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Capítulo Terceiro

Capítulo III


Os raios de sol penetravam através das frestas da persiana, e seguiam numa trajetória retilínea para acordar Tales, que estava quase que totalmente recuperado do que lhe acontecera havia três dias. Alice não apareceu para visitá-lo novamente desde o que se sucedera quase dois dias antes. Lamentava profundamente ter magoado tanto Alice logo que a conheceu. - Culpa minha - pensava - não ter medido as palavras, não ter pensado bem antes de falar.- O rosto aflito de Alice ao sair, seus olhos mergulhados numa promessa de lágrimas, eram fatores fortes o suficiente para deixar Tales comovido. A porta bateu e, em seguida, se abriu. Era seu pai.
- Ora! Meu filho, o que foi que aconteceu? Você está bem?- Disse o velho aproximando-se com uma feição preocupada.- Alguém do hospital me ligou dizendo que você estava internado aqui.
- Papai! Até que enfim resolveu vir me visitar!- Gracejou Tales com um receptivo sorriso entre os lábios, mas não perdendo o tom irônico e sarcástico que sempre destilara contra seu pai.
- Que é isso menino?- Riu - Tanto tempo sem vir ao Brasil e, quando veio, te acontece isso! Mas, me diga, como você veio parar aqui? Foi um acidente, ou, está fugindo do seu pai?- Continuou a rir.
- Pai, você acredita em coincidências? Pois foi praticamente o que se sucedeu: Eu tinha acabado de sair do aeroporto, mas resolvi não avisar ninguém da minha chegada porque queria fazer uma surpresa no seu aniversário. Peguei um táxi para o hotel onde eu ficaria até o "grande dia". Depois resolvi dar uma caminhada pelas redondezas para relaxar, então, quando estava cruzando a rua do hotel, um carro me pegou quase de jeito. O motorista me trouxe para cá, onde estou sendo muito bem tratado, e...- Ele foi interrompido por uma agradecida exclamação do pai.
- Desculpe interromper-te meu filho, mas eu procurei a recepção a respeito dos serviços e honorários e já estava tudo pago, absolutamente tudo. E esta pessoa fez questão de que você contasse com os melhores médicos.
- Bem, como eu ia dizendo, há três dias o causador desse acidente veio me visitar e foi então que eu vi que não era ele, e sim ela e que era linda! Meu Deus, como era linda! Nós nos apresentamos, ela reconheceu meu sobrenome, e disse que lhe conhecia e, veja que coincidência, que o pai dela é seu sócio! Ela é Alice Arruda. Será que pode haver incidente, digo, coincidência maior?
- É, meu filho, vindo de quem veio, era o mínimo que se poderia esperar. Alice é uma moça excepcional, é de sua natureza ajudar alguém com o máximo empenho que puder. Mas que coincidência, rapaz! Logo a Alice!- Gargalhou diante da expressão atônita do filho e citou quase reprimido pelos risos:- Seria cômico, se não fosse trágico! Essa frase é tão batida que nem tem mais graça... mas se aplica muito bem ao seu caso...
- Pai! Tudo bem eu classificar isso como uma coincidência absurda, mas não tem nenhuma graça o fato de eu ter sido atropelado justamente pela filha do seu sócio! E depois, eu podia ter morrido.- Destilou chateado.
- Ora! Tales! Isso não é motivo para você ficar zangado.- Riu silenciosamente - Até parece coisa de filme.
- Está bem. Escuta pai, precisamos falar sobre...
Ao pronunciar desta oração incompleta, três batidas oriundas do recinto exterior calaram-no. - Pode entrar!- gritou aborrecido. A porta se abriu, era Alice.
- Bom dia.- Direcionou um sorriso amistoso para o sócio do seu pai.- Oi Alberto! Desculpe privá-lo da companhia de seu filho, mas eu preciso falar com ele a só.
- Ora, minha querida! É claro, além do mais, você sabe que para mim, como dizem por aí, seu desejo é uma ordem. Bom,- Sorriu - eu estou indo.
Alberto despediu-se dos dois e cruzou a porta, logo em seguida fechando-a, deixando o semblante cabisbaixo de Alice de fronte à figura envergonhada pousada em Tales. Ele cerrou os lábios numa expressão de dúvida, como quem deseja muito dizer a coisa certa, na hora certa, mas não sabe de que modo proceder. Alice permaneceu estática, com os braços cruzados, deixando a franja negra tingir-lhe a face, de pé e vacilante em frente ao leito de Tales. Ela deu cinco passos, o suficiente para atingir a lateral da cama, e o fez deslizando com um tom de medo e receio o pequenos pés sobre o chão frio do quarto, então pôs a mão esquerda sobre a testa dele. Agora, sem querer, Tales se transformara em seu amigo, sem querer ele, de certa forma, estava obrigado a permitir que Alice dividisse com ele toda a sua dor, em relação à qual ainda era demasiadamente leigo. Alice fechou os olhos.
O quarto em si era gélido... transmitia um quê de mórbido perante suas paredes em tom areia e umas poucas violetas deixadas pelas enfermeiras que viraram fãs do belo paciente. Certamente não era o ambiente apropriado para a conversa que Alice viera Ter com Tales, mas, mesmo assim, ela começou:
- Eu acho que te devo uma explicação, a final, saí daqui efusivamente, de modo rude, e...- para despender estas palavras de desculpa, recolheu sua mão da testa de Tales, recostando-a junto ao travesseiro e logo foi interrompida pela compreensiva voz de Tales.
- Escute, Alice! Você não me deve nada. Muito pelo contrário! Eu é que te devo. Sei que foi um acidente, mas, com certeza, se fosse outra pessoa eu poderia estar agora fantasiado de indigente num corredor de qualquer hospital público, à mingua. E depois, a culpa daquele incidente foi inteiramente minha, pois eu devia pensar mais antes de falar. Desculpe! - Tales permitiu que seu olhar penetrasse inocente na silenciosa e expressiva eloqüência trajada de negro que eram os olhos de Alice, que sorriu.
- Eu sinto necessidade de te contar o que aconteceu.- Alice olhou para cima e fechou os olhos, procurando, não se sabe de onde, forças para relembrar espontaneamente o angustiante episódio.
Notando o esforço de Alice para conter uma possível, mas insistente lágrima, Tales tentou, afagando-lhe os cabelos, consolá-la.
- Talvez seja melhor deixar isso para depois, Alice. Sabe, nós nos conhecemos há pouquíssimo tempo, e já temos uma certa ligação: Lembre-se de que eu sou sua primeira vítima em atropelamentos!- Alice abandonou a face desolada, dando lugar ao seu luminoso e escondido sorriso de alegria. Tales soube como fazer isso por ela.- Mas se é de sua vontade desabafar, apesar do pouco tempo, você pode encontrar em mim um amigo.
- É impressionante como a afinidade independe do tempo. Obrigada Tales! Eu estava mesmo precisando contar tudo isso para alguém. Meu pai trabalha muito e depois que minha mãe morreu ele se fechou.- Alice segurou a mão de Tales com um leve sorriso estampado no rosto. E continuou:
- No dia do meu aniversário meu pai deu uma grande festa. Estavam todos lá: meus colegas de faculdade, meus parentes, Fernando, meu noivo, e Paula, minha melhor amiga. Estava tudo muito divertido, legal, mas depois das quatro horas da manhã todos já tinham ido, e, ficamos apenas nós, Fernando, Paula e eu, para o fim da festa. Surpreendi os dois aos cochichos planejando algo para mim. Eles haviam alugado um tílburi para que pudéssemos terminar a minha festa com a realização de um antigo sonho. É que quando eu era criança, minha avó lia para mim trechos de alguns romances antigos. Saímos pelas ruas e resolvemos descer a serra, mas chovia muito, e durante o percurso, uma árvore caiu à nossa frente, os cavalos se assustaram, o tílburi acabou virando...- Aquela mesma lágrima insistente transbordou dos olhos de Alice, e Tales segurou sua mão ainda mais firme, dando-lhe força para que ela seguisse. Alice enxugou-a com afinco.- E… eu não me lembro de mais nada e, alguns dias depois, soube que eles haviam morrido. Alice pôs-se a chorar como uma menina. A reação de Tales foi acolher a recente amiga entre os braços, mesmo um pouco restringido pela dor que este movimento causava ao seu machucado, num longo e carinhoso abraço fraterno. Ele a apertava com força... como que se fosse para segurá-la para que ela não caísse em algum abismo.
- Eu ouvi dizer que chorar faz bem, mas isso não significa que você, para ser feliz, precise passar a vida toda chorando.- Ele recostou ainda mais a cabeça de Alice em seu ombro, ocasionando isto com uma leve pressão contra sua nuca, trazendo a frágil menina para mais perto de si.- Eu tenho uma boa notícia! Que tal sairmos para jantar hoje?- Alice sobressaltou-se, ficando, admirada, logo risonha.
- Acho meio difícil sairmos para jantar com um litro de soro a tiracolo.- Sorriu enxugando uma última lágrima.
- Ora, Ora! Já está fazendo piadinhas? É um sinal de melhora. Para sua felicidade, eu saio daqui hoje! Vou ficar com esse gesso ainda algumas semanas, mas nada que uma boa dose de carinho não cure.- Ambos riram.
- Você não existe! Seu pai sabe da boa notícia?
- Não, ele não sabe. Olha, eu estou sem carro. Será que você poderia passar aqui para me pegar às duas da tarde?
- Claro que sim! E respondendo a sua pergunta, poderemos passar a tarde juntos e à noite você iria me buscar para jantar, fechado?
- E selado!

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