************************************************
NÃO PRECISOVIAJAR...

Não preciso viajar
para ver luzes coloridas
e milhares de lumens
a piscar em movimentos frenéticos,
pois todos os dias ,
tenho a beleza do arco íris , o pôr-do-sol
e a cintilante e singela luz do vaga-lume
para admirar.
Não preciso viajar
para encontrar a falsa força
que me permita executar
o que me supus fraco,
porque, para existir,
mostrei a uma frágil flor
o poder até então por ela desconhecido
para a continuidade do ser.
Não preciso viajar
para esquecer o que entendo
de abandono ou deficiência,
uma vez que para alguns,
foi Divinamente emprestado
a capacidade de sozinho
àqueles superar
e a esta repassar.
Nada esquecerei, se viajo.
Na volta, as lembranças se avolumam.
Porém se continuo a viajem,
Sei que posso não mais VOLTAR...
E se não volto pra contar,
DE QUE VALEU VIAJAR ???...
******************************************************
PRECISAMOSDE ATENÇÃO
Quando a violência explode assim
Causando destruição
De vidas humanas sem ter fim
PRECISAMOS DE ATENÇÃO !
Poucos fortes atrás do poder
Muitos fracos matam em vão
Justiça: não podemos mais crer
PRECISAMOS DE ATENÇÃO!
Até quem sustentamos
Pra nos proteger
Às vezes é o nosso algoz
Eu sei, pouco é;
Queremos de alguém
Que ouça o clamar de nossa voz
Nossa mente não pode aprender
Nem trabalhar nossas mãos
Para se manter, querem nos ter!
SÓ PRECISAMOS DE ATENÇÃO!

******************************************************
Incompreensíveis dias...
Novo milênio, contradições mil.
Avanço das ciências
Grandes invenções
Perversa desigualdade
Criminosa fome...
Difusão da ciência
Teia de conhecimento
Globalização
Milhões que nada sabem.
Satélites, lasers, comunicações!
Atingem os astros
Mas incapazes de
Vencer a pequena distância
Até os figurantes...

******************************************************
AMOR E OLODUM

Nas suas frias cartas
Você me destrata
Não tem compaixão.
Ainda me maltrata
Diz que me descarta
Parece sem coração.
Sem nenhuma candura
Critica minha cultura
Diz-me um ser sem visão.
Despreza minha ternura
Diz que sou criatura
Sem nenhuma ambição.
Chama-me de batuqueiro
Porque sou do Olodum.
Do alto do seu doutorado
Diz que não sendo letrado
Não tenho valor nenhum
Mas a vida é engraçada
Pois você fica desesperada
Esperando em seu carrão
O final do ensaio na quadra
Para em meus braços apertada
Gemer em frenesi de paixão
Mulata exibicionista!
Eu sou é percussionista
Das linhagens, a mais pura.
Meu trabalho é de artista
Do saber sou altruísta
E OLODUM TAMBÉM É CULTURA!
******************************************************
E se todo homem que você encontrasse fosse Deus?
Como seria então?
Você se surpreenderia?
Você saberia?
Como seria se Deus esquecesse dos ateus
E fosse Se procurar dentro da Sua própria criação?
Onde Ele se encontraria?
E se fosse você Deus?
Por exemplo, o que diria sobre a morte?
Você acha que Ele a modificaria?
Eu o faria, se fosse Ele.
E se Deus ficasse chateado?
Ele vagaria ao redor de uma geleira ou de uma nuvem?
O que aconteceria se Ele perdesse a hora algum dia?
Ele trovejaria contra o céu e deixaria todo o mundo saber?
E se algo Nele estivesse doendo?
Ele conhece a dor, pois a criou.
E quando Ele estivesse bravo?
Iria Seu grito ecoar pelos céus e nos colocaria de castigo?
E se Ele odiasse? O que faria um deus com ódio?
Ou tivesse um ressentimento?
Iria Ele fechar a cara e se recusar a falar?
Com quem se diverte Ele e de que maneira?
Se Ele quisesse se isolar aonde iria?
O que se diria de um deus temeroso?
Um deus que não fosse um deus pelo menos um dia?
Ou um deus índio, analfabeto, negro, mendigo, deficiente, pobre?
Ainda sim seria DEUS?
E SE TODO HOMEM QUE VOCÊ ENCONTRASSE FOSSE DEUS?
******************************************************
SE UM DIA VOCÊ SE FOR...
Quando o sol da primavera lhe acordar
E a leve brisa invadir sua janela
Carregando consigo o perfume das flores
Pense em mim
Neste mesmo momento estarei em algum lugar
Sob o mesmo céu
Inalando o perfume de uma ROSA ainda em botão
Pensando em você.
Quando os dias longos e as noites quenteschegarem
Trazendo o verão que logo bronzeará sua pele
Pense em mim
Neste mesmo momento estarei em algum lugar
Sobre a mesma areia
Andando a esmo na beira da praia
Pensando em você
Quando as folhas de outono começarem a cair
Trazendo o cheiro característico do ar envolvente
Pense em mim
Neste mesmo momento estarei em algum lugar
No ponto mais alto do mesmo parque
Sentindo o vento forte deformar meu rosto
Pensando em você
Quando os ventos frios do inverno começarem assoprar
Fazendo-a acolher-se em seu quarto aquecido
Pense em mim
Neste mesmo momento estarei em algum lugar
Lá fora, à beira de um fogo qualquer, em noite de Santa ANA.
Lembrando como eram as coisas entre nós,
Tentando esquecer como poderia ter sido,
MAS PENSANDO EM VOCÊ!
******************************************************
VOCÊ PODE SERHUMANO
Há uma possibilidade de você se sentir um ser humano:
SE Vir tranqüilidade e paz em um mundo que talvez não entenda
SE As dores sentidas e conflitos experimentados lhe derem força para enfrentar cada nova situação com coragem e otimismo
SE Tiver certeza de que aqueles a quem amae starão sempre lá mesmo quando você se sentir irremediavelmente só
SE Descobrir que há bastante bondade no próximo capaz de acreditar em um mundo de paz
SE Uma palavra amiga, um gesto terno, um sorriso amável sejam os presentes trocados diariamente entre você e os seus semelhantes.
SE Você fixar sua esperança na aurora quando à noite lhe parecer interminável
SE Puder ensinar amor para aqueles que odeiam
SE Souber contar sempre com os ensinamentos daqueles a quem você admira
SE Você se lembrar que aqueles a quem tocou ou tocaram você serão sempre parte da sua vida mesmo que os reencontros não sejam tão freqüentes como gostaria.
SE Acreditar que a bondade é mais valorosa que os ganhos materiais
SE Compreender que se é mais forte quando não se usa a força que tem
SE Encontrar tempo para admirar, a cada dia, a beleza do mundo.
SE Perceber que as pessoas têm habilidades ilimitadas e cada uma a seu próprio modo
SE Entender que o que você sente falta no presente pode lhe sobrar no futuro
SE Vir possibilidades no seu futuro
SE Tudo que você passou lhe serviu de experiência que valeu a pena
SE Achar você mesmo a sua beleza interior independente de qualquer julgamento exterior
Enfim, se você se SENTIR sempre AMADO.
******************************************************
CAUSA E EFEITO
Se me arranca pétala por pétala
Terá apenas um talo com espinhos.
Se me cortas as asas e me assiste cair
Não poderei voar até você do ninho
Se sempre me desfolha toda a copa
Frutos não posso mais lhe fornecer
Se me chutas quando me deito aos seus pés
Como abanarei a cauda ao lhe ver?
Um coração partido é um corpo que em vão
Tenta se mover, pois está cheio de dor.
O gelo entorpece o toque da paixão.
As lágrimas embaçam a visão do amor
Portanto, não parta meu coração.
Não quero que minha falta lhe cause dor
******************************************************
Uma criança solitária e sofrida
Segue em seu torpor, ausente.
Olhos famintos e mãos estendidas,
Implorando clemência: Oh! Gente.
Seus apelos seguem, e sem resposta ficou.
Ele clama por um gesto salvador.
Mãe! Por que me abandonou?
Com passadas sinuosas; uma moeda, por favor,
Segue em direção a um horizonte temível
Onde muitos caíram anteriormente
Inocente para entender o destino terrível,
Que lhe fora imposto, inclemente.
Chega a um o ponto, talvez o final.
Onde sente que a decisão se faz mister.
Sucumbir também, que seria natural.
Ou voltar-se e lutar por um meio qualquer.
Então se sentindo poderoso
Ao perceber o medo imposto
Pela roupa esfarrapada e sujo rosto
Um lampejo tenebroso
Aponta-lhe a solução
Junto a um pescoço temeroso
Em um sinal que não abria
Um caco de garrafa na mão
Um inocente “A BOLSA TIA!...”.

******************************************************
DIVINAEXPLICAÇÃO
Às vezes Eu com Minha infinita paciência
Imagino até quando terei que responder
Às mesmas indagações:
- “Por que me fizeste negro?”.
Se negro é cor de roupa suja,
Asfalto onde se pisa,
Olho contundido
Mãos encardidas,
Sujeira,
Escuridão.
Se negro é o medo que consome a mente,
A morte que procura uma vítima,
O mundo dos criminosos,
Os olhos de uma pessoa cega,
A chama de guerra,
O fim do dia.”“.
- “Por que tenho lábios grossos”,
Cabelos crespos,
Nariz largo,
Ossos espessos,
Bochechas altas,
Quadris grandes.”“.
- “Por que Você me criou”.
Sabendo que muitos teriam contra mim
Olhares curiosos e reprovadores,
Ódios inexplicáveis,
A identidade do inútil
A facilidade de ser usado
A fragilidade para ser abusado
A culpa até prova em contrário
(e às vezes não basta).
“Por que Você não refaz a Criação”,
Não iguala todo o mundo,
Não uniformiza as mentes,
Ou então determina:
- Já que o muito pensa diferente,
De agora em diante,
O negro vai ser gente? “
- EM VERDADE EU LHE DIGO:
Por que Lhe fiz Negro?
Dobre seus joelhos e
Reflita
Eu o criei semelhante a Mim
Não o fiz a imagem da escuridão
O negro da sua cor
É a mesma do carvão
Que forma os mais perfeitos diamantes
Do óleo que mantém e aquece
Seus semelhantes
Do majestoso e preto garanhão
Da terra rica e escura
Que cultiva a comida da nação.
Você é a cor de céu de meia-noite.
E Eu pus o resplendor das estrelas em seu olhos
Seu cabelo tem textura da lã do cordeiro,
De cuja criatura vem sua humildade
E Eu sou o Pastor que o assiste.
O único acima de você.
Há um sorriso escondido atrás de sua dor.
Por isso suas bochechas são tão altas.
Você é a cor de nuvens escuras formadas,
Quando envio Meu temporal.
Seus lábios cheios beijarão
A quem você ama
Com tal paixão
Que jamais esquecerão
E sua voz? Sua força? Sua fertilidade?
Quem para Mim canta mais bonito,
Mais tempo resiste para Me servir
E me dá mais filhos do que você?
Seu osso espesso e estrutura forte
O faz resistir os fardos do tempo
E a precocidade morte.
No início, todas as cores do arco-íris
Estavam misturadas
E você se tornou a MINHA MAIOR CRIAÇÃO
Olhe-se na superfície de um límpido lago
A imagem que verá lhe fitando
É A MINHA!
******************************************************
NOSSO LIVRO
Nosso Livro?
Ah! Este o incompreendido!
Pouco lido
Destruído
No canto esquecido
Mas não fora este baluarte da Humanidade
Impossível repassar informes de verdade
Laboriosamente acumulados
Que se na memória conservados
Seriam deturpados
E nada perpetuado
Sua falta traduz fase primitiva,
Estado selvagem da autocracia destrutiva
De minoria dominante compulsiva
Heróico, pragmático;
Rompe a barreira da estrutura dogmática
Prerrogativa do clero e da nobreza hierárquica
Abrindo o horizonte da contestação
E iluminando a possibilidade da argumentação
Ditaduras o perseguem, queimam-no e na seqüência,
Um retorno à condição de subserviência,
Degradação filosófica e cultural demência,
Quando em manifestação oral
Coletiva em atmosfera bestial
Com tochas, bandeiras e cantos sem igual,
Ouve-se o mandatário vociferar veementemente
Persuasivas frases que a multidão repete freneticamente.
Numa idolatria ao deus pagão inconseqüente
Assim não era o Nazismo?
O Fascismo?
Todavia nosso herói resiste
E em riste
Norteia o leitor em formas de sinais ordenados
Que em prodigiosa mente são decodificados
E em conceito pessoal da crítica metabolizados
Sós
Livres do orador
Livro e leitor
Podem se entender
Apenas este decide o que absorver
E dos líderes a idéia poderá Ter
Porém O mais antigo
O mais amigo
Que a PAZ
Nos trás
É pouco lido
E quando lido
Entendido?
Quase sempre não.
Então
Destruído
Ou no canto esquecido!
******************************************************
TRINTA CENTÉSIMOS
Defenestrado que fui da minha querida instituição
Por uns míseros TRINTA CENTÉSIMOS
Reflito e logo me reporto Àquele
Que por TRINTA moedas foi crucificado.
Não que tenha pretensão de me equiparar a Ele
Mas por saber que minha decepção,
Perante a Sua é nada,
Com o "homo-sapiens-rex-barrigarum"
Sapiens?
Que crime teria eu praticado
Para que me atingisse seu punhal
Com tal fúria que não se permitiu
Uma reflexão sobre meu potencial de labor?
Demonstração de poder?
Detenção do conhecimento?
Motivações inconfessas?
Prepotência da isenção?
Foi aí que Pilatos lavou as mãos.
O filósofo Dithay diria:
“Pode Ter fruído secretamente”.
Os recônditos prazeres
De pervertidas razões “.
Não é o fato, pois se é vivo, pode ser morto.
Mas a maneira
Matreira
Rasteira
Da bestialógica decisão
De me fazer exemplo de pseudo-retidão
Qual touro que não é aniquilado
Pelo sádico toureiro no primeiro combate,
Posto que tem as armas,
Também me foi deixado, extenuado,
Para Satisfazer a sanha do sanguinário matador
Nos TRINTA segundos finais
Mas como Ele fez com Lázaro, creio,
Se merecimento tiver, para me fazer voltar,
Poderá usar da unidade de tempo apenas TRINTACENTÉSIMOS
******************************************************
AOS COLEGAS DA SOTEM
Partir
De coração partido
Deixando partes
Em cada parte
Do espaço que me viu
Para a vida amadurecer
É como ir, sem querer.
Como sair
Sem concluir
O que de bom poderia fazer
Aqui fui feliz
No que de respeito me diz
Usei meu labor e desprendimento
Na emergência do empreendimento
Contudo
Nada se pode com os elvagem capitalismo então
Que em nome da globalização
De tudo
Apossa-se, e até da Nação.
Quem somos nós então
Pobres trabalhadores
Para quem só restam as dores
E a atroz desilusão.
Todavia
Sob amargura e infelicidade
Surgiu, gloriosa, a nossa amizade.
E, deixar de ser não poderia
É dela que sentirei saudade.
Definido não é o adeus.
SÓ TEM vida quem tem esperança
SÓ TEM esperança quem tem fé
SÓ TEM fé quem tem DEUS
Logo
SOTEM
Até logo
******************************************************
Há tempos que não te vejo!
Quanto tempo...
É, o tempo passa.
E a vida continua...
Ou não passa?
Dobson tinha razão
"Nós é que passamos"
Em 1921 ele se foi
E o tempo ficou
Muita polêmica causando
Passando ou não passando?
Se passa, voa.
Se não passa, pára.
Não existe meio termo.
Com a verdade se depara:
Suficiente nunca o tem
É mensurável?
Depende;
Para a mãe ansiosa
O quanto se alonga nove meses?
E para aquele à morte condenado,
Quão rápidos trinta anos terão passado?
Está diminuindo ou aumentando
Nosso tempo?
Depende do padrão;
Se este for os primórdios do tempo
Diminuindo
Em se tratando do tempo próximo passado,
Aumentando
De polêmica definição
Desde Newton com o absolutismo
Velocidade infinita, instantânea propagação
Até de Einstein o relativismo
Em função da Terra,
Tempo solar maior
Tempo anomalístico e
Tempo sideral menor,
Sucessão de momentos
Duração das coisas
Período, época;
Atmosférico estado
Ensejo, ocasião, compasso
Ação, estado, fenômeno
Tempo de salga, de semear
Tempo de colher, tempo de cruza
Tempo pra rir, tempo pra chorar
Tempo remoto enfim
Tempo de arraia, de pião, de gude
Tempo dos Afonsinhos (esse é do tempo do onça)
Tempo quente, tempo bom, tempo ruim
Penso matar o tempo
Mas ele não morre
Tento fechar o tempo
Só fecha quando ele quer
Tempo é dinheiro, se discorre,
Mas só pára mesmo se estamos
Nos braços de uma mulher.
Por horas a fio (que é tempo) ficaria
E do cansaço me desprenderia
Para o tempo declinar
E do fim dos tempos discordar
Sem falar de derivados então
Temporal, temporão
Temporário, temporização
Porém já tendo ultrapassado
O que me foi estabelecido
Intempestivamente ecoou
A voz do professor aborrecido:
- Estudante, seu TEMPO ACABOU!
******************************************************
NOITE LOUCA
Noite louca
Ela rouca,
Ronca
Como poucas,
Dorme de touca
Quase me abraça
Sem graça
Uma farsa
Nem vê a desgraça
Em frente, na praça
Jovens drogados
Endiabrados
Extasiados
Ante o mendigo queimado
Logo ligo
Não ligam
Desligo
Maldigo
Temeroso, não grito
Insanos, gritam
Não desisto
E simulo um apito
A turba se desfaz
Sem olhar para trás
Tarde demais
A morte se faz
Motos e ela roncam
Roucas
Como poucas
NESSA NOITE LOUCA!
******************************************************
FRACASSO HUMANO
Quando estás longe de mim ...
Para aninhar-me contigo
Não consigo rasgar o vento
Com minhas asas de grande envergadura
Para roçar-me em tua lisa pele
Não atravesso os mares
Com minhas possantes nadadeiras
Para apoiar-me no teu belo dorso
Não posso atravessar montanhas e pradarias
Com o meu trotar elegante:
Das duas, uma:
Fizeram-me humano porque sou um fracasso
Ou sou um fracasso porque me fizeram humano.
******************************************************
AS PEQUENASCOISAS
As pequenas coisas
Que parecem nada
Que não são percebidas
Ou não são notadas
Constituem imensa riqueza
Às vezes desperdiçada
Possuem incontida beleza
Muito pouco apreciada
Uma palavra silenciosa
Um sorriso, um olhar
Um ouvido a escutar
Uma mão a afagar
Um ninar murmurante
Uma prece no pensamento
Em agradecimento constante
Do que temos nesses momentos
As pequenas coisas
São como um grito mudo
Que pode não parecer nada
Mas, às vezes, é a razão de tudo
***************************************
Um destacamento
fortemente armado
Adentrou nosso bairro sem avisar
À caça de alguém denunciado
No lugar onde costumamos brincar,
Meu amigo Tião e eu
De pipas cortadas a pegar
Uma linda, logo ao vento apareceu
E imitando potro que esquipa,
Com olhar fixado no céu
Corremos atrás dessa pipa
Eu e meu amigo Tião
Que na mão levava uma ripa
" É dono quem pegar, preste atenção,
Já esta tudo bem acertado"
Disse meu amigo Tião
Militares despreparados,
O marginal vem procurando,
E meu amigo Tião despreocupado
Salta o muro gritando:
" Peguei já tá na minha mão! "
Policiais chegam atirando
Um corpo inerte no chão
Após a rajada mais forte
Era do meu amigo Tião
Qual soldado ferido de morte
Abraçado à bandeira singela
Nunca vi tão pouca sorte
Nem ironia como aquela
Na pipa, uma pintura de porte
Nas cores VERDE e AMARELA
***************************************
Oh! quanto é semelhante e simples
Ver Gil cantando
Verger declamando
França, África, Bahia.
Cae, o homem,
E de Haya o Águia,
Enfeitiçando as palavras,
Transporta-nos para o estado
Alfa, Beta-Betânia, a luz.
Ela é Gal
Ser divina como ela é,
Ilegal é não amá-la.
E o Amado Cavaleiro da Lua
Em seus períodos iluminados
Nos traduz a complexidade do simples
A Menina Menininha
Tão doce quanto a Dulce
Nos olhando da Colina e
Cobrindo a cidade
Com o Grande
Pano Branco
Do Ghandi
Pacifica nossa mente.
O Poeta em sua praça
Invocando os versos do passado
Ainda estende a mão
Ao servo herdado.
Sim, uma Simples Bahia
Todavia
Uma Bahia de Todos os Santos
*********************************
João ou Maria
Seu choro de chegada
É nossa alegria
Ninguém sabe que esse pranto
É um protesto pela troca de vidas
Da sua,
tranqüila e serena
Por outra, cheia de problemas
Não se preocupe com isso
Nós estamos aqui para ensinar
Que a nossa, é uma vida difícil
Mas você, pode melhorar
Sei que tudo daria
Para ouvir esse choro
Com tanta alegria
***************************************
Vejo quando a nuvem vai passando
Pelos alísios tangidas
O teu corpo vai esboçando
Tal qual você, fingida
Primando na aveludada tez
Em movimentos delicados
E sempre na mesma avidez
De esconder o pecado
Do seu corpo escultural
Parte de cada parte vai compondo
No seu rosto angelical
A malícia vai disfarçando
Juntando tudo, o belo esconde o mal
Que continuamente medra
Um corpo lindo e tão sensual
Com um coração de pedra