| Quadra de �s |
| - A�o ! - Quadra. - N�o vou. Pode rondar sua bucha. - Rondar? N�o sabe contar n�o? Bati ! - � bombada de quadra. - Gritou Ded� dando aquela habitual gargalhada. Sa�ram do bar de seu Flor�ncio com mais uma partida ganha e deixando a dupla vencida discutindo sobre a derrota. - C� d� uma sorte danada com a quadra n� Ded� ? Sempre sai rifado mesmo quando a gente joga de testa. - Disse Juvenal ao companheiro de domin� de longas datas. - �, mas � dif�cil eu bater com lasquin�. Seguiram comentando sobre trabalho. Ded�, que trabalhava em caminh�o de coleta de lixo, falava do perigo e as dificuldades do labor sem esquecer o baixo sal�rio que a todos afligia. Juvenal se vangloriava de trabalhar como vigia noturno pois podia portar uma arma e tinha o dia todo para resolver seus problemas particulares. - Os garis deviam se unir pra conquistar melhor condi��o de trabalho e refor�ar essa mixaria que eles pagam. Afinal de contas t�o exigindo at� segundo grau pra se ficar pendurado naquele caminh�o fedido o dia todo. Sem contar do mau humor dos motoristas que obrigam a gente a ficar correndo pra cima e pra baixo. Ningu�m d� um refresco. - � verdade Ded�. E ainda tem o lix�o pra voc�s ag�entarem em toda descarga. - J� imaginou uma greve dos garis? A cidade ia ficar coberta de lixo e t�o fedorenta que eles tinha que atender a classe. Os motorneiros n�o faz isso? Toda vez que tem uma greve de �nibus eles s�o logo atendidos e todos ganham. S� quem se lenha � o pov�o. - E uma greve dos vigilantes, hein? A rapaziada ia dar um baculejo legal nessas firma dos bar�o. Durante a caminhada permeada de filosofias, onde cada um iria tomar seu destino, encontraram Alberto, um outro morador do mesmo bairro que acabara de se juntar novamente com a companheira pois esta tinha recentemente dado a luz ao seu filho. Para isso construiu um barraco de alvenaria vizinho ao barraco de madeira de Juvenal, com a indeniza��o que recebera do �ltimo emprego. Estava agora desempregado. Como os tr�s conhecidos moravam em encosta, e na cidade era onde a maioria da popula��o pobre residia, o papo descambou para as chuvas que estavam na porta e as not�cias sobre o tempo que anunciavam uma frente fria que iria passar um bom tempo na �rea. Foi quando um pressentimento repentino tomou Ded� de assalto: - Bem que eu podia pedir dispensa amanh�, ou ent�o levar um bom-bril. - Pra que perder dia sem necessidade? - Ponderou Juvenal. - � mesmo. Deixa pra l� n�? O outono estava para chegar, j� fazia frio e aconteciam algumas chuvas. Era quase cinco da tarde quando Juvenal e Alberto subiram o morro em dire��o �s suas moradas em que Juvenal apenas fazia um lanche e saia para mais uma jornada noturna. J� um pouco distante gritou: - Lembran�a a Du. Estava adivinhando, pois era em Durvalina que Ded�, dirigindo-se ao barraco alugado onde moravam juntos, pensava naquele momento de depress�o. Exatamente porque nem sabia se a encontraria em casa. Essa morena fogosa e farta de carne dura, vivia com ele h� pouco tempo mas dava muito trabalho. Inquieta, muito dada e chegada a um "gor�", fornecia todos os ind�cios de que n�o lhe era fiel. E por conta disso j� decidira por uma separa��o, aguardando apenas o dia do pagamento para deixar algum com ela antes de partir. No dia seguinte, ainda macambujo, despediu-se dela e, como fazia todos os dias, passava no barraco de Juvenal, mais ou menos no hor�rio que este ia chegando da labuta, para um dedo de prosa e comentar sobre sua decis�o de deixar Durvalina livre. - Incomoda n�o, parceiro. Mulher � que nem cacha�a, em todo lugar se acha. As pesquisa j� n�o diz que tem mais mulher que homem no mundo? Pois ent�o... - Isso nem t� ligando mais. Mas ontem joguei de testa com Alberto depois da janta e na �ltima partida ele fechou o jogo e eu n�o rondei a bucha de sena quando tive oportunidade. Morri com o caix�o na m�o. Isso � mau agouro. - Que nada! � pura supersti��o. - Valeu brodi. Fui! N�o deu outra. Naquele dia, � tardinha, quando Juvenal se preparava para ir trabalhar, chega Durvalina aos berros. - Juvenal, acode! Vi agora na TV que teve um acidente com um caminh�o de lixo que derrapou na entrada do lix�o e parece que � o que Ded� trabalha. - Fique aqui que eu vou pra l�. Imediatamente Juvenal ligou para um amigo tirar seu servi�o e seguiu para o local do acidente a tempo de encontrar o parceiro im�vel no ch�o, rodeado de curiosos. A entrada do lix�o estava muito escorregadia devido � �ltima chuva fazendo com que o caminh�o derrapasse jogando Ded� contra um poste. Da� a algum tempo chegou, sob protesto dele pela demora, o grupo de salvamento para levar o amigo que parecia morto. Entretanto ainda n�o era o dia de Ded�. E ele recebeu alta do hospital trinta dias depois com problemas nas pernas que o obrigava a andar de muletas. - Viu que foi s� supersti��o sua, Ded�? - Disse Juvenal ao busc�-lo no hospital passando pelo bar de seu Flor�ncia para comemorar. - �, mas fiquei aleijado e agora mais do que nunca vou me sair de Du. Eu bom, j� n�o dava conta, imagine aleijado. Seu Flor�ncio que tudo via e ouvia do seu bar estrategicamente localizado no alto do morro e na vizinhan�a dos seus clientes, saiu um pouco do seu costumeiro anonimato e comentou: - Acho bom mesmo. Aquilo � chave de cadeia. Desculpou-se pela intromiss�o, mas ele se referia ao fato de Durvalina, enquanto Ded� estava hospitalizado, ter freq�entado o local fazendo confid�ncias e cada vez com um companheiro de bebida. Certa feita, quando estava sozinha, mostrou a bolsa com vinte e cinco camisinhas vangloriando-se de que n�o dava nem para uma semana. Pior ainda, quando ficou b�bada e confessou ser portadora de s�filis. Dito e feito, Ded� largou Durvalina e foi morar na casa de uns parentes no mesmo bairro conseguindo, atrav�s de um advogado p�blico, se encostar no INSS. S� que essa mulher matreira e vivida, tendo apenas como testemunha discreta seu Flor�ncio, come�ou a dar em cima de Juvenal alegando que tinha ficado sem eira nem beira depois da separa��o. Inclusive, reiterava, n�o tinha nem lugar para morar pois n�o podia pagar o aluguel do barraco em que vivia com Ded�. Os argumentos foram t�o convincentes que Juvenal deixou ela ficar no barraco por uns dias. Afinal, ele ficava fechado durante as noites mesmo. Os dias se tornaram semanas e Durvalina conseguiu levar Juvenal para cama, durante o dia, tornando-se ent�o moradora oficial do barraco e administradora dos proventos dele. Todavia, ela fez quest�o de evitar a separa��o dos dois parceiros pedindo a Juvenal que procurasse Ded� para explicar o fato, "que s�o coisas do amor", dizia, a fim de conseguir deste a aprova��o. E conseguiu. Ded� n�o s� aprovou, como passou a freq�entar assiduamente este novo lar, chegando pela manh� e saindo � noite quando o parceiro se despedia para o trabalho. Depois passou a ficar mais um pouco � noite prometendo ao parceiro que logo ap�s a janta sairia. Apenas seu Flor�ncio sabia que ele n�o saia depois da janta, mas sim no in�cio da manh�, quando o agora s�cio estava para chegar, e voltava mais tarde para o caf�. Com as constantes visitas ao bar, � noite, do novo casal (ela vinha para ajudar o companheiro com as muletas) ficou claro que Durvalina j� estava agora administrando a renda dos dois amantes. E a coisa ficou estabilizada dessa maneira: Ded� chegava �s sete, passava o dia todo a tr�s, bebendo, comendo e batendo domin�, e saia no outro dia �s cinco voltando novamente �s sete, fechando o ciclo. Em determinados dias, Juvenal ficava bebendo sozinho no bar durante cerca de uma ou duas horas e voltava cantando pra casa. A rotina s� se quebrava quando Ded�, sentido dores nas pernas atrofiadas, n�o podia vir e Durvalina pagava bebida para Alberto (desempregado e vizinho) e outro colega que com ele estivesse. Em seguida iam os tr�s para o barraco dizendo ao seu Flor�ncio que iriam preparar um tira-gosto. Ou ent�o, quando n�o tinha mesmo ningu�m, ela assediava o pr�prio dono do bar, um portugu�s cinquent�o, que sempre recusava a oferta (na vers�o dele) com medo da doen�a que um dia ela confessara entre uma bebida e outra. Numa das sa�das para o mercado, Durvalina conhece Terto, casado, morador do bairro vizinho que a ajuda trazer as compras at� pr�ximo de casa e a convida para uns tragos na sexta-feira pr�xima. Aceitou de imediato e deu uma desculpa aos amantes que o dinheiro dos dois n�o estava dando, por isso teria que ir fazer faxina para completar o or�amento. Voltou no outro dia trazendo cinq�enta reais alegando que a patroa exigia que dormisse no emprego. E assim fazia todas a sextas. Ent�o num dia de s�bado, aparece no bar um ferrovi�rio de nome Tonh�o, morador do sub�rbio (longe dali), por quem Durvalina se apaixona perdidamente e com quem se relaciona imediatamente. Chegou a confessar um dia para seu Flor�ncia que podia perder tudo, mas de Tonh�o ela n�o se separaria nunca. Ent�o, previdente que era, tratou de convencer aos tr�s amantes que conseguira uma nova patroa que exigia uma faxina geral na casa durante o s�bado e o domingo. Criou-se ent�o uma nova rotina da faxineira e seus quatro maridos: Du ficava no barraco at� sexta-feira quando saia para fazer "faxina" e s� voltava na segunda de manh� cedo, com cento e cinq�enta reais na m�o, quando Ded� e Juvenal a esperavam para o caf�. Na sexta ela ficava com Terto e no s�bado e domingo, com Tonh�o, seu grande amor. E ningu�m desconfiava de nada. Se desconfiavam nada diziam. � nesse clima de acordos que os dias transcorrem e chega maio, em plena �poca perigosa das chuvas na cidade, j� tendo ca�do mais de quarenta encostas com cerca de tr�s mortes. Era uma segunda-feira de tarde, chovia torrencialmente. Estranhando e preocupados porque Durvalina ainda n�o havia chegado, Ded� e Juvenal foram para o bar de seu Flor�ncio tentar uma not�cia da companheira e l� encontraram dois desafetos de domin� que os desafiam com uma revanche apostada. Ded�, preocupado com Durvalina, ainda tenta recusar o desafio, ao que Juvenal e seu Flor�ncio lembram que � imposs�vel fugir de um embate desses pois seriam enxovalhados pelos rivais pro resto da vida. Sem alternativa, Ded� aceita o jogo por�m desconcentrado pois a todo momento olhava pela janela do bar, de onde via o barraco, na esperan�a de ver Durvalina chegando. Mas nada. Sua apreens�o e medo iam aumentando a cada minuto. S� voltou ao jogo com o grito de Juvenal: - P�, velho ! C� n�o rondou a bucha de sena e a gente pode se ferrar. - Foi mal brodi, me passei. Com a bucha de sena morta na m�o, Ded� tentou virar o jogo abrindo uma ponta de quadra (seu amuleto da sorte) na tentativa de ajudar o parceiro a bater aquela m�o que definia o jogo todo. E falou, t�mido e ainda buscando Du atrav�s da janela: - Quadra - A�o! - Falou um segundo depois o alegre advers�rio da direita abrindo uma ponta de �s. Ded� gelou. Pela primeira vez teve medo e mais do que nunca dependia de seu parceiro. Estava na mesa a oportunidade que ele esperou esses anos todos : um lasquin� com quadra de �s. E essa pedra ainda estava fora, e o mais certo era na m�o de Juvenal, sua �ltima esperan�a. E ent�o o sil�ncio se fez. Podia-se ouvir uma mosca voar. A plat�ia toda parou o que estava fazendo para prestar a aten��o no jogo. - N�o � poss�vel, pensou Ded�. Porque Juvenal n�o acaba logo? Tem �s, quadra e a quadra de �s fora. Ser� que ele quer fechar ? N�o...deve t� querendo valorizar. Quando Juvenal pegou uma pedra, os torcedores prenderam a respira��o. E quando ele bateu com ela duas vezes na mesa, de leve, foi como se um punhal tivesse atravessado o cora��o de Ded�. Juvenal n�o tinha a quadra de �s, e o que � pior, havia passado a jogada. - LASQUIN�! Gritou batendo forte a quadra de �s na mesa, o advers�rio da esquerda deixando Ded� atordoado. Perdeu a pe�a, o jogo e todo o dinheiro. De lasquin�, com sua pedra preferida, e ainda por cima morreu com o caix�o na m�o. N�o fora a preocupa��o com Durvalina a parceria teria se desfeito ali mesmo. Entretanto, como estavam aflitos, e Ded� mais ainda, simplesmente voltaram conversando normalmente sobre a supersti��o deste. Ent�o Juvenal quebrou o gelo. - N�o me venha com esse papo de supersti��o de novo que vou ficar puto da vida. - Certo, mas pense bem: Du n�o chega. Esse temporal derretendo a cidade toda e eu ainda morro com o caix�o na m�o naquele jogo t�o importante... - Esque�a isso parceiro. Vamos tomar um caf� que j� � cinco da tarde e t� na minha hora de pegar o servi�o. Daqui a pouco ela chega a� e voc� me liga avisando. Nesse momento ouve-se um ru�do de pedra jogada no telhado e Juvenal abre uma risada e brinca: - N�o disse? Ela j� chega fazendo goza��o querendo assustar a gente. Juvenal deixou o amigo sentado na sala, pegou uma capa e saiu para proteger Durvalina. Abriu a porta e n�o a encontrou. Saiu e chamou por ela. Sem resposta. - N�o brinca Du. Vem logo pra dentro. C� pode pegar uma doen�a.- Disse se afastando mais do barraco, procurando por ela. Ao olhar por cima do telhado s� teve tempo de gritar: - SAIA DA� DED� !!! Uma gigantesca massa de terra encharcada caiu sobre o barraco com se fora a lava de um grande vulc�o ativo. Numa quest�o de segundos desapareceu o barraco. Ded�, por ser deficiente f�sico, n�o conseguiu sair a tempo. Ainda essa terra derrubou as paredes da casa do vizinho Alberto que tinha mandado mulher e filho dormir na casa de sua m�e saindo a tempo de escapar da trag�dia. A como��o foi geral. Todos se lan�aram sobre aquela montanha de lama e entulho gritando pelo vizinho e cavando com as pr�prias m�os, indiferentes ao perigo de novos deslizamentos. A chegada da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e m�quinas n�o diminu�ram a �nsia do povo em encontrar Ded� com vida. S� se afastaram obrigados pelos militares. Entretanto, assim que a equipe de salvamento desistiu de procurar, por volta das oito da noite, devido ao perigo, os amigos continuaram a busca sem dar bolas para o azar. S� na manh� seguinte � que encontraram o corpo de Ded�. Estava de bru�os sobre uma caixa contendo um domin� de osso, como se quisesse proteger o �nico presente que lhe havia ofertado Durvalina. Tonh�o, com a TV ligada no notici�rio, chama Durvalina no banheiro para mostrar as imagens da retirada de um corpo em mais um deslizamento. Reconhecendo o local e Ded� apenas balbuciou: - Pobre diabo! Nunca teve sorte mesmo. Continuou escovando os cabelos e s� ligou a TV novamente no dia seguinte quando Alberto estava sendo entrevistado juntamente com o representante da Defesa Civil em que o assunto era a demoli��o do que sobrou da sua casa e a respectiva indeniza��o. E pensou alto: - Hummm, quem sabe? - O que? Falou l� de dentro Tonh�o. - Nada. |