HOMERONALDO CAVALCANTE
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POEMAS EXTRAIDOS DO LIVRO
"GRITOS CONTIDOS"


NÃO PRECISO VIAJAR...

PRECISAMOS DE ATENÇÃO

NOVO MILÊNIO...

AMOR E OLODUM

SERIA DEUS HUMANO?

SE UM DIA VOCÊ SE FOR...

VOCÊ PODE SER HUMANO

CAUSA E EFEITO

INOCENTE

DIVINA EXPLICAÇÃO

NOSSO LIVRO

TRINTA CENTÉSIMOS

AOS COLEGAS DA SOTEM

TEMPO

NOITE LOUCA

FRACASSO HUMANO

AS PEQUENAS COISAS

MEU AMIGO TIÃO

SIMPLES BAHIA

JOÃO OU MARIA

A NUVEM E A PEDRA

 




 

 

 

 

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NÃO PRECISOVIAJAR...

Não preciso viajar

para ver luzes coloridas

e milhares de lumens

a piscar em movimentos frenéticos,

pois todos os dias ,

tenho a beleza do arco íris , o pôr-do-sol

e a cintilante e singela luz do vaga-lume

para admirar.

 

Não preciso viajar

para encontrar a falsa força

que me permita executar

o que me supus fraco,

porque, para existir,

mostrei a uma frágil flor

o poder até então por ela desconhecido

para a continuidade do ser.

 

Não preciso viajar

para esquecer o que entendo

de abandono ou deficiência,

uma vez que para alguns,

foi Divinamente emprestado

a capacidade de sozinho

àqueles superar

e a esta repassar.

 

Nada esquecerei, se viajo.

Na volta, as lembranças se avolumam.

Porém se continuo a viajem,

Sei que posso não mais VOLTAR...

E se não volto pra contar,

DE QUE VALEU VIAJAR ???...

INÍCIO

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PRECISAMOSDE ATENÇÃO

 

Quando a violência explode assim

Causando destruição

De vidas humanas sem ter fim

PRECISAMOS DE ATENÇÃO !

 

Poucos fortes atrás do poder

Muitos fracos matam em vão

Justiça: não podemos mais crer

PRECISAMOS DE ATENÇÃO!

 

Até quem sustentamos

Pra nos proteger

Às vezes é o nosso algoz

Eu sei, pouco é;

Queremos de alguém

Que ouça o clamar de nossa voz

 

Nossa mente não pode aprender

Nem trabalhar nossas mãos

Para se manter, querem nos ter!

SÓ PRECISAMOS DE ATENÇÃO!

INÍCIO

 

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NOVO MILÊNIO...

 

Incompreensíveis dias...

Novo milênio, contradições mil.

Avanço das ciências

Grandes invenções

Perversa desigualdade

Criminosa fome...

 

Difusão da ciência

Teia de conhecimento

Globalização

Milhões que nada sabem.

 

Satélites, lasers, comunicações!

Atingem os astros

Mas incapazes de

Vencer a pequena distância

Até os figurantes...

 

INÍCIO

 

 

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AMOR E OLODUM

 

 

Nas suas frias cartas

Você me destrata

Não tem compaixão.

Ainda me maltrata

Diz que me descarta

Parece sem coração.

 

Sem nenhuma candura

Critica minha cultura

Diz-me um ser sem visão.

Despreza minha ternura

Diz que sou criatura

Sem nenhuma ambição.

 

Chama-me de batuqueiro

Porque sou do Olodum.

Do alto do seu doutorado

Diz que não sendo letrado

Não tenho valor nenhum

 

Mas a vida é engraçada

Pois você fica desesperada

Esperando em seu carrão

O final do ensaio na quadra

Para em meus braços apertada

Gemer em frenesi de paixão

 

Mulata exibicionista!

Eu sou é percussionista

Das linhagens, a mais pura.

Meu trabalho é de artista

Do saber sou altruísta

E OLODUM TAMBÉM É CULTURA!

INÍCIO

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SERIA DEUS HUMANO?

 

E se todo homem que você encontrasse fosse Deus?

Como seria então?

Você se surpreenderia?

Você saberia?

 

Como seria se Deus esquecesse dos ateus

E fosse Se procurar dentro da Sua própria criação?

Onde Ele se encontraria?

 

E se fosse você Deus?

Por exemplo, o que diria sobre a morte?

Você acha que Ele a modificaria?

Eu o faria, se fosse Ele.

 

E se Deus ficasse chateado?

Ele vagaria ao redor de uma geleira ou de uma nuvem?

O que aconteceria se Ele perdesse a hora algum dia?

Ele trovejaria contra o céu e deixaria todo o mundo saber?

 

E se algo Nele estivesse doendo?

Ele conhece a dor, pois a criou.

E quando Ele estivesse bravo?

Iria Seu grito ecoar pelos céus e nos colocaria de castigo?

E se Ele odiasse? O que faria um deus com ódio?

 

Ou tivesse um ressentimento?

Iria Ele fechar a cara e se recusar a falar?

Com quem se diverte Ele e de que maneira?

Se Ele quisesse se isolar aonde iria?

 

O que se diria de um deus temeroso?

Um deus que não fosse um deus pelo menos um dia?

Ou um deus índio, analfabeto, negro, mendigo, deficiente, pobre?

Ainda sim seria DEUS?

E SE TODO HOMEM QUE VOCÊ ENCONTRASSE FOSSE DEUS?

 

INÍCIO

 

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SE UM DIA VOCÊ SE FOR...

 

Quando o sol da primavera lhe acordar

E a leve brisa invadir sua janela

Carregando consigo o perfume das flores

Pense em mim

 

Neste mesmo momento estarei em algum lugar

Sob o mesmo céu

Inalando o perfume de uma ROSA ainda em botão

Pensando em você.

 

Quando os dias longos e as noites quenteschegarem

Trazendo o verão que logo bronzeará sua pele

Pense em mim

 

Neste mesmo momento estarei em algum lugar

Sobre a mesma areia

Andando a esmo na beira da praia

Pensando em você

 

Quando as folhas de outono começarem a cair

Trazendo o cheiro característico do ar envolvente

Pense em mim

 

Neste mesmo momento estarei em algum lugar

No ponto mais alto do mesmo parque

Sentindo o vento forte deformar meu rosto

Pensando em você

 

Quando os ventos frios do inverno começarem assoprar

Fazendo-a acolher-se em seu quarto aquecido

Pense em mim

 

Neste mesmo momento estarei em algum lugar

Lá fora, à beira de um fogo qualquer, em noite de Santa ANA.

Lembrando como eram as coisas entre nós,

Tentando esquecer como poderia ter sido,

MAS PENSANDO EM VOCÊ!

INÍCIO

 

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VOCÊ PODE SERHUMANO

 

Há uma possibilidade de você se sentir um ser humano:

SE Vir tranqüilidade e paz em um mundo que talvez não entenda

SE As dores sentidas e conflitos experimentados lhe derem força para enfrentar cada nova situação com coragem e otimismo

SE Tiver certeza de que aqueles a quem amae starão sempre lá mesmo quando você se sentir irremediavelmente só

SE Descobrir que há bastante bondade no próximo capaz de acreditar em um mundo de paz

SE Uma palavra amiga, um gesto terno, um sorriso amável sejam os presentes trocados diariamente entre você e os seus semelhantes.

SE Você fixar sua esperança na aurora quando à noite lhe parecer interminável

SE Puder ensinar amor para aqueles que odeiam

SE Souber contar sempre com os ensinamentos daqueles a quem você admira

SE Você se lembrar que aqueles a quem tocou ou tocaram você serão sempre parte da sua vida mesmo que os reencontros não sejam tão freqüentes como gostaria.

SE Acreditar que a bondade é mais valorosa que os ganhos materiais

SE Compreender que se é mais forte quando não se usa a força que tem

SE Encontrar tempo para admirar, a cada dia, a beleza do mundo.

SE Perceber que as pessoas têm habilidades ilimitadas e cada uma a seu próprio modo

SE Entender que o que você sente falta no presente pode lhe sobrar no futuro

SE Vir possibilidades no seu futuro

SE Tudo que você passou lhe serviu de experiência que valeu a pena

SE Achar você mesmo a sua beleza interior independente de qualquer julgamento exterior

Enfim, se você se SENTIR sempre AMADO.

INÍCIO

 

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CAUSA E EFEITO

 

Se me arranca pétala por pétala

Terá apenas um talo com espinhos.

Se me cortas as asas e me assiste cair

Não poderei voar até você do ninho

 

Se sempre me desfolha toda a copa

Frutos não posso mais lhe fornecer

Se me chutas quando me deito aos seus pés

Como abanarei a cauda ao lhe ver?

 

Um coração partido é um corpo que em vão

Tenta se mover, pois está cheio de dor.

O gelo entorpece o toque da paixão.

 

As lágrimas embaçam a visão do amor

Portanto, não parta meu coração.

Não quero que minha falta lhe cause dor

INÍCIO

 

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INOCENTE

 

Uma criança solitária e sofrida

Segue em seu torpor, ausente.

Olhos famintos e mãos estendidas,

Implorando clemência: Oh! Gente.

 

Seus apelos seguem, e sem resposta ficou.

Ele clama por um gesto salvador.

Mãe! Por que me abandonou?

Com passadas sinuosas; uma moeda, por favor,

 

Segue em direção a um horizonte temível

Onde muitos caíram anteriormente

Inocente para entender o destino terrível,

Que lhe fora imposto, inclemente.

 

Chega a um o ponto, talvez o final.

Onde sente que a decisão se faz mister.

Sucumbir também, que seria natural.

Ou voltar-se e lutar por um meio qualquer.

 

Então se sentindo poderoso

Ao perceber o medo imposto

Pela roupa esfarrapada e sujo rosto

 

Um lampejo tenebroso

Aponta-lhe a solução

Junto a um pescoço temeroso

Em um sinal que não abria

Um caco de garrafa na mão

Um inocente “A BOLSA TIA!...”.

 

INÍCIO

 

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DIVINAEXPLICAÇÃO

 

Às vezes Eu com Minha infinita paciência

Imagino até quando terei que responder

Às mesmas indagações:

- “Por que me fizeste negro?”.

Se negro é cor de roupa suja,

Asfalto onde se pisa,

Olho contundido

Mãos encardidas,

Sujeira,

Escuridão.

Se negro é o medo que consome a mente,

A morte que procura uma vítima,

O mundo dos criminosos,

Os olhos de uma pessoa cega,

A chama de guerra,

O fim do dia.”“.

- “Por que tenho lábios grossos”,

Cabelos crespos,

Nariz largo,

Ossos espessos,

Bochechas altas,

Quadris grandes.”“.

- “Por que Você me criou”.

Sabendo que muitos teriam contra mim

Olhares curiosos e reprovadores,

Ódios inexplicáveis,

A identidade do inútil

A facilidade de ser usado

A fragilidade para ser abusado

A culpa até prova em contrário

(e às vezes não basta).

“Por que Você não refaz a Criação”,

Não iguala todo o mundo,

Não uniformiza as mentes,

Ou então determina:

- Já que o muito pensa diferente,

De agora em diante,

O negro vai ser gente? “

 

- EM VERDADE EU LHE DIGO:

Por que Lhe fiz Negro?

Dobre seus joelhos e

Reflita

 

Eu o criei semelhante a Mim

Não o fiz a imagem da escuridão

O negro da sua cor

É a mesma do carvão

Que forma os mais perfeitos diamantes

Do óleo que mantém e aquece

Seus semelhantes

Do majestoso e preto garanhão

Da terra rica e escura

Que cultiva a comida da nação.

Você é a cor de céu de meia-noite.

E Eu pus o resplendor das estrelas em seu olhos

Seu cabelo tem textura da lã do cordeiro,

De cuja criatura vem sua humildade

E Eu sou o Pastor que o assiste.

O único acima de você.

Há um sorriso escondido atrás de sua dor.

Por isso suas bochechas são tão altas.

Você é a cor de nuvens escuras formadas,

Quando envio Meu temporal.

Seus lábios cheios beijarão

A quem você ama

Com tal paixão

Que jamais esquecerão

E sua voz? Sua força? Sua fertilidade?

Quem para Mim canta mais bonito,

Mais tempo resiste para Me servir

E me dá mais filhos do que você?

Seu osso espesso e estrutura forte

O faz resistir os fardos do tempo

E a precocidade morte.

No início, todas as cores do arco-íris

Estavam misturadas

E você se tornou a MINHA MAIOR CRIAÇÃO

Olhe-se na superfície de um límpido lago

A imagem que verá lhe fitando

É A MINHA!

INÍCIO

 

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NOSSO LIVRO

 

Nosso Livro?

Ah! Este o incompreendido!

Pouco lido

Destruído

No canto esquecido

 

Mas não fora este baluarte da Humanidade

Impossível repassar informes de verdade

Laboriosamente acumulados

Que se na memória conservados

Seriam deturpados

E nada perpetuado

 

Sua falta traduz fase primitiva,

Estado selvagem da autocracia destrutiva

De minoria dominante compulsiva

 

Heróico, pragmático;

Rompe a barreira da estrutura dogmática

Prerrogativa do clero e da nobreza hierárquica

 

Abrindo o horizonte da contestação

E iluminando a possibilidade da argumentação

 

Ditaduras o perseguem, queimam-no e na seqüência,

Um retorno à condição de subserviência,

Degradação filosófica e cultural demência,

 

Quando em manifestação oral

Coletiva em atmosfera bestial

Com tochas, bandeiras e cantos sem igual,

 

Ouve-se o mandatário vociferar veementemente

Persuasivas frases que a multidão repete freneticamente.

Numa idolatria ao deus pagão inconseqüente

 

Assim não era o Nazismo?

O Fascismo?

 

Todavia nosso herói resiste

E em riste

 

Norteia o leitor em formas de sinais ordenados

Que em prodigiosa mente são decodificados

E em conceito pessoal da crítica metabolizados

 

Sós

Livres do orador

Livro e leitor

Podem se entender

Apenas este decide o que absorver

E dos líderes a idéia poderá Ter

 

Porém O mais antigo

O mais amigo

Que a PAZ

Nos trás

É pouco lido

E quando lido

Entendido?

Quase sempre não.

Então

Destruído

Ou no canto esquecido!

INÍCIO

 

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TRINTA CENTÉSIMOS

 

Defenestrado que fui da minha querida instituição

Por uns míseros TRINTA CENTÉSIMOS

Reflito e logo me reporto Àquele

Que por TRINTA moedas foi crucificado.

Não que tenha pretensão de me equiparar a Ele

Mas por saber que minha decepção,

Perante a Sua é nada,

Com o "homo-sapiens-rex-barrigarum"

Sapiens?

Que crime teria eu praticado

Para que me atingisse seu punhal

Com tal fúria que não se permitiu

Uma reflexão sobre meu potencial de labor?

Demonstração de poder?

Detenção do conhecimento?

Motivações inconfessas?

Prepotência da isenção?

Foi aí que Pilatos lavou as mãos.

O filósofo Dithay diria:

“Pode Ter fruído secretamente”.

Os recônditos prazeres

De pervertidas razões “.

Não é o fato, pois se é vivo, pode ser morto.

Mas a maneira

Matreira

Rasteira

Da bestialógica decisão

De me fazer exemplo de pseudo-retidão

Qual touro que não é aniquilado

Pelo sádico toureiro no primeiro combate,

Posto que tem as armas,

Também me foi deixado, extenuado,

Para Satisfazer a sanha do sanguinário matador

Nos TRINTA segundos finais

Mas como Ele fez com Lázaro, creio,

Se merecimento tiver, para me fazer voltar,

Poderá usar da unidade de tempo apenas TRINTACENTÉSIMOS

INÍCIO

 

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AOS COLEGAS DA SOTEM

 

Partir

De coração partido

Deixando partes

Em cada parte

Do espaço que me viu

Para a vida amadurecer

É como ir, sem querer.

Como sair

Sem concluir

O que de bom poderia fazer

Aqui fui feliz

No que de respeito me diz

Usei meu labor e desprendimento

Na emergência do empreendimento

Contudo

Nada se pode com os elvagem capitalismo então

Que em nome da globalização

De tudo

Apossa-se, e até da Nação.

Quem somos nós então

Pobres trabalhadores

Para quem só restam as dores

E a atroz desilusão.

Todavia

Sob amargura e infelicidade

Surgiu, gloriosa, a nossa amizade.

E, deixar de ser não poderia

É dela que sentirei saudade.

Definido não é o adeus.

SÓ TEM vida quem tem esperança

SÓ TEM esperança quem tem fé

SÓ TEM fé quem tem DEUS

Logo

SOTEM

Até logo

 

INÍCIO

 

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TEMPO

 

Há tempos que não te vejo!

Quanto tempo...

É, o tempo passa.

E a vida continua...

Ou não passa?

 

Dobson tinha razão

"Nós é que passamos"

Em 1921 ele se foi

E o tempo ficou

Muita polêmica causando

Passando ou não passando?

 

Se passa, voa.

Se não passa, pára.

Não existe meio termo.

Com a verdade se depara:

Suficiente nunca o tem

 

É mensurável?

Depende;

Para a mãe ansiosa

O quanto se alonga nove meses?

E para aquele à morte condenado,

Quão rápidos trinta anos terão passado?

 

Está diminuindo ou aumentando

Nosso tempo?

Depende do padrão;

Se este for os primórdios do tempo

Diminuindo

Em se tratando do tempo próximo passado,

Aumentando

 

De polêmica definição

Desde Newton com o absolutismo

Velocidade infinita, instantânea propagação

Até de Einstein o relativismo

 

Em função da Terra,

Tempo solar maior

Tempo anomalístico e

Tempo sideral menor,

 

Sucessão de momentos

Duração das coisas

Período, época;

Atmosférico estado

Ensejo, ocasião, compasso

Ação, estado, fenômeno

 

Tempo de salga, de semear

Tempo de colher, tempo de cruza

Tempo pra rir, tempo pra chorar

Tempo remoto enfim

 

Tempo de arraia, de pião, de gude

Tempo dos Afonsinhos (esse é do tempo do onça)

Tempo quente, tempo bom, tempo ruim

 

Penso matar o tempo

Mas ele não morre

Tento fechar o tempo

Só fecha quando ele quer

Tempo é dinheiro, se discorre,

Mas só pára mesmo se estamos

Nos braços de uma mulher.

 

Por horas a fio (que é tempo) ficaria

E do cansaço me desprenderia

Para o tempo declinar

E do fim dos tempos discordar

Sem falar de derivados então

Temporal, temporão

Temporário, temporização

Porém já tendo ultrapassado

O que me foi estabelecido

Intempestivamente ecoou

A voz do professor aborrecido:

- Estudante, seu TEMPO ACABOU!

INÍCIO

 

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NOITE LOUCA

 

Noite louca

Ela rouca,

Ronca

Como poucas,

Dorme de touca

 

Quase me abraça

Sem graça

Uma farsa

Nem vê a desgraça

Em frente, na praça

 

Jovens drogados

Endiabrados

Extasiados

Ante o mendigo queimado

 

Logo ligo

Não ligam

Desligo

Maldigo

 

Temeroso, não grito

Insanos, gritam

Não desisto

E simulo um apito

 

A turba se desfaz

Sem olhar para trás

Tarde demais

A morte se faz

 

Motos e ela roncam

Roucas

Como poucas

NESSA NOITE LOUCA!

INÍCIO

 

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FRACASSO HUMANO

 

Quando estás longe de mim ...

Para aninhar-me contigo

Não consigo rasgar o vento

Com minhas asas de grande envergadura

 

Para roçar-me em tua lisa pele

Não atravesso os mares

Com minhas possantes nadadeiras

 

Para apoiar-me no teu belo dorso

Não posso atravessar montanhas e pradarias

Com o meu trotar elegante:

 

Das duas, uma:

Fizeram-me humano porque sou um fracasso

Ou sou um fracasso porque me fizeram humano.

INÍCIO

 

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AS PEQUENASCOISAS

 

As pequenas coisas

Que parecem nada

Que não são percebidas

Ou não são notadas

Constituem imensa riqueza

Às vezes desperdiçada

Possuem incontida beleza

Muito pouco apreciada

 

Uma palavra silenciosa

Um sorriso, um olhar

Um ouvido a escutar

Uma mão a afagar

 

Um ninar murmurante

Uma prece no pensamento

Em agradecimento constante

Do que temos nesses momentos

 

As pequenas coisas

São como um grito mudo

Que pode não parecer nada

Mas, às vezes, é a razão de tudo

INÍCIO

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MEU AMIGO TIÃO

Um destacamento fortemente armado
Adentrou nosso bairro sem avisar
À caça de alguém denunciado

No lugar onde costumamos brincar,
Meu amigo Tião e eu
De pipas cortadas a pegar

Uma linda, logo ao vento apareceu
E imitando potro que esquipa,
Com olhar fixado no céu

Corremos atrás dessa pipa
Eu e meu amigo Tião
Que na mão levava uma ripa

" É dono quem pegar, preste atenção,
Já esta tudo bem acertado"
Disse meu amigo Tião

Militares despreparados,
O marginal vem procurando,
E meu amigo Tião despreocupado

Salta o muro gritando:
" Peguei já tá na minha mão! "
Policiais chegam atirando

Um corpo inerte no chão
Após a rajada mais forte
Era do meu amigo Tião

Qual soldado ferido de morte
Abraçado à bandeira singela
Nunca vi tão pouca sorte

Nem ironia como aquela
Na pipa, uma pintura de porte
Nas cores VERDE e AMARELA

INÍCIO

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SIMPLES BAHIA

 

Oh! quanto é semelhante e simples

Ver Gil cantando

Verger declamando

França, África, Bahia.

 

Cae, o homem,

E de Haya o Águia,

Enfeitiçando as palavras,

Transporta-nos para o estado

Alfa, Beta-Betânia, a luz.

 

Ela é Gal

Ser divina como ela é,

Ilegal é não amá-la.

E o Amado Cavaleiro da Lua

Em seus períodos iluminados

Nos traduz a complexidade do simples

 

A Menina Menininha

Tão doce quanto a Dulce

Nos olhando da Colina e

Cobrindo a cidade

Com o Grande

Pano Branco

Do Ghandi

Pacifica nossa mente.

 

O Poeta em sua praça

Invocando os versos do passado

Ainda estende a mão

Ao servo herdado.

 

Sim, uma Simples Bahia

Todavia

Uma Bahia de Todos os Santos

INÍCIO

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JOÃO OU MARIA

 

 

João ou Maria

Seu choro de chegada

É nossa alegria

 

Ninguém sabe que esse pranto

É um protesto pela troca de vidas

Da sua,  tranqüila  e serena

Por outra, cheia de problemas

 

Não se preocupe com isso

Nós estamos aqui para ensinar

Que a nossa, é uma vida difícil

Mas você, pode melhorar

 

Sei que tudo daria

Para ouvir esse choro

Com tanta alegria

INÍCIO

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A NUVEM E A PEDRA

 

Vejo quando a nuvem vai passando

Pelos alísios tangidas

O teu corpo vai esboçando

Tal qual você, fingida

 

Primando na aveludada tez

Em movimentos delicados

E sempre na mesma avidez

De esconder o pecado

 

Do seu corpo escultural

Parte de cada parte vai compondo

No seu rosto angelical

A malícia vai disfarçando

 

Juntando tudo, o belo esconde o mal

Que continuamente medra

Um corpo lindo e tão sensual

Com um coração de pedra

 

 

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