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Capítulo Quarto

Capítulo IV


Alice foi para casa. E desta vez estava feliz com a possibilidade de ganhar um novo amigo, o amigo que tanto lhe fez falta nas horas mais tristes dos últimos meses. Subiu para o seu quarto e, chegando lá, deitou-se em sua cama e ligou o aparelho de som. Neste momento não era apenas a pastoral de Beethoven o hino retentor de toda a sua calma, que a relaxava, que a afagava, mas também, a pintura amiga e serena traduzida na lembrança de Tales. Ali, Deitada em sua cama, os olhos frisados no anjo pintado no teto, logo acima, deu espaço à uma profusão de pensamentos guiados pelo onírico afresco que ganhara de sua mãe, uma artista, quando fez cinco anos. Praticamente desprendeu-se de seu próprio corpo e deixou-se empolgar pela estranha, mas bem-vinda sensação de paz que a dominava desde que teve a última conversa com Tales. Este homem tão enigmático e surpreendentemente diáfano tinha o poder de colher as lágrimas de Alice uma à uma e fazer delas suas palavras para então confortá-la. Alice via nele uma espécie de ponte, a qual poderia atravessar em busca de abrigo, se acaso de seu lado um temporal desabasse. Levantou-se diante da observação da hora que o relógio marcava, uma hora e meia da tarde, e deu-se conta de que em virtude do tempo que passou divagando, perdeu a hora do almoço. Quando teve o impulso de se levantar e se dirigir para ir comer algo, o telefone toca. Ela, ainda deitada, estende a mão para alcançar o telefone sobre o criado-mudo, num gesto de puro esforço para consegui-lo.
- Sim?!
- Boa Tarde. Por favor, eu gostaria de falar com a Alice.
Ela reconheceu a voz...
- Que pecado! Nem reconheceu minha voz! - riu.
- Ah! Claro! Eu reconheci sim... só falei aquilo tudo para fazer média e você achar que eu sou um cara educado!
- Oh, sim, como não? Então? Não agüentou ficar sem ouvir a minha voz e decidiu ligar para ter mais uma vez o prazer de que as ondas sonoras oriundas de minha tenra boca atinja seus ouvidos?- brincou- Caramba... acho que sei porque dizem que eu sou dramática...
- Nossa! Mais que injustiça! Bem... eu liguei para ter certeza de que você vem mesmo... só queria uma confirmação... Diga que sim!
- você sabe ser convincente... eu vou sim, Tales... é só o tempo de eu tomar um banho, comer algo... e passo aí, certo?
- He! Não durmo hoje! Certo! Vou estar te esperando... Tchau!
Ele desligou o telefone enquanto Alice se ocultava atrás de um sorriso bem espalhado... Ela deslizou os dedos sobre as almofadas, tomou fôlego e se levantou.
Foi direto para a cozinha, onde levou uma bronca da governanta, sua antiga babá que cuidava dela desde que sua mãe morreu, a simpática Dona Olga.
- Sente-se bem, menina? Pedi à Dulce para ir te chamar na hora do almoço, mas ela disse que a porta estava trancada e a música tão alta a ponto de duvidar que alguém em condições normais pudesse ouvir algo além dela.- Olga sorriu e abraçou Alice maternalmente, que beijou o rosto marcado pelo tempo da velha senhora.- Eu te conheço, minha menina! Você só costuma fazer isto ou quando está muito triste, ou quando está muito feliz, nunca por acaso! Então, conta para sua velha amiga o que há.- seguiram abraçadas até a mesa, onde à ela sentaram-se.
- Conheci um rapaz.- estavam de mãos dadas, num gesto de compreensão mútua e familiar.
- Nossa! Quem será esse que até do almoço te faz esquecer?
- Um novo amigo, um novo e bom amigo. Você lembra de um filho do Alberto que foi embora estudar na Inglaterra?
- O Tales?- Perguntou surpresa.
- É ele mesmo. Voltou há pouco menos que uma semana, e, eu fiquei até um pouco atônita com o fato de nunca termos nos encontrado antes, a não ser quando crianças, sendo nossos pais tão próximos. Sinceramente, parece até coisa de dramalhão mexicano... Olga olhou para sua "quase filha", como a chamava, suspirou e rebuscou uma história.
- Eu vi aquele menino nascer. Antes de ser sua babá, já havia-lhe trocado muitas roupas sujas! Ele deve estar um homenzarrão! Na última vez que eu o vi, ele tinha onze anos, e era o dia de sua despedida, pois estava de malas prontas para a Europa. Depois que ele foi embora, eu não via mais porque trabalhar naquela casa, logo pedi minha demissão e seu pai me contratou para cuidar de você, que tinha acabado de ter sua matrícula no colégio interno trancada. Seu pai fez isso para que você ficasse mais perto de sua família, o que lhe ajudaria a suportar melhor a perda de sua mãe. Vocês nunca haviam se encontrado depois de adultos por puro golpe do destino, e agora, o mesmo destino lhes põe no mesmo caminho. Talvez para compensar o longo tempo de desencontros.
- Nossa! E eu que nunca soube dessa estória.- Riu.- Olguita, são que horas?
- Faltam quinze minutos para as duas horas.
- Tenho que ir, até logo!- levantou-se após apanhar uma maçã na fruteira e seguiu apressada.
- Nem almoçou! Para que tanta pressa?
- Tenho um compromisso.
Menina!- Gritou chamando Alice, que só se virou e acenou correndo, logo saindo da casa.- Sempre com pressa.- Resmungou.

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