidade do Rei Pr�amo a qual saquearam e incendiaram. Da� Posseidon, o deus do mar, lan�ou sua maldi��o sobre os gregos e at� hoje, muitos deles s�o considerados loucos.

A� eu me toquei. O cara era mais maluco do que eu pensava. Por�m era um maluco letrado, talvez fil�sofo, pela maneira com que gesticulava e pela entona��o da voz pausada e firme. Estudou tanto, coitado, que ficou doido, pensei. Dei uma olhada mais detida nele e notei que era bem cuidado, unhas feitas, cabelos bem penteados, pouco grisalhos, sapatos brilhantes, um marcador de livro no bolso do palet� onde deveria estar o len�o e, disfar�adamente li �OS LUS�ADAS� escrito a caneta em letras de forma naquilo que seria a capa do seu livro.

- Mas porque voc� acha que os gregos s�o considerados loucos ?
Me surpreendi dialogando com um aluado que nem sequer conhecia e al�m do mais em um bar, � noite, e agora j� imbu�do do esp�rito de convencer o mesmo a abandonar a conversa.

- L�gico que s�o !  Eles s�o os pais da filosofia. E os fil�sofos se isolam no seu mundo particular a procura da verdade e resumem na raz�o, a raz�o de ser de todos os seus sentidos. Ensinam-nos a sonhar, olhar o c�u, sentir a brisa, observar a folha que cai, usar a nossa criatividade e a nossa ousadia enfim, ser diferentes. Isso ningu�m pode suportar. Da� para taxar de loucura � um pulo.  Prendem-nos, matam-nos em nome de uma deformada e famigerada psiquiatria.

- Mas eu ainda acho que loucos s�o os que amam mesmo sem ser correspondido e perseguem esse amor at� os limites inimagin�veis.

Falei isso quase sem sentir como uma maneira de dar corda ao meu interlocutor,  j� desejando continuar o papo e ver at� onde chegava a agora talvez insanidade do mesmo.

- Ora, meu caro, tudo que j� foi dito como:  � Existe mais mist�rio entre o c�u e a terra do que pensa nossa v� filosofia �,  � De m�dico, poeta e louco, todos temos um pouco �, �Os loucos s�o poetas que bebem em fonte que n�o s�o acess�veis ao homem comum � , � Internos em manic�mios t�m receio de voltar para as ruas, pois � l� onde est�o os verdadeiros loucos� e outras afirmativas, mostram que todos n�s, em determinadas situa��es de nossas vidas, sa�mos do s�rio, isto �, do normal, ou do padr�o de normalidade concebida pela sociedade.

- Mas a� voc� j� est� generalizando.   Fingi n�o entender muito bem do assunto.

- N�o pretendo aqui aplicar as experi�ncia cient�ficas de Sim�o Bacamarte para estabelecer um limite entre a sanidade e a loucura, mas a tal da loucura passa sempre pela maneira como a interpretamos. Quem v� um potencial louco guarda para si imediatamente essa alcunha, e todos os gestos ou palavras dele ser�o atribu�dos � essa defici�ncia. Ou seja, n�o se procura uma explica��o l�gica para aquilo que j� est� rotulado nas mentes de ambos (louco e dito normal). � onde est� o grande engano da mort�fera psiquiatria atual n�o vendo a esquizofrenia como uma fuga de rela��es sofridas. Um exemplo � a ditadura familiar como elemento deflagrador de atitudes incompreendidas.

- Mas essa fam�lia n�o � o elemento de apoio desse poss�vel doente?

- Na sua maioria, os casos agudos de loucura s�o condicionados pela pr�pria fam�lia cujas rela��es transformam-se no estopim da bomba. Vale tamb�m comentar simples jogos de RPG que se tornam em crimes cru�is ou at� psiquiatras que assassinam seus pr�prios pais, jovens bem criados que matam v�rios colegas e professores, tudo se reduz a casos para os quais n�o se explica ainda � luz da psiquiatria.
E continuou o poss�vel maluco enfaticamente:

- A genialidade e a loucura est�o intimamente ligadas. Ent�o, n�o est� mais do que na hora dos s�os atravessarem a fronteira e descobrir o que realmente se passa do lado de l� (ou de c�)?
Antes que eu pudesse responder, um ru�do estridente de sirene interrompeu bruscamente nosso di�logo e na porta do bar freiou, quase subindo o passeio, uma ambul�ncia onde se lia na porta �MANIC�MIO SANTA EDIVIRGES�, de onde saltaram o que se parecia com tr�s enfermeiros robustos  e um deles trazia nas m�os uma camisa de for�a prestes a ser usada.

Ainda n�o pude dar uma resposta ao meu louco amigo. � certo que o farei um dia, pois j� a tenho preparada. Mas antes tenho que bolar outras justificativas para convencer, novamente, ao m�dico e ao diretor desta casa a me deixar sair principalmente dessa maldita camisa de for�a.
Arte: Adapta��o do quadro de Edenise
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