MY  WAY
(Ronaldo Cavalcante)
(*)  Nem sei  que vim fazer aqui nessa Sodoma que diz ser a cidade luz. S� se for luz de cabar�. Essa mesa de restaurante forrada com toalha que mais parece len�ol de brega. Esses caracol horroroso no prato me entoja s� de oi�, quer dizer, de olharr (tenho que me acostumar com o palavreado). Se isso aqui � chic, num quero ver as budega.

Ali�s, sei sim, o que vim fazer. Gastei at� meu �ltimo tost�o da venda da nossa terrinha, pra vim nesse lugar de merda, mais longe de que S�o Paulo, pra pegar de volta o amor perdido da minha crian�a que faz hoje vinte e oito aninho. Fico aqui a  espera na porta do  seu xadrez, como fez comigo quando me soltaram porque  ningu�m encontrou cad�ver nenhum. Sem corpo,  tem crime n�o.


(#) N�o entendi como ela me encontrou nem como conseguiu chegar at� aqui. Deixei-a em S�o Paulo me esperando e lhe disse para n�o sair do hotel at� a minha volta. Agora n�s tr�s, nessa mesa, sem saber o que dizer... n�o era o que eu tinha planejado. Que vergonha, meu Deus!

(*) Ainda bem que encontrei na pens�o aquele bilhete que tu n�o rasgou direito, meu bem, com data, hora, local e assunto desse maldito encontro com esse nem-sei-como-chama. Dei pra minha adevogada que � portuguesa � diz que portugu�s � burro, mas n� n�o. Me ensinou a ler como gente, me explicou esse tar..., tal de relacionamento n�o sei das quanta de voc�s, me mostrou como chega aqui e at�  fez uma lindo escrito pra eu ler quando te encontrasse.  J� sei at� de cabe�a de tanto ler na viagem. Diz assim:

�Ah, as crias !... Dever�amos ser marsupiais s� os liberando ap�s preparados para a vida. Mesmo que assim fosse, elas arranjariam uma maneira de saltar e seguir atr�s do primeiro discurso inflamado de um ditador, palavras sussurradas ao p� do ouvido por inescrupulosos mestres do convencimento, cujo poder de persuas�o � capaz de se aproveitar de uma indecis�o moment�nea com argumentos falsos.

� de se at� adivinhar tais argumentos:  �...id�ias inexatas, preconceituosas, deformadas  e enganadoras acerca da vida, cria mitos e estere�tipos, que s�o usados para justificar o preconceito e a discrimina��o; o mito da sexualidade, como noutros tipos de opress�o, � apoiado pela maioria da institui��es na sociedade, predominantemente a Igreja, o Estado e a M�dia; a cultura ocidental oferece-nos mensagens muito claras quanto �s express�es sexuais que acha corretas ou n�o; todos somos criados para acreditar que o relacionamento est� definido de uma forma muito r�gida, ao ponto de que se pensa que o �nico comportamento aceit�vel tem de acontecer inserido no contexto de um casamento e ter como �ltimo objetivo produzir crian�as, bl�, bl�, bl�... Tudo para desviar uma pobre criatura indefesa do seu verdadeiro caminho... �

E tu, minha crian�a, canta t�o bem esse tal de Maiu�i (ela tamb�m me ensinou at� dizer o nome da toada ). Aquela serenata na pris�o foi uma belezura. Mas n�o � hora de pensar nisso e sim na raz�o que eu vim pra c�...

(#) Agora j� est� feito. N�o posso me deixar abater nem desistir do meu intento. Simplesmente farei de conta que ela n�o est� e, quando cair o pano ao fim do �ltimo ato, a levarei para casa retomando nossa vida de onde paramos. E cuidarei dela. E esqueceremos tudo. E seremos de novo uma fam�lia.

($) Afinal de contas, porque n�o dizem nada?  E essa severina, quem ser�? N�o me diga que � a m�e que me vai ser apresentada. N�o tem nem cabimento my dear... Scargot e vinho �s margens do Sena s� demonstra onde est� indo meu dinheiro. Depois da nossa �ltima briga, n�o deve ser reconcilia��o ou comemora��o de anivers�rio, pois o recado na secret�ria n�o avisava nada.

(#) Marquei esse encontro aqui em Paris, nesse local, porque foi aqui onde o conheci e come�ou meu calv�rio. Ele n�o quer me olhar nos olhos, pois deve saber do que se trata. Mas quando olha para o palco, sei que me v� l� como naquela noite em que eu cantava My Way  . Anos se passaram mas n�o passaram. A lua prata cintilante, agora no ba� debaixo da l�mina escura do Sena, o vestido de noite lua prata cintilante, agora na valise debaixo da mesa, junto com todas as j�ias que ele me deu, n�o me deixam esquecer do dia em que desviei do meu caminho para trilhar outros vergonhosos rumos de submiss�o. E seu status de personalidade internacional das artes pl�sticas, junto com todas as mentiras que me contou sobre relacionamento, me cegaram. Mas s� at� esse momento...


($) Tomara que n�o demore, pois minha palestra amanh� cedo no semin�rio de arte e sexualidade  ser� bastante exaustiva, e o tema muito pol�mico, como s�o todos os temas sobre esses assuntos. S� quero saber onde a velha vai dormir hoje. Bolas! Logo hoje que descobri que Apolo � de carne e osso (carne de primeira, l�gico) e est� aqui...

(*) Te olhando assim, minha crian�a, de cabe�a baixa, talvez com vergonha de mim, talvez procurando as palavra, talvez pensando no pior, talvez querendo sumi daqui. Isso me deixa tristonha, mas ao mesmo tempo me d� uma coragem danada que s� tive naquela noite cabrunhenta.

Mas dessa vez n�o, gavi�o ! N�o vou deixar minha cria sozinha novamente a merc� de outro tarado, sado, maso, ou sei l� como se chama essas vergonheira. N�o ! Se avexe n�o, minha crian�a. J� chega a culpa que carrego at� hoje desde  seus 15 aninho de ter confiado no seu padrasto e deixado ele lhe levar na garupa at� a vila pra comprar seu presente. Ah, meu Deus ! Tu voltou num abatimento que dava d�. Aquele miser�vel...

Ainda bem que meus trato com as erva, ensinado pela sua av�, serviu pra alguma coisa, e depois desses ano todo ningu�m encontrou o infeliz. Nem sabia que o tinhoso tinha tanto parente assim pra me perseguir at� no sul, pra onde a gente fugiu. Pelo menos se teu pai n�o tivesse partido t�o cedo daquela nossa seca e triste vida, a gente n�o perdia contato, agente tocava nossa ro�a, a gente n�o precisava daquele rabugento pra viver, a gente n�o tava em mundo t�o longe, a gente n�o tava agora nessa situa��o escabrosa. Escabrosa, mas � preciso.

S� saio daqui contigo debaixo da asa. O futuro, Deus prover�, pois antes de tudo somos forte, j� foi dito. Inda mais agora que peguei um pouco da leitura no xilindr�. As carta que fiz e n�o sabia onde mand�, que dizer, mandarrr, vou eu mesmo ler, assim que agente encontrar um canto.

(#) T�o assim calado, pois sabe em que quase me transformou toda sua verborr�ia sobre relacionamento num momento t�o cr�tico e desprovido de defesa da minha vida. Eu era apenas o S do carro, ou talvez no m�ximo um simples BT. Mas sucumbi vergonhosamente. Est�rias mirabolantes sobre terapia da auto-estima, auto-imagem, visibilidade social, gozar sem pedir autoriza��o, parada dos  mais de cem mil, Parceria Civil acabando com o castigo da sexualidade pelas culpas irracionais. Pura balela!

Ele se mostrou igual a qualquer outro ser irracional, insaci�vel, louco, sempre buscando auto-afirma��o e corpos outros. Em nome da arte que representa e da fama, imagina que pode fazer e dizer o que quiser  quando quiser e incentivar jovens sem norte em dire��o ao sul. Mas agora chega! E ainda tenho que lhe agradecer por sua loucura n�o se tornar minha loucura. E agora digo n�o, SOMOS ! Anormalidade para mim n�o � mais op��o. N�o quero mais essa fantasia de v�rios eus.

($) Porque n�o diz nada? Emudeceu, desta vez sem rubor na face, como naquela noite, nesse mesmo lugar, em que lhe falei ao p� do ouvido mostrando-lhe o verdadeiro caminho ao meu lado, logo ap�s sua apresenta��o art�stica.  E que apresenta��o my god !...

Um palco prateado pela lua, numa reflex�o total com a prata do seu vestido decotado cintilante. As mel�dicas notas de My Way fluiam quase que em susurro e preenchiam o pentagrama sinuoso da fuma�a juntamente exalada. Surpresas no decorrer do ato viriam com a suave troca de roupa em pleno palco, culminando com uma apote�tica transforma��o em um estivador a caminho do porto, quando dos primeiros raios de sol, coincidindo com o final da can��o. Petrifiquei-me.

(#) Agora sei que serei normal, tamb�m de perto. A fuga para frente atrav�s de barebacking in dark rooms, qual antigos negros escravos e �ndios kaiow�s, jamais me faria buscar uma sa�da tr�gica em resposta a baixa estima, a falta de esperan�a e ao tratamento humilhante por parte da sociedade. N�o ficarei s� esmagado sobre mim nem desejarei ser o oposto para me recusar. Fim dos glory holes,  dos KY, do uranismo, do amor grego pois tudo n�o passa de cavalos de Tr�ia. Agora sei que o que se costuma denominar de gay  n�o passa de um homem mal orientado que n�o aceita sua inferioridade sexual perante a mulher .  N�o mais desejarei o  CCR5 nem esse tipo de pequena morte. Sa� do �tero e n�o sou s�. Atingi meu self e n�o precisei da vida inteira. N�o, n�o sairei do arm�rio, porque nunca l� estive.


($) Sim, eu sei o que est� por vir. Mas n�o temo que se v�, pois como de praxe, � chegada a hora. As uvas em minha fruteira jamais ser�o passas. Tamb�m, � o de sempre: o medo que lhes assalta a morte sem se continuar em seus descendentes far�o com que automatizem seus filhos com a pr�tica terrorista da cria��o de personalidades moralistas. E assim os traumas ser�o legais.

(*) Se n�o sair agora, meu filho, te arrasto daqui do meu jeito...

(#) Pensando bem, nada � preciso dizer nem fazer. Ent�o vou sair andando, como se nunca estivesse aqui estado, e continuar, sem olhar para tr�s, o meu verdadeiro caminho...

($) Mais uma lac�nica despedida! Embora minhas l�grimas n�o possam derreter o gelo em torno deles, a cada fim de primavera, choro pelos Ad�nis. Mas s� enquanto n�o se apresenta Apolo e ent�o, mesmo no outono, indiferente aos perigos mortais, ser� amado o amor. Ao meu modo...

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Gar�on !
- Oui mercier ?

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