O Coelho M�gico
(Ronaldo Cavalcante)
  Nortista, vinte anos, tr�s anos ap�s a conclus�o do n�vel m�dio, Paulo desistiu da terceira tentativa de passar no vestibular de jornalismo ou comunica��o (seu sonho dourado) e foi tentar a sorte no nordeste. Algo inusitado, uma vez que era de praxe os da sua idade seguir para S�o Paulo como faziam todos os retirantes de l�. Tamb�m o havia prometido seu pai - �quando tu cresceres te levo pra l� - que faleceu sem conseguir tal intento.

     Em sua terra natal era consuetudin�rio leitor de Drummond, Machado, os Andrade, Euclides e outros baluartes da literatura. Por isso vivia encafifado com o rumo que tomava a Academia Brasileira de Letras, a partir da admiss�o de corpos estranhos naquela conceituada casa liter�ria. Achava um absurdo Drummond, Quintana, Lispector, Meireles, Mario e Oswald de Andrade e Braga n�o figurarem entre os imortais e sim esses vivos quase mortos recentemente adentrados (goela abaixo, diria.).

     Era um ativista do tipo velhos tempos da UNE, uma esp�cie de defensor do �petr�leo � nosso� das letras e n�o concordava que um general de harpa em punho pudesse invadir os port�es daquele sacrossanto pal�cio, nada tendo o dupla-farda ali escrito e sim, AI (o quinto). Muito menos admitia que um bigodudo rodeado de maribondos em chamas e outros bichos esdr�xulos pudessem freq�entar aquelas reuni�es na t�vola do castelo que tanto idolatrava. At� que a esposa do escritor (in memoriam) ele aceitou bem.  Entretanto nunca aceitou o fato de Quintana, o primeiro a traduzir Proust, Woolf ser por tr�s vezes obstru�do - �Todos esses que a� est�o\Atravancando o meu caminho, \Eles passar�o... \Eu passarinho!" (tinha essa frase como seu grito de guerra).

     Um texto escrito em dezembro de 1987 jamais lhe sa�ra da cabe�a: "a academia, trabalhando pelo conhecimento [...], buscar� ser, com tempo, a guarda da nossa l�ngua. caber-lhe-� ent�o defend�-la daquilo que n�o venha das fontes leg�timas, - o povo e os escritores, - n�o confundindo a moda, que perece, com o moderno, que vivifica. guardar n�o � impor; nenhum de v�s tem para si que a academia decrete f�rmulas. e depois, para guardar uma l�ngua, � preciso que ela se guarde tamb�m a si mesma, e o melhor dos processos � ainda a composi��o e a conserva��o de obras cl�ssicas�. Mas a coisa estava totalmente diferente na atualidade, sendo que isso o incomodava muito.

     Leu sofregamente Elio Gaspari, A ditadura escancarada e A ditadura envergonhada, sentado num cantinho da livraria, no ch�o, pois era proibido fazer anota��es e n�o entendia porque, sendo a grande meta de um povo o conhecimento, a ABL calou-se ante livros proibidos e seus autores que foram perseguidos, abaixando suas armas frente � ditadura.

     Vinha ele velozmente no leme do seu conhecimento liter�rio, obrigado que foi a atingir o seu porto no menor tempo poss�vel, se indignando aqui, se esquivando ali de alguns blocos de gelo que nem percebeu o grande iceberg que se aproximava. Um fen�meno travestido de coelho estava usando a magia para anestesiar milh�es de leitores em todo o mundo, e principalmente no Brasil.

     Diziam se tratar de um roedor (de c�rebros) que de tanto ser puxado da cartola de um m�gico pelas orelhas, revoltou-se e, apossando-se da varinha m�gica, trocou de lugar com o tal prestidigitador. Outros contam que era um menino t�o burro que de tanto ser puxado pelas orelhas por sua m�e, foi transformado em coelho por um bruxo que por ali passava e se impressionou com o tamanho das ditas orelhas. Foi ent�o aprisionado pelo m�gico da est�ria anterior.

     Indiferente aos boatos, Paulo o coelho tentou ler e, mesmo ultrapassando Raquel, s� conseguia chegar com aten��o at� a p�gina dez de cada lan�amento. Depois tudo se repetia. Era como se estivesse lendo c�pias de reda��es de escola fundamental. Como p�de um dia ter havido algum relacionamento desse letrista com o nosso maluco beleza? Como pode ser um campe�o de vendas? Perguntava.

     Tentou encontrar explica��es em f�runs, chats, papers, palestras da Internet, mas os coment�rios eram sempre os mesmos: uns achavam que os livros eram c�pias e adapta��es baratas de livros americanos e europeus; outros diziam ser uma farsa, pois o mesmo se intitulava mago da ordem dos sapos em uma grande religi�o crist� e at� fazedor de chuva; �At� tu Brunus?�, comentavam amigos do Tolentino; pessoas esclarecidas diziam que o povo estava sendo explorado na sua crendice, emo��es e car�ncias religiosas n�o tendo nada a ver com intelectualidade, pois eram livros repetitivos, frases feitas, de auto-ajuda (ajudando a alienar mais ainda o leitor); uma pobreza franciscana, etc.

     O coment�rio de um internauta dizia: �O coelho � sempre af�vel e esperto, esse faz uma leitura que atende globalmente aos interesses do imp�rio que hoje domina o mundo. Conta j� com uma quinta-coluna nas pr�prias universidades; inclusive, o que � ainda mais espantoso, nos cursos de Letras, onde mestres incautos ou espertos como ele tentam incutir em alunos indefesos e ing�nuos � ou quem sabe professem as mesmas cren�as dos mestres que j� se ajoelharam diante do deus mercado � a id�ia, ainda que vaga e difusa, de que hoje vivemos a era da esperteza e que fora dela n�o h� salva��o�.

     Paulo n�o tinha ouvido coment�rio t�o expressivo, depois daquele do frei renunciando em favor do padre o posto de �Xuxa da Igreja�. Ficou sabendo ainda que a legi�o dos seguidores do coelho � t�o grande que se ele decidisse fundar uma igreja coletora de d�zimos, deixaria o bispo universal no chinelo.

     Ent�o aconteceu o desastre. O choque com o iceberg partiria e afundaria de vez o seu querido titanic. O coelho n�o mais poderia ser ca�ado. Tornara-se imortal. E em estado de choque ficou Paulo imaginando se Machado, que j� se revirara outras vezes, agora n�o iria saltar do t�mulo. Ora, quando se diz coisas do tipo �tenho disc�pulos porque sou obrigado, mas n�o tenho o menor saco�; �n�o gasto mais energias para abrir o tr�nsito com a for�a do pensamento, fazer chover, ventar, ficar invis�vel, mas posso fazer tudo isso�; �Nada de bom foi escrito sobre Espanha e Egito, antes de mim�; �h� um facismo cultural no Brasil�; �Ulisses � ileg�vel�; �Sidarta � mal acabado, Hesse n�o soube como acabar o livro e meteu um rio no final�, � porque a Literatura virou uma sopa de letrinhas a boiar no mar gelado do besteirol.

     Ent�o foi a pique finalmente as esperan�as de Paulo. Depois de entender porque Drummond recusou o fard�o, decidiu mesmo partir para o Nordeste, no transcorrer do ano de 2002, onde conseguiu de imediato coloca��o em um jornal como ajudante geral, desistindo da literatura e do sonho de ser escritor ou jornalista famoso.

     Um belo dia, arrumando os jornais, viu um an�ncio de uma universidade que dizia: �Fa�a seu vestibular para jornalismo. Bolsa garantida�. Imediatamente pediu dispensa e, esquecendo-se da jura de n�o mais estudar, correu at� a faculdade e se inscreveu para fazer o vestibular que seria dali a trinta dias. Conseguiu suas f�rias adiantadas e estudou dia e noite feito um condenado, at� que chegou finalmente o t�o esperado momento.

     Era uma prova �nica que encerrava com uma disserta��o de car�ter eliminat�rio cujo tema era a Academia Brasileira de Letras e que deveria ter por conclus�o, uma frase sobre o pensamento do candidato acerca da �ltima admiss�o para essa academia.

     Ent�o, depois de uma bela explana��o sobre a ABL, Paulo finalizou a disserta��o:

�Rui, de machado a coelho, vertiginosamente um jardim: o de Academus�.

     N�o deu outra: Foi reprovado. Entrou com um recurso em tempo h�bil e conseguiu, atrav�s de advogados, a oportunidade de revis�o da prova com os c�lebres argumentos de direito de express�o, etc. Como sua prova estava excelente mas a frase final era impr�pria, na opini�o da comiss�o julgadora, foi-lhe dado a chance de construir uma outra frase mais filos�fica e menos pejorativa para a Academia Brasileira de Letras. Um minuto depois, escreveu:

Disse um fil�sofo Pedetista que, para ele, pol�tica � a arte de engolir sapo barbudo. Analogamente, para n�s mortais, Literatura moderna � a arte de engolir coelho barbudo�.

     J� matriculado em outra faculdade, Paulo ainda aguarda o resultado dessa prova lamentando o naufr�gio das letras. Entretanto, esse epis�dio lhe rendeu a alcunha de
Pau no Coelho, e com esse nick � conhecido na web.
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