| BRIGA DE CACHORRO GRANDE |
| Eu sou um cachorro pequeno. Desses vira-latas bonach�es, inteligentes, tranq�ilos, gozadores e n�o mexo com ningu�m. Nem corro atr�s de carro pra n�o me machucar (ali�s, acho isso uma babaquice). Jogo minha capoeira, tomo meu chimarr�o, pulo meu frevo, sou f� do Caprichoso e da Mangueira, entriste�o quando o Mengo perde, me perfilo quando ou�o o hino nacional, enfim, o trivial. Fa�o meu trabalho direito, tomo conta da minha casa com orgulho e paix�o, mas sempre que pinta uma oportunidade, me junto � turma e vou brincar de qualquer coisa, vou � praia, azaro umas minas, brinco com meus filhotes. �..., levo a vida que Deus me deu. Tenho a sorte (ou azar) de ter por amigo l� da zona norte, um cachorro de grande porte, inteligente (at� certo ponto), valente (nem sei at� onde), patriota, tirado a s�rio, com um rei na barriga, que anda se metendo em toda confus�o que encontra e at� as procura. Como � forte, arrota valentia e os pequenos tremem s� em v�-lo passar. Todos os donos que ele teve, exceto o da cartola, eram brig�es e arrogantes, semelhantes a esses lutadores de Jiu-Jitsu, que criam aqueles pit-bulls assassinos, s� para se firmarem como dur�es. Periodicamente ele ajuda a alguns famintos, levando-lhes carne reciclada s� para manter a superioridade e autoriza��o de passagem sobre territ�rios, demarcados com a urina desses coitados, a fim de morder seus vizinhos. Gosta de impor suas opini�es em todas as discuss�es. At� uma organiza��o, que foi criada para ser um juiz neutro e imparcial de todos os conflitos da ra�a (Organiza��o dos Neutros Unidos), reza pela sua cartilha. Quando vou � sua casa sempre sou confundido com um chichiuaua, mas quando ele vem � minha, todos babam, e as f�meas ent�o, nem � bom comentar. Eu �s vezes brigo, que ningu�m � de ferro. J� me meti em confus�es violentas como aquela para me livrar do dom�nio da turma da zona nordeste, hoje amiga, do al�m Tejo, e que foi embora, mas deixou aqui meu primeiro dono oficial. E mesmo sabendo o que dizia o art. 34, n. 11 da Constitui��o de 1891, ainda me meti em v�rios conflitos mesmo sem analisar se era justo ou injusto. Estive at� em uma briga que considerei desproporcional, na qual me juntei com duas turmas da zona sul para dar cabo de uma outra turma, encrenqueira e nossa vizinha, numa briga, a meu ver desigual, finalizando dentro de um rio. Uma tremenda caxiagem. Como na maioria das vezes tive donos maria-vai-com-as-outras, certa feita fui mandado para a It�lia defender os amigos desse meu amigo famoso, que estavam se engalfinhando com uns dogs alem�es. Subi monte, desci monte, quase pegando touro � unha � no dente, melhor dizendo, num frio de lascar. Tudo porque aquela turma da zona leste, pequenininhos, parecidos com pequin�s, olhinhos esticados, feriram ele l�, no p� ou rabo. E olhe que eu quase vou brigar ao lado desses dogs � ou panzers, como eram apelidados. Se meu dono na �poca (que Deus lhe d� um bom lugar) n�o tivesse mudado de lado, com aquela est�ria, at� hoje mal entendida, de uns barcos em cima d��gua destru�dos por outros, que andavam em baixo, talvez hoje eu estivesse me alimentando de chucrute. Tamb�m tive brigas vergonhosas dentro de minha pr�pria casa (quem n�o as teve?) como foi o caso de vira-latas sertanejos que s� queriam rezar e entraram pelo canudo quando foram massacrados pelo meu dono na �poca, depois de ter perdido tr�s campanhas para aqueles esfomeados. Esfarrapados (por dez anos) tamb�m brigaram pelos seus ideais de liberdade. Mas esse meu amigo andou se metendo em encrencas bem piores que as minhas. Tamb�m pudera, bem preparado, tido como o bam-bam-bam em todas as zonas, podia se dar ao luxo de se meter em qualquer conflito e se sair bem. Todavia, isso nem sempre aconteceu e ele pagou muito caro pela intromiss�o em assuntos alheios. Certa feita, a turma de uma zona pertinho daquela l� do extremo leste de quem lhes falei, tamb�m pequeninos, de olhos puxados tipo pequin�s, andaram brigando entre si. Coisa de fam�lia. O dono do meu amigo (sempre os donos), achou que devia se meter tomando partido de um dos lados. Mandou-o para l� com uma conversa bonita, de defender sei l� o que. Por�m essa turma mignon era especialista em cavar buracos, e armou uma tremenda arapuca para ele e seus companheiros. Os amarelos (como eram chamados pelos descrentes em sua for�a) na qualidade de peritos em escava��o batiam e se escondiam t�o bem nos buracos, que o jeito foi voltar para casa, de onde nunca deveriam ter sa�do, e com o rabo entre as pernas. Outra vez acharam de se infiltrar em uma praia que n�o era a deles, cheia de porcos, l� pelas bandas da zona central. Acho que os porcos n�o gostaram da intromiss�o, tacaram-lhes dentadas e, mais uma vez tiveram que fugir �s pressas. N�o contente com esses malogros, come�aram a se indispor com uma turma da pesada, acostumada ao sol escaldante, automordedores, umas verdadeiras bombas ambulantes. Conversa vai, conversa vem, acabaram por se meter em outro conflito, de grupos altamente radicais, tipo ninjas, que todos sabem que existem, mas ningu�m os v�, uns cara-peludas que ainda por cima s�o abastados materialmente. N�o deu outra. Esses radicais que desprezam suas vidas, aprenderam todos os truques de combate, e at� o pulo do gato, l� na zona norte, deram uma mordida maior na Grande Ma��. Ora todos sabem que ela � a menina dos olhos do meu amigo, seus irm�os e seu dono. Em conseq��ncia, esse �ltimo convoca os donos de cada zona para entrar nessa briga, sob amea�a de considera-los inimigos, ou seja, imposi��o pelo medo. Essa bucha que queriam nos empurrar e nada mais era que uma bucha de canh�o, felizmente ainda n�o vingou. Ora, uma coisa era repudiar o ato praticado pelos radicais, o que todos os meus compatriotas e eu o fizemos com veem�ncia. A outra, era entrar numa briga que ainda n�o era a minha, al�m do mais for�ado. Pergunto: E eu com isso? Como essas amea�as n�o vingaram, o dono do meu amigo resolveu agir por conta pr�pria e mandou o pobre coitado farejar todas as cavernas de um imenso deserto para encontrar o respons�vel pelos atentados. Mas antes festejou o maior S�o Jo�o por aquelas bandas tocando at� aquelas bombas que entram no ch�o a dentro em busca de esconderijos enterrados. N�o deu resultado mesmo sendo ajudado por parentes do grande inimigo peludo que at� hoje anda por a� gozando com a cara dele. A mais recente do dono do meu amigo � o repentino amor por todos aqueles donos ditos aliados e seus cachorros, fazendo-os crer que iria promover a paz mundial. Para isso teria que varrer do mapa um outro c�o raivoso, que o seu pai tinha tentado destruir, sem sucesso, quando se metera mais uma vez em briga de vizinhos. Motivos nem precisaria apresentar, pois j� foi explicado pelo dono de um primo meu distante, um tal de Esopo. Ele disse que meu primo queria devorar o cordeiro que bebia �gua no mesmo rio, s� que na parte baixa da correnteza, e deu como desculpa o fato do pobre coitado estar sujando a �gua. Ipsi literis, o dono do meu amigo justificou que esse agora inimigo n�mero um, tinha muitas armas escondidas (um desaforo, pois s� quem poderia ter era ele pr�prio) e tamb�m poderia no futuro cobrar caro por aquele �leo preto que brota do ch�o da casa dele. Logicamente que a Organiza��o dos Neutros Unidos n�o poderia fazer nada pois tem medo dele e, apesar de muitos protestos internacionais, a turma do �eu tenho a for�a�, no estilo do velho oeste, mas com armas de poderio astronomicamente mais avan�ado, partiu como rolo compressor (literalmente) para cima dos pobres cachorros. Uma cachorrada. O Senhor da Guerra, como hoje � conhecido, transformou um fera assassina em v�tima e ainda vai matar muitos que nada tem com o caso. Como, imaginem voc�s, ele conta com aliados de peso e nobreza para essa carnificina, j� loteou todo o territ�rio atacado entre eles, e, como diz o ditado, "quem parte e reparte, fica com todo o �leo". N�o sei como vai terminar tal conflito, mas desejo estar aqui para contar o resultado. S� espero que o meu companheiro e diplomado dono, continue com suas cuidadosas declara��es, n�o cutucando a on�a com vara curta, sen�o sobra pra mim. Pode at� ser solid�rio com o dono do meu amigo, sempre apresentando nossos sentimentos pelas suas quedas, desmaios, engasgos e outros trope�os (que n�o s�o poucos, e herdados) mas tamb�m procure n�o confundir defla��o com desvaloriza��o e dar sequer esperan�as, algum dia, em se meter nessas brigas, uma vez que se trata de BRIGA DE CACHORRO GRANDE ! |
![]() |
![]() |
![]() |