
Capítulo
Segundo
Capítulo
II
As paredes
do quarto pareciam sufocá-la, teve um súbito impulso,
levantou-se e pouco tempo depois seu carro cruzava a porta de saída.
Ia em alta velocidade, a chuva cortava o pára-brisas e as lágrimas
cortavam-lhe as faces. A agonia era tão intensa que Alice deixou-se
abstrair e não notou enquanto alguém atravessava a rua.
Levara as mãos à cabeça, parou o carro violentamente,
desceu e viu um homem no chão esvaindo-se em sangue. Prestou-lhe
socorro.
Cinco horas da manhã e Alice ainda estava acordada, entre goles
e mais goles de café, naquele gélido e inerte cômodo
de uma grande clínica particular da cidade, preocupada, na ânsia
de receber notícias sobre o homem que atropelou. Estava sentada
na sala de espera do hospital. Havia ali, no canto esquerdo do sofá
onde a impaciente Alice estava postada, uma frondosa samambaia, que
em seu louvor, derramava docemente seus ramos como que para confortar
a aparentemente frágil menina naquele tão sombrio momento.
Trêmula, acabara de se servir de mais uma xícara de café
quando um médico chegou para deixá-la à par da
situação.
- Alice Arruda?- Perguntou o médico responsável - O Sr.
Freitas, segundo encontramos em seus documentos, apresenta uma séria
fratura no braço direito, e uma hemorragia como conseqüência
desta lesão exposta. Fora isso, apenas edemas.- Declarou após
obter uma resposta positiva para sua pergunta.
Alice acompanhou toda a oração com os olhos fechados,
segurando as mãos, como se estivesse torcendo para que não
fosse nada de sério. Ao ouvir por completo a declaração
do médico, sentiu uma corrente de alívio percorrer-lhe
a espinha e olhou veemente para o crucifixo aderido à parede
da sala de espera.
- Obrigada, meu Deus, obrigada!
- Se quiser, pode visitá-lo agora.
Alguns minutos depois, Alice estava diante do quarto que reservara para
o tal. Respirou fundo, segurou firmemente o trinco da porta entre as
mãos e entrou.
Ele estava deitado em seu leito, ainda um pouco tonto em função
da anestesia à qual havia sido exposto para que pudessem operá-lo.
O quarto estava à meia luz, por isso ele não notou Alice
no exato momento em que ela entrou.
- Oi! Como se sente?- Perguntou Alice vacilante.
- Atropelado!- Respondeu ele com muito bom humor.
- Sinto muito. Eu não estava bem
e a chuva atrapalhou...
Ele a interrompeu:
- Se eu soubesse que quem havia me atropelado era uma mulher, e ainda
por cima, tão linda, teria me jogado embaixo do carro.
Alice não entendia a razão de tanta cordialidade, afinal
de contas, aquele homem estava ali por sua culpa. Ela o colocara naquela
situação, e, mesmo assim ele sorria... e o fazia com a
graça de um anjo que descobre que já é chegada
a hora do alvorecer. Ela deslizou levemente a mão por entre os
cabelos.
- Você deve ter batido a cabeça.- Alice sorriu.
- Além de linda, modesta! Muito prazer, eu sou Tales Freitas.-
estendeu a mão.
Este sobrenome não era estranho para Alice.
- O prazer é meu. Sou Alice Arruda.- Cumprimentou-o.-
O seu sobrenome é bem familiar para mim.
- A minha família é muito conhecida por essas bandas.
- Talvez você seja parente do Sr. Alberto Álvares. É?
- É meu pai. Não me diga que você o conhece?
- Sim, ele e meu pai são sócios. Espera aí, então
quer dizer que você é o tal filho ingrato do Alberto que
mora na Inglaterra?
- Morava. Agora voltei, e, vim para trabalhar na empresa onde ele é
sócio. É que eu já peguei meu diploma em administração.
Mas meu Deus, como esse mundo é um ovo de pequeno... olha só...
essa foi uma coincidência das grandes. - ele parou e pensou.-
Já me lembro de você! Papai me falava de uma moça,
filha de seu sócio, muito bonita que estava para se casar. E
aí, já voltou da lua de mel?- Perguntou amistoso. Mesmo
distantes, Tales e o Pai, Mantiveram contato esporadicamente.
Para responder, Alice sentiu um nó apertar seu peito, e, teve
que engolir a sufocante vontade de chorar.
- Não cheguei a me casar.
- Que noivo é esse que não quis se casar com uma mulher
assim tão linda? O que foi que ele fez para você?- Brincou.
- Morreu... - Alice pronunciou esta reticente palavra com lágrimas
nos olhos, e, temendo que seu pranto desatasse outra vez, saiu do quarto,
deixando Tales triste e envergonhado. Ela passou pela porta como um
raio... sem ao menos deixar que ele perguntasse o que estava havendo.
Alice chegou em casa ainda perturbada pela elucidação
das recentes memórias já quase escurecidas causada pela
inocente declaração de Tales. A altivez de seus olhos
negros estava naufragando em lágrimas, sentiu vontade de soluçar,
enxugou os olhos e entrou. Passou pela sala contando com que ninguém
a visse e a surpreendesse desfalecendo, mas seu pai, que estava sentado
em sua costumeira poltrona lendo seu jornal como fazia todos os dias,
depois do café da manhã, sobressaltou-se de onde se acomodava
devido às estridentes passadas da filha, virando-se em seguida
e flagrando-a em sua tristeza. O experiente homem levantou-se acolhedor,
enquanto Alice tentava ocultar o rosto amargurado cobrindo-o com as
mãos em tom envergonhado. Ele caminhou até a filha em
passos contados, levemente passou-lhe a mão entre os curtos cabelos
negros, levantou-lhe a face, fechou os olhos em sinal de solidariedade
e abraçou Alice. Ela se desmoronou nos braços do pai,
desatando num choro sentido.
- Por que? Pai, por que?- Indagou aos soluços. E continuou: -
Até quando eu vou sentir a morte deles? Até quando eu
vou viver assim? Pai! às vezes até pensei que também
iria morrer.
- Ah! Menina, todos um dia irão embora. E só nos resta
aceitar o que não podemos mudar. Você nunca conseguirá
esquecê-los. Mas um dia vai acordar e conseguir relembrá-los
sem se sentir triste, e isso porque irá pensar apenas nos momentos
felizes que vocês tiveram, e não nos últimos que
ainda são muito difíceis de serem revividos, pela tristeza
que causam.- Disse afagando os cabelos da filha. Ela sorriu timidamente,
fechou os olhos com força e os abriu novamente para tentar forçar
o fim das lágrimas no momento.
Consolada pelo pai, Alice subiu as escadas e seguiu através do
longo corredor para chegar ao seu quarto. Entrando, encontrou sua cama
ainda feita, e esta parecia convidá-la para um bom dia de sono
para pagar a noite perdida por preocupações. Deitou-se,
e a angústia que ela sentia, perdia espaço agora para
uma imagem ainda a se materializar diante de seu pensamento contido
pelos olhos fechados. Era a simpática figura de Tales envolta
em uma névoa que só deixava transparecer o brilho ofuscante
de seus esmeráldicos e enigmáticos olhos verdes. E seu
sorriso! Pensava Alice. Ela se sentia estranha, meio diferente, pois
o desastrado encontro com Tales produzira em seu coração
o mesmo efeito que produz a chuva quando banha uma flor quase murcha
e castigada pelo sol. Sentiu então uma enorme necessidade de
falar com ele e se desculpar pelo incidente ocorrido ao visitá-lo
no hospital. Mal o vira... mas já se sentia na obrigação
de se explicar pelo que ela havia feito... Deixá-lo assim, sem
nada saber certamente não seria correto.
A atmosfera de seu quarto a deixava mais calma...Era o vento que soprava
lá fora e balançava harmoniosamente as folhas da mangueira,
que faziam uma bela coreografia traduzida em sombras sobre a cama de
Alice. Ela estava pensando nele... estava impressionada não sabia
ao certo com o quê... Mas queria voltar a vê-lo... Enfim
conseguiu dormir, mas, nem bem nascera o dia, e ela já estava
preparada para se deparar com aquele homem de novo... Ela realmente
precisava falar-lhe. Para tal, se dirigiu à clínica.
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